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Lei contra "propaganda gay" abalará Jogos de Inverno

por Deutsche Welle publicado 23/11/2013 08h18, última modificação 23/11/2013 08h30
Estrangeiros também são afetados por criminalização de declarações positivas sobre gays na Rússia. Ativistas tentam sensibilizar entidades esportivas
Andrew Burton/Getty Images/AFP
Protesto direitos gays

Manifestantes da comunidade LGBT dos Estados Unidos protestam em frente à Bolsa de Nova York, em 18 de novembro, contra as negociações com empresas russas

"Hoje, Robbie joga novamente futebol pelo LA Galaxy em Los Angeles", afirma Leviathen Hendricks, engolindo em seco. Depois de alguns segundos de silêncio, ele continua: "Quando ele entra em campo, os torcedores começam a aplaudir".

Norte-americano residente em Londres, Hendricks é porta-voz da Federação de Jogos Gays (FGG, na sigla em inglês). A cada quatro anos, a entidade organiza competições de que participam atletas gays de todo o mundo. Hendricks se emociona com a história do jogador de futebol norte-americano Robbie Rogers, que jogava na primeira divisão inglesa e se declarou homossexual no início de 2013 para, ao mesmo tempo, anunciar o fim de sua carreira, com apenas 25 anos de idade.

Somente alguns meses depois, ele retornou aos campos, nos EUA. Rogers se tornou o primeiro jogador de futebol profissional da história da liga americana de futebol, MLS, a falar abertamente sobre sua homossexualidade. O vídeo com sua entrada em campo no dia da estreia, sob aplauso das arquibancadas, foi colocado no site da MLS, acompanhado de um artigo sobre a volta de Rogers aos gramados.

"Acho que isso é uma prova fantástica de que esses medos que muitos atletas gays costumam carregar consigo muitas vezes não condizem com a realidade que eles esperam ter de enfrentar", avalia Hendricks. "Muitos têm medo de que, ao falar abertamente sobre sua homossexualidade, possam colocar sua carreira em risco ou deixar de ser aceitos", comenta. "Esses medos são resultados de coisas como a que ouvimos sobre Sochi", ressalta.

Na Rússia, gays tratados como criminosos

Em Sochi, na Rússia, os Jogos Olímpicos de Inverno serão realizados entre 7 e 23 de fevereiro de 2014. O Comitê Olímpico Internacional (COI) tem sido frequentemente criticado pela escolha da sede para o evento. Uma das críticas é que na Rússia gays, bissexuais e transexuais são tratados como criminosos.

Em meados do ano, o presidente russo, Vladimir Putin, assinou uma controversa lei contra a "propaganda homossexual". Desde então, declarações positivas sobre "relações sexuais não-tradicionais" na presença de menores ou em espaços públicos, como a internet, são passíveis de punição, como multas pesadas.

Estrangeiros também são afetados pela lei. Quem se manifestar na Rússia durante os Jogos Olímpicos de Inverno a favor dos direitos dos homossexuais correrá o risco de sofrer penas severas.

Leviathen Hendricks tentou falar com o COI sobre o assunto. Mas a organização, que define a "luta contra qualquer forma de discriminação" como uma meta em seu estatuto, não se sente responsável pela questão. O COI argumenta que a lei só foi adotada após a escolha da sede dos Jogos Olímpicos. Hendricks argumenta que, durante o processo da eleição da sede do evento, deve ser garantido que os direitos humanos também serão observados "durante os Jogos Olímpicos".

Ponto de encontro para atletas gays

Nos Jogos Olímpicos de Vancouver, em 2010, nos de Londres, em 2012, e no último Campeonato Europeu de Futebol na Polônia e Ucrânia, Hendricks ajudou a organizar a chamada Pride House dentro das cidades-sede. "A casa é um espaço social acessível, sem credenciamento, a todas as pessoas", descreve Hendricks. "Atletas, torcedores e jornalistas podem se encontrar na Pride House".

Exposições sobre atletas olímpicos homossexuais, bissexuais e transexuais, assim como eventos noturnos sobre homossexualidade no esporte têm como objetivo promover tolerância e igualdade de direitos, segundo o porta-voz dos FGG.

"De cerca de 12 mil atletas em 2012, em Londres, apenas 23 se declararam abertamente homossexuais", lembra Hendricks. A esgrimista alemã Imke Duplitzer foi um deles. Depois de uma competição, ela visitou a Pride House. "Mesmo que normalmente ela não seja visitada por atletas, a casa é um sinal importante de que existem atletas homossexuais", elogia Duplitzer.

Pedido de apoio a comitês nacionais

Em Sochi, provavelmente não haverá uma Pride House. Em fevereiro passado, o tribunal distrital de Krasnodar proibiu uma iniciativa do tipo para os Jogos de Inverno de 2014. "Após esta decisão, pedi apoio ao COI por carta", lembra Hendricks. Como resposta, a entidade argumentou, numa resposta sucinta, que não pode cuidar de todos os "interesses especiais".

Em sua nova estratégia, Hendricks escreveu a diferentes comitês olímpicos nacionais, perguntando se é possível organizar um evento da Pride House nas sedes dos respectivos países que enviarão delegações de atletas a Sochi. Os ativistas esperam conseguir pressionar os países isoladamente através de uma petição online.

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