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Os pífios motivos alegados pela CNA para apoiar o impeachment

por Rui Daher publicado 11/04/2016 12h49
Inconsistentes, os argumentos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil se aparentam com um “não vou com a sua cara e meus amigos também”
Wilson Dias/Agência Brasil
Kátia Abreu

Kátia Abreu, ministra da Agricultura e Presidente licenciada da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil

Nesta semana, ficamos sabendo de mais um óbvio dos que apoiam o golpe contra a Constituição democrática brasileira. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) declarou apoio ao impeachment de Dilma Rousseff.

Óbvio sem motivo não deveria ser óbvio, mas este é. Como impeachment não é golpe, mas este é.

Se muito redundo é porque conheço interesses e anseios históricos da CNA. De pífios a inconsistentes, os motivos para o apoio, declarados em nota oficial, se aparentam com um “não vou com a sua cara e meus amigos também”.

No arrazoado, primeiro, se amasiam com “os representantes dos produtores rurais em todo o País e em consonância com a sociedade brasileira".

Estranha abrangência essa. Marginaliza amplos contingentes da população que assim não pensam. O que é sociedade para a CNA? Seus sócios?

Depois, com a sobriedade analítica que lhe é peculiar, desfila levezas (mais correto leviandades): “reiterados erros de política econômica ... mostras de não reconhecer nem compreender a verdadeira natureza dos problemas que afligem o país ... sem autoridade política para liderar o processo de reformas”.

Julgamentos de valor lambidos no esterco da manada.

Na esteira, em declarações esparsas, critica a ministra da Agricultura Kátia Abreu, ex-presidente da entidade, velha amiga e companheira, atual desafeta.

Tivéssemos esperança de lá encontrar algum microrganismo benéfico à agropecuária, relevaríamos a posição como simples falta de memória. Afinal, como disse o genial escritor brasileiro Ivan Lessa (1935-2012), “a cada 15 anos, o Brasil se esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos”.

Com exceção das décadas de 1960 e 1970, “nunca na história deste País” foi dado tanto apoio à atividade agropecuária e, em consequência, ao agronegócio, como nos governos Lula e Dilma. Aliás, quem vive se lambuzando em transgênicos deveria lembrar quem os autorizou.

“Memoriol”? Como se comportaram em relação ao campo os governos Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso? Esses não praticaram “reiterados erros de política econômica” ou mostraram “não reconhecer (...) a verdadeira natureza dos problemas que afligem o país”?

Vamos! Andem, corram às estatísticas. CONAB, IBGE, IPEA, MAPA, está tudo lá. Ver-se-ão no espelho de 10, 15 anos atrás.

Não foram apenas os bons ventos dos preços das commodities e o reconhecido trabalho no campo que construíram a atual riqueza ruralista. Digamos que vocês mereceram, mas não só.

Recursos de financiamento a taxas favorecidas foram fartos, reformulações no seguro rural, incentivos para investimentos (inclusive de caminhões e máquinas agrícolas), ações externas junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), apoio à diversificação comercial para novos mercados, forte limpada de barra no exterior da imagem do Brasil na área ambiental, manchada sabemos muito bem por quem.

Mesmo se sairmos da visão Paulinho da Viola, lá do alto, e passarmos à lupa, embora menores e com fartas deficiências, também algumas franjas foram devolvidas a quem muito devemos, agricultura familiar, assentamentos, aldeias indígenas e quilombolas. Mas estes a soberba Confederação não crê existirem.

Senhora Confederação, ao apoiar o impeachment não considere representar toda a sociedade. Muita força de trabalho, donos de recursos produtivos, inteligência e organizações não corroboram seus desejos. A senhora e seus porta-vozes têm histórico de parcialidade, olhos em interesses individuais e corporativos, extermínio de parte de nossos recursos naturais e biodiversidade.

Lembro de ter sido execrado nesta CartaCapital quando defendi a opção de Dilma Rousseff em dar o ministério da Agricultura para Kátia Abreu. Apesar de várias divergências, sabia ser ela do ramo, competente e lutadora. Escrevi que estando Patrus Ananias no Desenvolvimento Agrário, fariam boa dobradinha.

A Confederação acha que não e segue a manada. Percebo certo masoquismo burro. Pedem a volta do projeto neoliberal que durante duas décadas massacrou as atividades agrícola e pecuária.

E, por favor, não me venham com “o bem do Brasil como um todo (sic) ”. Sei muito bem qual o “todo” de vocês. Caso de parodiar Marina (a Lima, não a Silva): “mesmo que estes homens e mulheres sejamos nós”.