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Coluna Econômica

Para entender o fator Guido Mantega

por Luis Nassif publicado 17/12/2013 10h27
Desde a saída de Nelson Barbosa, a Fazenda perdeu o script e o protagonismo técnico sobre os órgão subordinados

Em entrevista ao jornal O Globo, o presidente do Unibanco-Itaú Roberto Setubal previu  mudança radical no perfil da infraestrutura brasileira a partir de 2015, após o destravamento dos leilões de concessão. Enxerga problemas na área fiscal, mas perfeitamente reversíveis. E um quadro relativamente tranquilo em 2014.

Então por que tanto curto-circuito no mercado?

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O ponto central é a dubiedade da política econômica.

Para uma gestão econômica eficiente, o Ministério da Fazenda precisa definir a estratégia a ser perseguida e subordinar cada área do Ministério ao script traçado - Banco Central, Secretarias do Tesouro e da Receita.

Ocorre que, desde a saída de Nelson Barbosa, a Fazenda perdeu o script e o protagonismo técnico sobre os órgão subordinados. Em vez de comandar, Guido tem se metido em embates técnicos com o BC e o Tesouro, dos quais tem saído frequentemente derrotado.

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O BC está manietando a atuação dos bancos públicos, travando o crescimento do crédito. A Fazenda é contra essa ortodoxia rigorosa, mas perdeu a disputa.

Restou a Guido vir a público, e, em um evento destinado a estimular o "espírito animal" do empresário, criticar as "duas pernas mancas" da economia, uma das quais a do crédito.

É o cúmulo da inovação, o Ministro da Fazenda tentar influenciar o Banco Central através de alusões veiculadas pela imprensa, e não valendo-se de sua posição hierárquica.

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Com a Secretaria do Tesouro, o confronto é mais confuso.

O maior fator de desgaste do governo com o mercado ocorreu devido à manipulação dos dados fiscais em 2012. Decidiu-se não mais recorrer à contabilidade criativa.

Quando Dilma Rousseff resolveu reduzir a conta de luz,  recorreu a um dos melhores consultores de mercado, Mário Veiga, que definiu o modelo que passava pelo fim dos fundos vinculados à conta de luz.

A partir dessa recomendação, a análise das consequências passa a ser do Tesouro, sob a supervisão da Fazenda.

Guido deixou o estudo por conta do Tesouro - e do destemido Secretário Arno Agustin, o pai da contabilidade criativa -, que errou  nas contas, gerou um novo passivo e descapitalizou o setor. O que fazer? Emitir títulos para cobrir o rombo geraria mais críticas das agências de risco; recorrer a saídas heterodoxas, mais críticas do mercado.

Se pode sofrer dois desgastes, porque contentar-se com apenas um?

Tentou-se a saída heterodoxa, o fato vazou para os jornais, obrigando o Tesouro a volitar atrás. Pagou o preço de insistir na contabilidade criativa; e pagará o preço de aumentar a dívida pública.

Restou a Guido recorrer a mais uma entrevista garantindo que a Fazenda não aceitaria mais magias contábeis. O mercado olhou e deu de ombros: quem decide não é o Guido, é o Arno.

Para completar a semana, Guido anunciou a suspensão da obrigatoriedade da indústria automobilística incluir airbags e freios ABS para os novos carros fabricados no país. Alegou que a medida poderia inviabilizar a luta contra a inflação e o crescimento do PIB em 2014.

Foi desautorizado a tempo por fontes ligadas à presidência da República. Afinal, se junto com o airbags e os freios o decreto incluísse vidros temperados, a economia mundial não resistiria.