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Política

Romário x Ronaldo

No mesmo campo, em lados opostos. De novo

por Matheus Pichonelli publicado 01/12/2011 11h48, última modificação 06/06/2015 18h15
Gênios, Ronaldo e Romário formaram uma das maiores duplas de ataques da história. Agora, jogam juntos de novo, mas de lados bem diferentes
Ronaldo

Ronaldo, ao lado do então presidente Lula, com a camisa da seleção. Foto: Agência Brasil

É daquelas perguntas com nitroglicerina pura. Quem foi melhor em campo, Romário ou Ronaldo?

Numa roda de conversa, metade vai dizer que um, metade que outro, e se for ímpar o número de integrantes da mesa, não haverá voto de Minerva. Todos ficarão divididos e o restante, em dúvida.

Como titulares, cada um ganhou sua Copa do Mundo como protagonista e artilheiro. Ronaldo teve mais chances: ao todo, três mundiais, fora 94, quando Romário era ídolo e o jovem dentuço, reserva (só tinha 17 anos).

Além dos gols, cada um se tornou ídolo de forma diferente.

Um por causa (ou apesar) da incontinência verbal, que de tempos em tempos disparava petardos contra adversários (acertou uma voadora num argentino certa vez), torcedores (estapeou um fluminense mala que xingava o time durante o treino), treinadores (nunca perdoou Felipão por ficar de fora da Copa em 2002), parceiros de time (chamou Edmundo de “bobo da corte” no Vasco) e ex-atletas (“Pelé calado é um poeta”).

O outro virou ídolo na base da diplomacia, apesar de não escapar de polêmicas na vida pessoal.

Ronaldo fez mais gols em Copas. Tinha mais arranque e driblava mais, principalmente quando ainda era Ronaldinho. E vai ser lembrado sempre como o atleta que ressuscitou todas as vezes em que se machucou e foi dado como morto.

Mas o ex-camisa 11, dez anos mais velho que o Fenômeno, era mais simples e mais mortal. E foi assim do primeiro chute a gol até a aposentadoria, aos 42 anos, quando levava nas costas a artilharia do Campeonato Brasileiro no meio de um monte de garotos – diferentemente do ex-camisa 9, que perdeu a forma na reta final, caiu de produção e pediu arrego, talvez cedo demais.

Ambos foram artilheiros na Europa e viveram a melhor fase no Barcelona. E foram eleitos melhores jogadores do mundo em épocas diferentes.

Juntos, formaram simplesmente a melhor dupla que vi atuar – uma parceria que terminou antes da Copa de 98, mas levou uma Copa América e uma Copa das Confederações (numa final, contra a Austrália, em que cada um marcou três gols).

Impressiona que agora, fora de campo, os dois tenham tomado caminhos tão diferentes nos bastidores do futebol. E é justamente a Copa de 2014, a primeira em que nem um nem outro poderá atuar, que os coloca no mesmo campo novamente.

Aos 45 anos, Romário, que sempre foi boca solta, parece ter perdido de vez o freio da língua quando trocou a chuteira pelo terno. Foi desfilar, com seus cabelos já embranquecidos, nos corredores de Brasília como um dos deputados federais mais votados do Rio de Janeiro, estado pelo qual foi eleito no ano passado pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB).

No cargo, encampou duas bandeiras: a defesa de pessoas com necessidades especiais e o esporte. Com a segunda, tornou-se a pulga atrás da orelha de Ricardo Teixeira, o presidente da CBF que provocou a ira do ex-atacante dizendo que Ronaldo foi mais jogador.

Foi cutucar a onça com a vara curta.

Romário virou uma espécie de fiscal das obras da Copa, criticando o papel da Fifa, entidade máxima do futebol que, segundo ele, não pode pensar que “manda no Brasil”. Visitou as cidades-sedes da Copa, acusou os governos de mascarar os problemas nas obras e lembrou que "Copa do Mundo não é Campeonato Paulista".

Em audiência pública na Câmara, peitou, de uma vez, Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, e o chefão da CBF, Ricardo Teixeira. Cobrou explicações pelo fato de Valcke ter sido chamado de “chantagista” pelo presidente da entidade, Joseph Blatter, e perguntou por que eles voltaram a trabalhar juntos após Valcke ter sido demitido por suspeitas. “Foi medo?”, perguntou Romário, causando irritação até do presidente da comissão, Renan Filho (PMDB-AL), com quem bateu boca.

Na sessão, Romário questionou Teixeira sobre denúncias de propina que correm na Justiça suíça. Desnorteado, Teixeira preferiu desqualificar a acusação.

Fora de campo, Ronaldo parecia levar uma vida pacata faturando como garoto-propaganda e sócio da empresa de marketing 9ine - e arroz de festa com autoridades, artistas e revistas de celebridades - até ser convidado para o cargo de "embaixador" da Copa de 2014.

Ao aceitar o convite, Ronaldo entrou novamente na mesma área de Romário.

Para assumir o posto no COL, o comitê organizador da Copa, o ex-camisa 9 terá de resolver alguns conflitos, como o fato de ser garoto-propaganda da Claro e da Ambev e, ao mesmo tempo, "embaixador" de uma Copa patrocinada pela Oi e pela Coca-Cola.

Pesa também o fato de ser representante de jogadores que podem estar, ou não, em campo durante o Mundial.

Mesmo assim, Ronaldo já declarou que não prentende deixar de trabalhar em sua agência de marketing e negou conflitos de interesses ao assumir a função. Ele também já decidiu que prefere não receber salário para trabalhar no COL.

Antes que acertasse as bases do acordo, no entanto, Romário já dava dicas ao ex-parceiro. Publicamente, disse que Ronaldo deveria investigar o próprio comitê que vai presidir, no lugar de Teixeira, com a ajuda do Ministério Público.

Enquanto isso, o Fenômeno tenta mostrar que, apesar da gritaria, tudo corre nos conformes na preparação do Mundial. "As obras estão sendo tocadas e tenho certeza de que faremos uma grande Copa", disse o pentacampeão, em tom otimista.

Do outro lado, Romário espetou. “Espero que o Ronaldo não venha a escorregar nas cascas de banana que corruptos podem colocar para ele”, disse o deputado, que deixou a porta aberta de seu gabinete ao Fenômeno.

“Tenho certeza que ele não precisará de mim para nada, mas se algum dia ele quiser bater um papo, trocar uma ideia, tanto como ex-companheiros de campo que fomos, como agora como políticos - porque a presidência do COL não deixa de ser um cargo político - estarei à disposição.”

Se dentro de campo eram champanhe e vinho e, juntos, uma dupla inesquecível, é longe dos gramados que Romário dá a primeira assistência a Ronaldo. Se o Fenômeno vai mandar a bola para o gol, ou tropeçar na casca de banana, é outra história.