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Política

Brasiliana

Solitária, mas barulhenta

por Clara Roman — publicado 28/09/2011 16h11, última modificação 29/09/2011 10h33
Na avenida Paulista, bancários em greve ganham folga enquanto 3 militantes gastam os pulmões para manter o movimento

Na Avenida Paulista, centro financeiro e endereço de dezenas de agências dos principais bancos do País, a greve dos bancários só é notada por quem passa na esquina da praça Oswaldo Cruz, sentido Paraíso. Ali, em frente a uma agência do banco Bradesco, Neiva Maria Ribeiro, 38 anos, proclama sozinha, ao microfone, as reivindicações da categoria aos passantes. Parece pregar para um público ausente ou desatento.

“É a gente que aguenta o cliente estressado”, grita Neiva, enquanto um senhor passa tapando os ouvidos. E prossegue: “Vamos resistir até o último segundo. Ou a gente resiste, ou vai ser 0,5%”, alerta, em referência ao aumento salarial sugerido pela Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) e que desencadeou a paralisação dos bancários no dia 27 de setembro.

O discurso de Neiva é intercalado com música em alto volume. Enquanto toca a música Até quando, de Gabriel O  Pensador ("Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!) Até quando vai ficar sem fazer nada?"), Marta Soares, 45 anos, coordenadora da regional da Paulista do sindicato, conta que a playlist - que também reúne clássicos de Chico Buarque, Raul Seixas e Geraldo Vandré - serve para chamar a indignação dos funcionários.

Ao falar sobre as principais reivindicações do movimento – que exige aumento de 5% do salário acima da inflação – Marta é estimulada por um cliente do banco. “Vocês tão certos. Ganham mal pra caramba. Os bancos só querem explorar. Mas essa puta zona enche o saco. Pede para diminuir o volume”, diz o transeunte, que não quis ser identificado.

Segundo o Sindicato dos Bancários e Financiários, a mobilização fechou no primeiro dia, a segunda-feira 26, 4.191 locais de trabalho pelo País e paralisou 21 mil trabalhadores. A entidade reclama que, apesar dos altos lucros divulgados pelos bancos, o repasse de 0,5% sugerido para seus funcionários, submetidos - segundo eles - a um regime de metas abusivo, é irrisório. Segundo Neiva, bancários têm apresentado problemas psicológicos ao serem forçados a vender produtos que sabem serem prejudiciais aos clientes. “Bancários se sentem humilhados ao venderem programas porque gera um problema ético”, diz ela.

Rafael Pontes, contratado pelo sindicato para instalar o som, observa a performance. A maioria dos transeuntes é contra, diz ele, porque não entende o protesto. Muitos xingam Neiva. De vez em quando, um elogio. “Parabéns pelo movimento”, cumprimenta um passante, com o nome de um estacionamento estampado no uniforme. Neiva, blusa rosa, tênis All Star e calça jeans, se despede do público inexistente: “Se mudar alguma coisa, nos liguem. Temos de ter paciência e calma”, diz, enquanto as pessoas caminham indiferentes pela avenida.

Como fechar um banco

Enquanto Marta e Neiva explicam o cenário da greve, Tânia Maria Souza, 50 anos, também do sindicato, chega indignada. Companheiros, segundo ela, estavam furando a greve: “No Vergueiro e Vila Mariana, estão mandando todo mundo (trabalhar) para outras agências”, afirma. Tânia entra em ação e, pouco depois, cerca de 12 funcionários das agências em questão aparecem, de sorriso no rosto, indo embora para casa. “A Tânia botou todo mundo para correr”, brinca Neiva.

Marta e Tânia têm a missão de construir o movimento na região da Paulista. Segundo elas, a mobilização ainda é "de fora para dentro". Isto significa que os bancários dependem do sindicato para fechar as agências. “Quando for de dentro para fora, a gente muda o mundo”, afirma Marta.

Por isso, na manhã do dia 27 de setembro, a maior parte das unidades funcionava normalmente até segunda ordem do sindicato - que pode chegar a qualquer momento, como num flagrante. Enquanto isso, eles trabalham.

“É o sindicato chegando gente!"”, grita Tânia, enquanto entra em uma agência do Banco Itaú que ainda funcionava. A sindicalista não encontra nenhuma resistência. A gerente sorri, enquanto fecha a porta de vidro e Marta estende a faixa “Estamos em greve”. O segurança feliz, sussura “Hoje eu vou descansar, mas ela [a gerente] não gosta”, diz.

Uma atendente do banco, cujo trabalho foi interrompido com a entrada das duas mulheres e que não quis se identificar, reforça a visão do sindicato. Para ela, a greve é necessária, sobretudo por causa das metas abusivas e condições desfavoráveis de trabalho. Sobre os produtos que são obrigados a vender, ela atesta que muitos se sentem constrangidos. “A gente não vende, empurra. Eu não me sinto mal porque sou cara de pau”, diz, enquanto espera dar o horário da manicure, agendada para dali a pouco, para deixar o posto de trabalho (e de luta) e ir embora.

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