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Política

Rio de Janeiro

Os (des) caminhos viários do Rio

por Edgard Catoira — publicado 06/12/2012 14h10, última modificação 06/12/2012 14h10
A cidade está parando. E só os mais abonados têm optado por se locomover de helicóptero
metrô-Rio

O traçado da esquerda está sendo executado; o outro era o previsto

O prefeito reeleito do Rio, Eduardo Paes, conseguiu aumentar o orçamento da cidade de 13,6 bilhões de reais, em 2009, para 23,5 bilhões em 2013. A capacidade de investimento da prefeitura foi retomada.

Apesar de quebrar uma promessa de campanha – de que não haveria aumento de IPTU – e com a ajuda do veto presidencial sobre os royalties, Paes obteve uma conquista importante para o município. Ou seja, há dinheiro para investir. Precisa é investir bem. A área de transportes, por exemplo, tem carências assustadoras.

Nesse setor, que é o que hoje nos interessa, o prefeito impôs algumas intervenções polêmicas, com a alegação de tentar melhorar a mobilidade do carioca: demolição da Perimetral (a via elevada que começa no Aterro do Flamengo e se estende até a Avenida Brasil e a Ponte Rio-Niterói), construção de corredores de BRT’s (vias expressas de ônibus) e BRS (faixas exclusivas para ônibus, em grandes avenidas). Entretanto, a cada ano o carioca (e nisso se nivela a paulistas, mineiros, entre tantos) passa mais tempo parado no trânsito – o que pode significar o quanto estão equivocadas algumas escolhas da prefeitura.

Para entender o que pode resultar de todas essas alterações urbanas, o site procurou o jornalista João Mauro Senise, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Jardim Botânico. Na sua função, participa de encontros com políticos, funcionários da prefeitura e do estado, além de associações de outros bairros que, como o Jardim Botânico, sofre muito com os problemas de trânsito. Por isso mesmo, ele é um ativista do movimento contra o atual traçado para a linha do Metrô para a Barra, que também foi imposto pelo Poder Público, sem maiores consultas técnicas ou populares.

Sobre a construção do Metrô, Senise diz que o mais grave é alteração do traçado original da Linha 4, que atenderia inúmeros bairros e milhares de cidadãos, transformando-a numa mera extensão da Linha 1 – “uma tripa de muitos quilômetros que arruína a ideia básica do metrô, que é a de um sistema em rede, com linhas independentes.” Explique-se que o Metrô é obra estadual e, embora seja na cidade, a Prefeitura, dona do espaço, estranhamente, sequer dá palpite no assunto.

Senise afirma que, além da superlotação e subutilização dos trens e estações, “serão 18 meses de interdições em ruas e avenidas de Ipanema Leblon e Gávea, que vão afetar também bairros como Copacabana (as estações de Cantagalo e General Osório serão fechadas ao público, sendo a última, por cerca de um ano), Lagoa e Jardim Botânico, entre outros.” Alterações, aliás, que já começaram a acontecer, com os transtornos previstos.

No anúncio de construção dos BRTs, como a salvação para o trânsito carioca, a prefeitura cita como exemplo Curitiba, precursora do sistema no Brasil. E Senise levanta ressalvas, uma vez que “a capital do Paraná está trocando o sistema por linhas de metrô, pois o modelo não dá mais conta de atender a demanda”. “Isso numa cidade com 1,7 milhão de habitantes. O Rio, com mais que o triplo de cidadãos, começa a implantar agora o sistema que Curitiba abandona, por insuficiente” ironiza ele.

O BRT TransOeste, inaugurado em junho, reduziu, de fato, o tempo de viagem entre os bairros de Santa Cruz, na Zona Oeste e a Barra. Mas Senise não perdoa: “se deixarmos a imaginação voar um pouco, é quase o mesmo tempo da ligação ferroviária Paris-Genebra. Mas lá é Primeiro Mundo... Aqui nos trópicos, além de nos contentarmos com pouco, a falta de planejamento no BRT TransOeste é visível: em quatro meses, foram seis mortos e dezenas de acidentes. Isto porque a Prefeitura disse que tinha feito uma campanha informativa explicando as mudanças no trânsito da região. Imagine se não tivesse feito”, brinca.

Sobre a TransOlímpica, que será construída apenas para os Jogos Olímpicos, corre quase paralela à TransCarioca que, por sua vez, está substituindo a Linha 6 do metrô e ligará Deodoro ao Recreio. Custará 1,4 bilhão de reais. Sobre ela, o jornalista volta ao tom de dúvida:

“A ideia era que a iniciativa privada construísse a TransOlímpica, mas, na falta de interesse de investidores, o Poder Público vai ter que entrar com 70% dos recursos. E isso numa via onde será cobrado pedágio! Ou seja, se nem a concessionária que vai explorar a TransOlímpica tem interesse em construí-la, não é prova suficiente de que ela é um investimento totalmente dispensável? Não seria mais racional usar esse dinheiro para, por exemplo, estender a nova linha do metrô até o Terminal Alvorada, na Barra da Tijuca? Ou, simplesmente, segregar as vias existentes naquela região para utilização exclusiva nos Jogos?”

Outra evidência dos problemas no transporte: a licitação dos ônibus foi feita, mas o sistema continua mal distribuído. Muitos ônibus vazios em bairros da Zona Sul e escassez de linhas na Zona Oeste, a maior e mais populosa região da cidade e a que mais sofre com a falta de transporte público.

Senise também se mostra desiludido com essa questão, lembrando ser preciso que “se elabore um plano de mobilidade urbana digno desse nome, pensando a cidade e a região metropolitana como um todo”. Ele acrescenta: “Ideias tiradas da cartola e aplicadas sem planejamento têm sido  pouco eficazes.”

O Rio, não há dúvida, está parando. Os mais abonados têm optado por se locomover de helicóptero, causando um verdadeiro caos aéreo na cidade. Ou seja: não resolvemos os problemas em terra e ainda estamos engarrafando o céu!

Enfim na área de transportes no Rio, Senise conclui que “avanços pontuais ocorreram, mas continuamos com a mesma lógica errada de planejamento: investimento em transporte sobre rodas, e não sobre trilhos, como qualquer cidade bem organizada faz.”

 

P.S. Enquanto isso, o Elevado do Joá, que une São Conrado a Barra, está degrado. A Prefeitura sendo aconselhada a limitar transportes de cargas e velocidade de veículos. Os técnicos mostraram nesta semana ferragens desgastadas, afirmando que há até perigo de desabamento. E o Prefeito só diz, vagamente, que vai recuperar a estrutura. Mas o Elevado da Perimetral, no Centro, já está em obras de demolição, mesmo sem qualquer urgência, pois continua firme.