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Os bastidores da invasão

por Celso Marcondes — publicado 22/06/2009 16h15, última modificação 19/08/2010 16h18
O relato do professor Pablo Ortellado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, que circula pela internet, é mais do que quente. Ele narra de dentro a invasão do dia 9 de junho, logo depois dos acontecimentos.

Enquanto as negociações entre as partes não trazem novidades, a greve das universidades estaduais continua. Para que o diálogo prevaleça e a truculência não volte, é bom não esquecer o passado recente. O relato do professor Pablo Ortellado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, que circula pela internet, é mais do que quente. Ele narra de dentro a invasão do dia 9 de junho, logo depois dos acontecimentos. O professor passou este e-mail para uma lista de colegas, apelando no final: "Por favor,
se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente". Assim ele chegou à redação de CartaCapital.

"Prezados colegas,
(...) O que os senhores lerão abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos de violência que aconteceram poucas horas atrás na Cidade Universitária (e que seguem, no momento em que lhes escrevo acabo de escutar a explosão de uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.

Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores tinham deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de
funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus.

Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de
ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembleia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembleia, chegaram relatos que a tropa de choque havia
agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções.

A assembleia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a Avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos à altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concussão (falsamente chamadas de efeito moral porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembleia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas).

Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás. Lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás.

A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e quatro helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar.

Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembleia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembleia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega
Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que tinham sido espancados ou se machucado com as bombas de concussão inclusive meu colega, professor Jorge Machado.

Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora a pouco (por volta das sete e meia) e tiveram a entrada barrada. Os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação.

Uma outra delegação de professores foi ao 93o. DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos, mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

A situação agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembleia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser
dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário.

Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Em minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais. Por favor, se acharem necessário,
reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.

Cordialmente,

Prof. Dr. Pablo Ortellado
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo"