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Política

Escândalos na FIFA

Pelo fim da “cultura do medo”

por Ricardo Carvalho e Rodrigo Martins — publicado 07/06/2011 07h00, última modificação 07/06/2011 11h00
O parlamentar britânico Damian Collins articula movimento por mudanças na Fifa e ataca a leniência dos governos em relação às estripulias dos cartolas
Pelo fim da "cultura do medo"

O parlamentar britanico Damian Collins articula movimento por mudanças na Fifa e destaca a leniência dos governos em relação às estripulias dos cartolas

“Quando uma instituição global de grande importância perde o rumo, é dever dos responsáveis pelo seu funcionamento recolocá-la no caminho correto. Quando os líderes de tal organização não têm a credibilidade necessária para fazê-lo, é função dos Parlamentos e governos oferecerem apoio e uma intervenção independente.” A frase é de Damian Collins, parlamentar britânico que trabalha em parceria com o grupo Change Fifa, organizado pela internet e que defende mudanças substanciais na maneira como a entidade é administrada. Collins tem atuado para angariar apoio de parlamentares de outros países e, assim, aumentar a pressão de governos sobre a federação. Em entrevista a CartaCapital, o deputado inglês afirmou que existe uma cultura do medo em relação à entidade responsável pelo futebol mundial. “Essa cultura de que você será punido se cruzar o caminho de algum cartola tem de acabar.” Confira os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: Quais as principais mudanças que deveriam ocorrer
na Fifa?

Damian Collins: Precisamos mudar a liderança. Joseph Blatter deveria antecipar sua aposentadoria. Claro que não vai adiantar nada se o trocarmos por pessoas do Comitê Executivo que também enfrentam suspeitas de corrupção. Então, antes de tudo, deveríamos promover mudanças drásticas no Comitê Executivo. Além do mais, a votação da escolha do país-sede da Copa do Mundo deveria ser feita por todo o conselho da Fifa, não apenas pelos 24 integrantes do Comitê Executivo, seria nos mesmos moldes que faz o Comitê Olímpico Internacional (ponto que Blatter cedeu no último congresso da Fifa, na quarta-feira 1º). Um número tão pequeno de pessoas não deveria ter tanto poder. E, obviamente, também defendo que o mandato de um presidente não possa ir além de oito anos.

CC: Como surgiu a sua parceria com o grupo Change Fifa?

DC: Os organizadores do movimento Change Fifa me procuraram para perguntar o que eu poderia fazer por eles no Parlamento. Decidimos preparar um documento com princípios que deveriam ser seguidos pela Fifa. Minha intenção é construir uma coalizão de parlamentares de diferentes partes do mundo que pressionem por essas mudanças. Tivemos adesões da Bélgica, Polônia, Noruega e Austrália, além de outras associações de futebol do Reino Unido.

CC: Vocês chegaram a procurar algum parlamentar do Brasil?

DC: Entramos em contato com alguns senadores brasileiros, porém, não posso dizer quem são. Não temos nenhuma confirmação, mas estaríamos muito satisfeitos em ter o apoio deles.

CC: O Parlamento britânico está investigando a Fifa?

DC: Sim, a Câmara dos Comuns realiza uma investigação sobre como o futebol é gerido. Parte do inquérito foca no processo de escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022 e o resultado certamente será debatido no Parlamento.

CC: Por que o senhor acredita que a Fifa consegue impor suas exigências aos países interessados em sediar o Mundial?

DC: Vou começar por outro ponto: teria sido muito melhor se a Associação de Futebol da Inglaterra tivesse denunciado antes as irregularidades no processo de escolha do país-sede da Copa do Mundo de 2018. Eles deveriam ter apontado os sinais de ilegalidade naquele momento, e não após a derrota da candidatura inglesa. Isso é um grave problema, os países querem tanto sediar o evento que não denunciam procedimentos suspeitos. Existe uma cultura do medo em relação à Fifa, de que se você cruzar o caminho de alguns cartolas será punido. Isso acontece porque poucas pessoas se tornaram extremamente poderosas na entidade. Uma organização que gerencia um esporte não deveria funcionar nesses termos. E é por isso que achamos que a maioria do Comitê Executivo deveria ir embora e que as regras da Fifa precisariam mudar.

CC: O que o senhor achou da decisão do Comitê de Ética da Fifa de inocentar os cartolas denunciados por lorde David Triesman?

DC: Não se pode conduzir uma investigação séria em tão pouco tempo. Eles tiveram dias para reunir evidências e a decisão foi tomada em questão de horas. Eram acusações sérias feitas contra pessoas envolvidas em decisões importantíssimas, inclusive a escolha das sedes de 2018 e 2022. É também por isso que eu e o Change Fifa defendemos que o Comitê de Ética seja um corpo independente, longe da influência dos mandatários da Fifa e com poderes de realmente investigar essas acusações.

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