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Política

Gabriel Bonis

Combate ao crack

31.05.2011 11:57

Polícia quer internação compulsória de dependentes

No último dia 19, a Comissão Especial de Políticas Públicas de Combate às Drogas da Câmara dos Deputados visitou a Cracolândia, no centro de São Paulo. O objetivo da viagem era analisar os problemas existentes na região e propor medidas de âmbito nacional para o combate ao crack e outros entorpecentes.

Durante a passagem, os integrantes da força-tarefa trocaram informações com o Denarc, o órgão responsável pelo combate ao tráfico da Polícil Civil paulista. E uma das soluções apresentadas pelas autoridades do Estado promete causar polêmica: a internação compulsória de usuários. A medida, segundo as autoridades, teria uma  utilidade tripla: tirar os dependentes das ruas, diminuir o consumo e, consequentemente, o comércio ilegal de drogas.

Embora seja considerada “extrema e ineficiente” por especialistas ouvidos por CartaCapital, a medida deve ser ao menos debatida pelos deputados da comissão. O relatório final ainda está sendo elaborado e não tem data para ser concluído.

De acordo com estudos sobre casos de dependência, o tratamento por internação voluntária não apresenta maior eficiência do que os realizados em ambulatórios, mas a imposição de cuidados traz efeitos negativos. “Na internação compulsória, as taxas de recaída podem chegar a 95 %”, explica o especialista em dependências e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dartiu Xavier da Silveira.

Outro ponto contestado é a ideia de que a internação seria útil para diminuir as vendas e o uso de entorpecentes. Para a pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, Solange Nappo, o tráfico se organiza e cria estratégias para conquistar novos clientes. “Não é o consumidor que interfere nesse mercado, o tráfico decide a droga, o consumo e a ocasião”. Fato exemplificado pelo surgimento do crack no Brasil. “A droga apareceu no auge da epidemia de HIV/Aids, quando se perdia clientes para a doença. Então, foi introduzido como uma droga barata e semelhante à cocaína injetável”, explica.

Combate

Na visita à Cracolândia, a comissão colheu informações com a Polícia Civil, que serão usadas em um relatório sobre a situação. Entre as iniciativas propostas está também a necessidade de se investir em informação para os jovens, que já recebem palestras sobre drogas nas escolas. Tipo de abordagem, no entanto, ainda considerado insuficiente por Nappo. “O problema não deve restringir-se apenas ao tratamento. O debate deve acontecer em todas as instâncias: família, escola, trabalho e mídia”.

Em relação ao tratamento, o Brasil possui uma infraestrutura deficiente, sem vagas disponíveis para o número de dependentes, segundo a avaliação dos entrevistados. “A prefeitura paulistana pretende construir mais clínicas e governo estadual também”, admite o deputado Eli Correa Filho Eli Correa Filho (DEM-SP), membro da comissão.

A iniciativa, porém, não seria a mais adequada, segundo o professor Silveira. “A saída não é aumentar unidades de internação, mas implementar ambulatórios e capacitar melhor a estrutura já existente”. Opinião corroborada por Sandra Nappo. “Há um pensamento comum de que só a internação resolve o problema”, diz a especialista, que também critica o que chama de “conservadorismo” brasileiro no tratamento de seus viciados. “Vários países já inovaram nesse aspecto, adotando políticas de redução de danos que têm demonstrado eficiência em vários casos”.

O principal responsável pelo combate ao tráfico em São Paulo, o diretor do Departamento de Investigações Sobre Narcóticos (Denarc), Wagner Giudice, resume a complexidade da questão: “Por um lado o indivíduo é autorizado a usar a droga e, por outro, temos que coibir o tráfico. É um paradoxo”, afirma. “Estamos falando em internação e não em cadeia, algo que só aconteceria após a segunda ou terceira reincidência do indivíduo”, defende ele.

Segundo Giudice, a intenção da polícia não é simplesmente prender o usuário, mas dar a ele “uma chance de tratamento”. “Só que abordá-lo em pleno consumo e perguntar se quer ser internado não é viável”, justifica.

Para o diretor do Dnarc, a eliminação do problema da Cracolândia necessecita de uma série de ações conjuntas. “É preciso tornar o local menos propício ao tráfico, com incentivo fiscal para instalação de escolas e indústrias, além do combate aos traficantes”, destaca, apontando que é difícil lidar com uma região aonde o fluxo de usuários chega a duas mil pessoas.

Segundo estimativas de entidades relacionadas ao combate às drogas, o Brasil possui cerca de dois milhões de dependentes de substâncias ilegais. Por isso, o deputado Eli Correa Filho avalia que a internação compulsória deve ser analisada com cuidado. Só não deixa claro se os deputados terão coragem de colocar em pauta uma proposta de tal potencial de controvérsias. “O crack faz as pessoas perderem a noção da realidade rapidamente e isso tem consequências sociais”, diz.

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Sua opinião

  1. elisabete aparecida barbosa disse:
    Eu sou mãe de um rapaz criado de forma a mostrar o caminho do bem e do mal, teve em casa sempre bons exemplos, tem familia estruturada. E uma adolescencia tranquila, ensino medio completo e ia ingressar na faculdade, começou a bebidas alcoolica, cocaina e agora crack, isto depois dos 18 anos. Já internei em clinica particular, já fez acompanhamento em consultorio, fiz acompanhamento com ele pelo capsad.Hoje ele está de novo na cracolandia, pior foi esfaqueado no coração, foi salvo por Deus e pela competencia dos médicos da santa casa do bairro santa cecilia. Não sei mais o que fazer, estou vendo esse filho indo embora e me sinto impotente. Se alguem tiver uma ideia por favor me passe.Hoje ele tem uma sequela cardiaca, que teria que ser corrigida com outra cirurgia, o ferimento no coração foi grau 3, mas infelizmente ele continua usando esta maldita droga. Sou a favor da internação compulsoria por tempo indeterminado, somente assim, no caso do meu filho ele se protegeria dele mesmo.
  2. Regina disse:
    ******DEPOIMENTO REAL******* Concordo plenamento com essa medida. Só quem convive com esse problema sabe o quanto a droga destrói a vida do viciado e da familia. Eu infelizmente convivo com um viciado em crack que age como um louco, já quebrou carro, muro, porta, grade, cadeado, não tem nada que segure um viciado quando ele está descontrolado ou sobre efeito da droga. Ele bate em quem estiver na frente, ja agrediu a todos na minha casa, não se importa com nada nem ninguém. Quero salientar que nem sempre se trata de uma questão de pobreza, não somos ricos, mas nunca deixamos de ter o necessário e nunca nos faltou nada, minha casa nunca faltou nada, ele teve estudo, trabalhos bem remunerados e perdeu tudo por conta do vicio. Acho injusto comentários de pessoas que nunca vivenciaram algo assim. É horrível e não há o que fazer. Mesmo sem condições financeiras temendo me atolar de dívidas estou buscando informações sobre clinicas particulares de internação involuntaria, infelizmente não da pra depender do governo, afinal não é a casa da nosso governador que esta todos os dias sendo destruida. Algo precisa ser feito, as familias que sofrem com um viciado precisam ser ajuda, não tenho nenhuma dúvida que a internação compulsória é uma opção.
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