Você está aqui: Página Inicial / Política / Para manter o paciente vivo

Política

Banco Central

Para manter o paciente vivo

por André Siqueira — publicado 04/04/2011 16h29, última modificação 04/04/2011 16h29
O Banco Central dá sinais de que o ciclo de aperto dos juros está perto do fim. Por André Siqueira

O mercado acostumou-se a ganhar a guerra das expectativas no grito. Bastavam alguns dias de intenso terrorismo nas páginas dos jornais para a autoridade monetária reagir conforme o esperado nas mesas dos operadores. Mas em um mundo no qual a hegemonia financeira está sob ataque, o jogo terá de ficar um pouco mais sutil. Como não há mais uma certeza pétrea nem um Banco Central disposto a ler a cartilha ortodoxa como se fosse a Bíblia, vive-se uma tensão crescente, mas salutar, entre a equipe econômica e o setor financeiro.

Essa tensão foi acentuada na quarta-feira 30, quando o BC, comandado por Alexandre Tombini, deixou claro que não pretende sacrificar além do necessário o crescimento do Brasil para tentar trazer a inflação para o centro da meta de 4,5%. Em outras palavras: a instituição valeu-se das próprias regras do sistema de metas, que estabelece um teto de tolerância, no caso brasileiro de 2 pontos porcentuais acima da meta, justamente para acomodar choques. Nem o mais fanático dos ortodoxos pode discordar de que o planeta vive um desses choques no momento, por conta da alta expressiva dos preços das commodities.

No relatório de inflação divulgado na quarta 30, a diretoria do BC assume: “O Comitê de Política Monetária (Copom) entende que os custos, em termos de nível de atividade, de se evitar que os efeitos primários do choque de oferta deslocassem a inflação, em 2011, para um patamar acima do valor central de 4,5% para a meta, seriam demasiado elevados”. O documento revê de 4,5% para 4% a previsão para o crescimento neste ano.

Diante desse quadro, o BC admitiu adiar para 2012 a convergência do nível de preços, medido pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), à meta. A nova expectativa oficial da inflação é de uma queda, não necessariamente contínua, dos atuais 5,9% para 5,6% em 2011, até chegar a 4,6% no fim de 2012. Na composição do novo cenário, o BC aposta no arrefecimento da atividade econômica, iniciado no segundo semestre de 2010, e assume não haver muito a se fazer para conter as variações das cotações internacionais das commodities.

E, para deixar clara a intenção de reduzir o ciclo de aumento de juros, o relatório parafraseia um trecho da ata da última reunião do Copom, quando foi decidida a segunda elevação de 0,5 ponto porcentual na taxa de juros: “(...) a estratégia de política monetária pode eventualmente ser reavaliada, em termos de sua intensidade, de sua distribuição temporal ou de ambos”.

O ponto de discórdia com o mercado continua a ser as chamadas medidas macroprudenciais, um jargão obscuro da área econômica que ganhou status após a crise financeira internacional. Tais recursos, originalmente pensados para prevenir bolhas de crédito e outras situações que criem risco sistêmico no setor bancário, tendem a ser cada vez mais empregados pelo BC, com o aval do Ministério da Fazenda, em substituição à alta dos juros.

As primeiras, e mais fortes, medidas foram adotadas em dezembro último, ainda no fim da gestão de Henrique Meirelles. Entre as novas exigências, elevaram-se os depósitos compulsórios (porcentual dos depósitos à vista que os bancos são proibidos de emprestar).

No dia 28, a alíquota de IOF sobre os empréstimos tomados no exterior, com prazo inferior a 360 dias, foi elevada a 6%. O governo espera assim evitar que instituições financeiras e empresas obtenham dinheiro a taxas mais baixas lá fora para ganhar com o diferencial dos altos juros domésticos. No caso dos bancos, essa operação dava fôlego a novos empréstimos, e diminuía a eficácia do aperto monetário. De quebra, a iniciativa deve reduzir momentaneamente as pressões por uma valorização ainda maior do real sobre o dólar. “O que realmente importa é o fato de que o governo central retomou o uso das medidas macroprudenciais como principal estratégia para conter a liquidez no mercado cambial”, afirmou, em relatório, o economista Darwin Dib, do Itaú Unibanco.

Uma leitura descuidada das estatísticas de crédito, divulgadas na terça-feira 29, levaria a crer que as primeiras medidas adotadas não surtiram efeito. O saldo dos empréstimos acumula alta de 21% nos últimos 12 meses. Enquanto em janeiro o crescimento de crédito foi de 0,5% sobre dezembro, em fevereiro a alta foi de 1,4%. Mas as avaliações apressadas desconsideram o mais importante dos indicadores, o ritmo das liberações de novos empréstimos (quadro à pág. 41), conforme destaca o economista-chefe da consultoria LCA, Bráulio Borges.

Com base nos números de janeiro e fevereiro e nas expectativas para março, houve uma queda significativa nas concessões de crédito no primeiro trimestre deste ano, algo que só ocorre após choques externos, como a crise internacional de 2008”, diz o economista. Nas contas da LCA, o ritmo de crescimento do crédito em 2011 é compatível com um limite citado tanto pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, quanto pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de 15% no ano.

A LCA enxerga um forte desaquecimento da atividade econômica neste ano, como resultado da desaceleração ocorrida no segundo semestre de 2010. A consultoria trabalha com uma previsão de crescimento do PIB de 3,6%, mas Borges adianta que deverá revisá-la para um número mais próximo dos 3%. “As medidas para conter a expansão do crédito foram uma verdadeira paulada na atividade econômica, e o BC peca por não deixar esse efeito claro no Relatório de Inflação.”

Borges estima que as medidas macroprudenciais adotadas até agora equivaleram a um aumento adicional de 2 pontos porcentuais na Selic. E discorda dos economistas que acreditam que os recursos alternativos à elevação dos juros tiveram efeito inócuo, bem como da avaliação de que o combate à inflação deve ser feito a despeito do impacto na atividade econômica. “O próprio FMI realizou um seminário recentemente para avaliar os novos instrumentos de política monetária”, conta. “Mas muita gente segue apegada àquelas velhas ideias que são bonitas no papel, mas na prática não funcionam mais.”

A LCA não está sozinha na avaliação de que há alternativas eficazes à alta do juro. O departamento econômico do Bradesco destacou, no boletim da quarta-feira 30, que o avanço do crédito foi “em grande parte influenciado por fatores sazonais, e que as medidas macroprudenciais seguem importantes para acomodar o ritmo de crescimento do crédito ligado ao consumo”.

Por trás das críticas à estratégia do BC, com apelos até a uma suposta “perda de credibilidade da política monetária”, está a dificuldade de ajustar os efeitos das medidas macroprudenciais aos modelos econométricos utilizados nas previsões. Enquanto uma  elevação do compulsório, recurso utilizado diversas vezes no passado, pode ser adequada aos cálculos das consultorias, o aumento do fator de ponderação do risco (termo técnico para as maiores exigências em determinadas linhas de crédito) é um campo magnético a desorientar as bússolas do mercado.

A leitura do departamento econômico do banco inglês Barclays é a de que o Relatório de Inflação deu um “claro aviso de que o ciclo de aperto está perto do fim, ou, no mínimo, de uma pausa”. No entanto, a instituição mantém o “ceticismo” em relação à convergência da inflação para a meta em 2012. Para este ano, prevê IPCA de 6,5%, teto superior da meta. A justificativa para o cenário ruim é a possibilidade de novos choques nos preços internacionais. Curiosamente, o argumento havia sido minimizado por muito agentes de mercado quando utilizado por Mantega para justificar o descontrole dos preços neste início de ano.

A leitura de parte do setor financeiro guarda diferenças em relação à visão do lado real da economia. As entidades ligadas à indústria têm, de fato, ressaltado as dificuldades trazidas pelo real valorizado, como a concorrência de produtos importados, e as preocupações com a escassez de mão de obra qualificada. Mesmo assim, a última edição do Panorama Empresarial da Deloitte, divulgada na terça-feira 29, mostrou que 80% dos 352 grupos de médio a grande porte ouvidos veem a inflação “sob controle” (dentro dos limites do sistema de metas) de 2011 a 2015. Apenas 5% dos entrevistados diz não ter ampliado os negócios no ano passado.

No longo prazo, os empresários acreditam que o nosso sistema de gestão macroeconômica é eficaz”, afirma o sócio responsável pela área de finanças corporativas da Deloitte, José Paulo da Rocha. O executivo ressalta uma preocupação dos clientes da consultoria que é comum ao setor financeiro: a disposição do governo para reduzir as pressões inflacionárias por meio da redução dos gastos públicos. Ainda é cedo para medir a efetividade do ajuste fiscal proposto no início do ano, mas o superávit primário de fevereiro, divulgado na quinta-feira 31 pelo BC, pode ser tomado como um bom sinal: 7,9 bilhões de reais, o melhor resultado desde o início da série histórica, em 2001. •

registrado em: