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Thomaz Wood Jr.

Os novos quebra-galhos

por Thomaz Wood Jr. publicado 10/07/2011 11h35, última modificação 10/07/2011 12h16
O quebra-galho corporativo do século XXI surge da confluência entre a crescente pressão por rapidez, agilidade e flexibilidade e a também crescente pressão por controle, conformidade e previsibilidade

No filme What Just Happened (no Brasil, Fora de Controle), Robert De Niro interpreta Ben, um produtor de cinema de Hollywood. A obra, dirigida pelo veterano Barry Levinson, registra as desventuras do acossado personagem entre egos incontroláveis, personalidades excêntricas e tipos extravagantes.

Ben é o centro (vacilante) de forças opostas. Seu filme mais recente está passando por testes cruciais de público, antes do lançamento. A plateia reage friamente e choca-se com o final sangrento. O instável diretor inglês luta para manter a concepção “artística” original. De olho no provável desastre de bilheteria, o estúdio pressiona por mudanças no final do filme. O diretor reage como prima-dona contrariada, mas simula aceitar os cortes.

Dramas paralelos mantêm os nervos de Ben à flor da pele. O processo de separação de seu segundo casamento segue aos trancos e barrancos. Bruce Willis, principal estrela de um novo projeto, reage com selvageria às exigências do papel. O estúdio ameaça cancelar o projeto. A vida profissional de Ben assemelha-se à sua vida pessoal: um mar revolto a ser enfrentado com doses medidas de fatalismo, obstinação, paciência e autocontrole. Qualquer deslize pode romper o precário equilíbrio e iniciar um aterrorizante movimento ladeira abaixo. Seu único objetivo parece ser sobreviver, mantendo-se à tona.

Levinson retrata, com olhar cínico e satírico, as entranhas do cinema norte-americano. Segue extensa linhagem de filmes sobre a icônica indústria. O cinema adora criticar (e celebrar) o próprio cinema. Com frequência, seus diretores se debruçam com disposição e prazer sobre as próprias entranhas.

Curiosamente, outros segmentos têm costumes e modos similares aos da indústria cinematográfica. De fato, a atividade de produtor existe em diversos outros setores: na música, na mídia, na moda, na propaganda e na organização de eventos. O mesmo tipo de atividade permeia funções diversas em outras áreas. Coordenadores de logística, gerentes de produto, gestores de projetos, consultores internos e muitos outros profissionais partilham algumas características com os produtores: eles vivem no centro da tormenta, buscando permanentemente soluções para responder a pressões antagônicas. Sua tarefa é fazer as coisas acontecerem, apesar de tudo e de todos.

O quebra-galho, como personagem social, existe há tempos, porém, habitando as margens da sociedade. Dedicava-se, com discrição, a resolver pequenos inconvenientes, lubrificar burocracias emperradas e prover soluções rápidas, ainda que imperfeitas. A diferença entre o quebra-galho do século XX e seu descendente contemporâneo é a magnitude e a frequência dos problemas. Com desafios cada vez maiores e mais constantes, o quebra-galho foi promovido. Ele (ou ela) está hoje integrado à vida empresarial, faz parte da média gerência, tem status e goza de reconhecimento.

O quebra-galho corporativo do século XXI surge da confluência de dois movimentos: de um lado, a crescente pressão por rapidez, agilidade e flexibilidade, um movimento externo determinado pelas forças do volúvel mercado; de outro lado, a também crescente pressão por controle, conformidade e previsibilidade, um movimento interno. Como a equação é insolúvel, a saída é ter agentes especiais, capazes de navegar pelas frestas do sistema e fazer com que as coisas aconteçam. Afinal, alguém precisa manter o barco em movimento, apesar de toda a turbulência externa e de toda a confusão interna.

Tornar-se quebra-galho não é para qualquer um: é preciso reprimir o ego e manter o autocontrole, mesmo diante de calamidades eminentes. Além disso, é preciso adotar o estilo 24/7 (24 horas por dia, 7 dias por semana). Ele (ou ela) precisa estar permanentemente conectado. Seu melhor amigo é o smartphone. Seu pesadelo recorrente é ficar confinado em um local sem sinal para o celular. Um verdadeiro quebra-galho não relaxa jamais.

A dedicação total tem seu preço: o fim da vida privada. Com o passar do tempo, a intensa atividade interfere no metabolismo e causa dependência. Fica cada vez mais difícil viver sem o ritmo marcado pelos desafios e sem a satisfação das pequenas vitórias. O seu trabalho é reconhecido, mas a recompensa não é certa. Os lauréis costumam ser transferidos para os andares superiores da pirâmide corporativa.

Muitas organizações têm chamado seus quebra-galhos de intraempreendedores ou empreendedores internos. Elas esperam que eles “tomem a iniciativa”, “ajam como donos” e “resolvam os problemas”. O título e o discurso são pomposos. A dura realidade é que as empresas precisam de profissionais capazes de fazer com que elas funcionem, apesar delas mesmas.

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