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Pedacinhos de metal

por Coluna do Leitor — publicado 28/10/2010 15h32, última modificação 06/06/2015 18h17
O leitor Rodrigo Cerqueira fala sobre a campanha eleitoral e os artifícios da oposição

Rodrigo Cerqueira*

Uma bala - "Sertão é onde manda quem é forte com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinho de metal..." afirma o jagunço Riobaldo Tartarana ao interlocutor que o acompanha na travessia “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa.

A mais vil das inúmeras campanhas da chapa tucana contra a candidata petista nessas eleições foi pouco explorada pela imprensa: a participação política de Dilma Rousseff durante o regime militar e a tacanha deturpação desse importante episódio de nossa história. Ao colocar a voz cavernosamente caipira de José Dirceu (um “pactário”?) anunciando a ex-ministra chefe da casa civil, sua “camarada de armas”, a propaganda de José Serra tentava esmigalhar um processo de luta contra a ditadura que necessita de profunda reflexão (devemos compreender os males humanos para jamais voltarmos a cometê-los). Logo, espocaram na Internet falsas fichas criminais de Dilma e sua ligação a assaltos, atentados e assassinatos. Se isso não bastasse, o jornal Folha de São Paulo tentava escavar os arquivos sobre o “histórico guerrilheiro” da candidata petista com óbvio intuito eleitoreiro.

Debates sobre aborto, fé religiosa e a decisão de Carlos Alberto Soares (presidente do Superior Tribunal Militar) em não publicar os arquivos sobre Dilma antes do fim das eleições abrandaram as referências ao “passado terrorista da ex-ministra”; e a própria candidata fez questão de não expor sua participação na luta contra o regime militar. A insistência de Serra (e dos serristas) em deturpar a vida pregressa da candidata petista, e a insistência de Dilma em esconder essa vida, não auxiliam o debate necessário sobre nossa história recente. Como bem afirmou Álvaro Bianchi, na edição 615 de Carta Capital: “suprimir a memória para não perder votos não é boa coisa. Falsificá-la para ganhá-los também não.”

Outra - A recusa ao cerceamento de opinião praticado pelos grandes órgãos de imprensa seria até interessante se não chegasse, por vezes, à total falta de bom senso. O antropólogo Roberto Damatta, em artigo publicado no jornal O globo a 20/10, bradou contra essa dúvida a pairar sobre as folhas, estadões, vejas e globos. Damatta, que, em colunas mais recentes, e aliado ao colega de jornal Arnaldo Jabor, afirma ter sido o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de grande estadista, o artífice da multiplicação de pães e peixes e exímio praticante do andar sobre as águas, resolveu se manifestar: não é controlado por nenhuma família do ramo das informações. Para fundamentar o raciocínio, o autor de A casa e a rua afirmou peremptoriamente: “voto em Serra” e não haverá ninguém a censurá-lo (ou demiti-lo) por isso. Ora, para ser censurado pela empresa basta ir de encontro ao que pensa sua linha editorial, caro Roberto. Se a coluna do antropólogo está de acordo com a opinião do jornal, o que temer? Maria Rita Kehl não deve pensar o mesmo. Mas o que ela pensa, para alguns, infelizmente, não tem a menor importância.

O tumulto - Como afirmou Rodrigo Vianna, para vencer “Serra precisa de um tumulto”. E a última chance do candidato tucano fabricar o furdunço está no debate a ser promovido pela Rede Globo na próxima sexta-feira. Há uma crença entre nós de que o eleitorado não simpatiza com o candidato que bate (a transformação do líder sindical em candidato paz e amor seria a hipótese a validar tal raciocínio), mas Serra tem de bater. Pois Serra já foi “agredido” nas ruas do Rio e de nada adiantou. Pois Serra já fez promessas descabidas e em nada conseguiu alterar as pesquisas. Se o candidato do PSDB mantiver-se neutro, dificilmente modificará o atual cenário eleitoral, a ele desfavorável. Se bater na candidata situacionista, terá de provar o que fala e corroborar a pancadaria com seus argumentos e propostas, o que, tendo em vista os últimos debates, não será nada fácil. Serra precisará de milhares de balas, pedações de metal, mas pode receber de Dilma a mesma resposta que o Autor, personagem do conto “Intestino grosso”, de Rubem Fonseca, dá ao repórter que o entrevista: “Não dá mais pra Diadorim”.

* Professor, residente em Além Paraíba – MG, orgulhoso de ser conterrâneo de Carlos Moura.

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