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Política

Operação Lava Jato

Oposição se fortalece e impeachment ganha fôlego, diz analista

por Débora Melo publicado 04/03/2016 15h49, última modificação 05/03/2016 08h48
Para Cláudio Couto, da FGV, investigação contra Lula e delação de Delcídio criam tensão propícia à volta da pauta do impeachment
Dilma

Nova fase da Operação Lava Jato fortalece oposição e dá fôlego a protestos contra o governo Dilma

A deflagração da 24ª fase da Operação Lava Jato e a revelação da suposta delação premiada do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) fortalecem os adversários do governo e dão novo fôlego ao processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Essa é a avaliação do cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas.

“Mesmo que as motivações do impeachment não tenham nada a ver com esse processo de investigação, o movimento ganha força pelo ambiente político que se produz", diz Couto. "Isso piora o clima, afasta ainda mais o PT da presidente e, consequentemente, reforça o poder de fogo da oposição. Não quer dizer que o impeachment vá acontecer, nem que vá acontecer agora, mas há um aumento da pressão nessa direção”, continua.

Couto, porém, lembra que tudo pode mudar até o próximo episódio. “A gente tem visto uma gangorra nisso, então é bom aguardar um pouco para poder avaliar melhor”, diz. “Precisamos ver o que vai aparecer dessa provável delação premiada do Delcídio, se não vai sobrar para a oposição. Talvez sobre.”

O pedido de impeachment acolhido em dezembro pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é centrado no fato de Dilma ter editado seis decretos entre julho e agosto de 2015 autorizando o governo a gastar 2,5 bilhões de reais a mais que o previsto no Orçamento.

Já a nova fase da Operação Lava Jato, batizada de Aletheia, tem como alvo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Ministério Público Federal apura se Lula teria recebido dinheiro por meio de pagamentos dissimulados feitos pelo pecuarista José Carlos Bumlai e pelas construtoras OAS e Odebrecht. Delcídio, por sua vez, teria dito em delação premiada que Dilma tentou interferir três vezes no Judiciário para tentar conter as ações da Lava Jato.

Para Cláudio Couto, o objetivo da última fase da operação é dar ao Planalto e ao PT o recado de que qualquer tentativa de interferência do Executivo nas investigações não será tolerada, especialmente após a saída de José Eduardo Cardozo do Ministério da Justiça, agora comandado por Wellington César Lima e Silva. A oposição afirma que o pedido de demissão de Cardozo foi motivado por pressão de Lula e do PT  eles negam.

“Essa ação, neste momento e da forma como se deu, pode ser compreendida sobretudo como uma reação às mudanças no Ministério da Justiça e à possível interferência do novo ministro nos trabalhos da Polícia Federal”, diz o analista.

“Após uma ação como essa, fica muito difícil qualquer tentativa nessa linha, porque isso seria recebido como uma retaliação à operação. Mas, a meu ver, o espaço de manobra já era pequeno, porque a Polícia Federal tem uma autonomia muito grande e opera muito mais como polícia judiciária do que como braço do Executivo. Já foi assim no passado, mas não é mais assim há um bom tempo”, completa.

A 24ª fase da Lava Jato fez buscas no Instituto Lula, na casa do ex-presidente e o levou para depor por meio de condução coercitiva. Para Couto, a alegação da PF e do MPF de que a operação foi feita nesses termos para preservar a ordem e garantir a segurança dos investigados “não faz sentido”.

“Uma operação como essa causa tanto estardalhaço que ela não só aguça a polarização como não resolve o problema da segurança. Por isso que não me parece que o motivo seja esse. O motivo é realmente criar um fato politicamente relevante.”