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Polícia britânica abre investigação sobre documentos de brasileiro

por AFP — publicado 22/08/2013 16h27, última modificação 23/08/2013 12h00
Scotland Yard diz que material confiscado de David Miranda, companheiro do jornalista Glenn Greenwald, é "altamente sensível" e divulgação seria prejudicial à segurança pública
Marcelo Piu / AFP
David Miranda

David Miranda (à esq.) e Glenn Greenwald, no aeroporto Tom Jobim, no Rio de Janeiro

LONDRES (AFP) - A polícia britânica anunciou nesta quinta-feira 22 a abertura de uma "investigação criminal", após iniciar a análise dos documentos confiscados do brasileiro David Miranda, companheiro do jornalista Glenn Greenwald, do jornal The Guardian. Ele tem ajudado o jornalista a divulgar documentos secretos dos EUA revelados por Edward Snowden, ex-consultor da Agência de Segurança Nacional (NSA).

As reportagens de Greenwalde revelaram a existência de programas de vigilância dos EUA na internet e  obtenção de dados de companhias de telefones.

A Suprema Corte de Londres limitou a análise dos documentos apreendidos com o brasileiro, interditando a polícia e o governo de "inspecionar, copiar ou compartilhar" esses dados, salvo "em caso de proteção à segurança nacional".

David Miranda entrou com uma ação judicial após ser detido e interrogado pela polícia por quase nove horas no domingo no aeroporto de Heathrow, com base na lei antiterrrorista.

A polícia indicou à Suprema Corte ter recuperado "dezenas de milhares" de páginas de material de informática, que começou a analisar nos últimos dias. "O que foi inspecionado até o momento contém, aos olhos da polícia, material altamente sensível, cuja divulgação seria prejudicial para a segurança pública. Portanto, a polícia lançou uma investigação de natureza criminal", declarou o advogado da Scotland Yard, Jonathan Laidlaw.

O advogado não quis explicitar "a natureza e o objetivo" desta investigação.

Nesta quinta-feira, os advogados de David Miranda pediram à Suprema Corte a emissão de uma ordem de emergência para evitar que o governo e a polícia britânica "inspecionem, copiem ou compartilhem" dados confiscados durante o interrogatório.

A decisão da justiça é válida até o dia 30 de agosto, data em que a Suprema Corte examinará novamente a necessidade de uma tal injunção, à espera de se pronunciar sobre a questão da legalidade da detenção do brasileiro.

Gwendolen Morgan, advogada de David Miranda, considerou que esta decisão é uma "vitória parcial" para seu cliente. "O ministério do Interior e a polícia têm agora sete dias para provar que há uma ameaça real contra a segurança nacional", declarou na saída do tribunal.

A detenção do brasileiro pela polícia no aeroporto de Heathrow provocou uma onda de indignação e críticas a Londres, acusado por vários países de colocar em risco a liberdade de imprensa.

As autoridades britânicas também foram criticadas por ordenarem a destruição, realizada há um mês, dos documentos secretos confiados ao jornal por Snowden, procurado por espionagem por Washington e refugiado na Rússia.

Esta polêmica sobre a atitude de Londres ocorre no momento em que, dois meses após as revelações de Snowden, a administração americana reconheceu quarta-feira que a NSA agiu de forma ilegal ao interceptar e-mails de americanos sem ligações com o terrorismo.

Durante a detenção no domingo, o brasileiro de 28 anos estava em trânsito entre Berlim e Rio de Janeiro, onde o casal vive. Ele acabara de passar uma semana na Alemanha na casa da documentarista americana Laura Poitras, que Edward Snowden escolheu, com Glenn Greenwald, para fazer suas revelações.

David Miranda teve confiscado durante o interrogatório seu laptop, celular e cartões de memória, segundo seus advogados, e contesta sua detenção.

O diretor de redação do Guardian, Alan Rusbridger, se disse "extremamente preocupado" de ver a legislação antiterrorista ser "utilizada a torto e a direita para contornar a proteção do material jornalístico"".

A atitude de Londres provocou críticas do Brasil, da Alemanha, da Rússia e do Conselho da Europa. Na quinta-feira, a vice-presidente da Comissão Europeia, Viviane Reding, também expressou "preocupação" quanto a liberdade de imprensa no país.

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