Você está aqui: Página Inicial / Política / O último comunista de Bauru

Política

Brasiliana

O último comunista de Bauru

por Redação Carta Capital — publicado 26/03/2012 12h36, última modificação 06/06/2015 18h22
No enterro de Arcôncio Silva, uma breve trégua entre as correntes de esquerda
Arconcio

Guia. Morto aos 96 anos, "ele queimou o pavio", diz um amigo. A mulher Zuleide queria prolongar "a eternidade". O professor Meneghello rogava pela união da esquerda. Não foi atendido. Foto: Henrique Aquino

Por Henrique Perazzi de Aquino

Morrer faz parte da vida, ainda mais quando se tem no costado 96 anos. “Uma eternidade, mas a gente queria que isso pudesse se prolongar por mais um tempinho”, resume Zuleide Júlia de Souza da Silva, esposa do militante comunista Arcôncio Pereira da Silva, falecido em Bauru, no interior paulista, na terça-feira 20, após padecer entre idas e vindas hospitalares, reflexo dessa feita de um implacável AVC.

Comunistas morrem todos os dias, embora não restem muitos por aí, de resto como qualquer ser humano. Mas surpreendeu o desfile de declarados esquerdistas diante do esquife. Vieram de todos os lados e eram de todos os matizes e cores, dos mais alvos, alguns desbotados, pouquíssimos em plena atividade e, pasmem, nenhum outro puro-sangue a igualar-se ao falecido. Arcôncio Silva conseguiu juntar diante de si o inimaginável em uma reunião de fundo partidário nos dias atuais. Sua vida foi toda assim. Impoluto cidadão, o nome de maior longevidade e resistência de uma ideologia dispersa, com fidelidade partidária mais do que claudicante.

“Igual a ele mais ninguém. E agora?”, era a mais comum das perguntas durante o velório. Na primeira página dos jornais locais expostos sob as cadeiras um momento raro: sua foto em ambos acompanhada de legendas elogiosas. “Restam quantos comunistas de verdade na cidade e região (poderia acrescentar no mundo)?”, perguntava Nilson Costa, dirigente sindical cassado em 1964, jornalista e ex-prefeito da cidade.

Arcôncio Silva nasceu em Viçosa, agreste de Alagoas, e chegou ao Sul Maravilha, como tantos outros, em busca de um sonho. Vida acidentada, cresceu politicamente à base das bordoadas, resultado das escolhas na vida, a principal delas: permanecer ao lado dos menos favorecidos. Quando decidiu aderir ao comunismo, a coisa ficou pior. Na greve da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, em 1949, foi demitido pela primeira vez. Ficou preso por semanas, acusado de agitação. Em uma das passagens pela cadeia, o militante viu uma senhora da sociedade passar poucas horas no xilindró, mesmo tendo sido -acusada de assassinato. Ele, ao contrário, permanecia atrás das grades por simplesmente organizar os trabalhadores.

Cassado após o golpe de 64, quando atuava na Companhia Sorocabana, penou para colocar comida na mesa da família. Fez bicos variados até virar um famoso jornaleiro em Bauru. Com o fim da ditadura, recuperou o velho emprego na companhia ferroviária. “A primeira coisa que fez foi juntar um dinheirinho e rever os parentes no sertão”, relembra a mulher.

A firmeza de princípios fez dele uma unanimidade. “Recebi ligação de desafeto declarado me avisando de sua morte. Fiquei sem voz, mas entendi tudo: Arcôncio foi maior que todos nós, talvez até juntos”, diz o blogueiro Luis Freitas. “Não se segurava quando via alguma irregularidade. Foi assim a vida inteira. Quantos não foram repreendidos por causa de vacilos e pisadas na bola. Quando isso acontecia, ninguém piava. Engoliam em seco”, relembra a merendeira aposentada e comunista em posição de descanso, Elisa Carulo Santos, a observar como alguns declarados desafetos cumprimentavam-se de forma acanhada no velório.

Uma imagem de Nossa Senhora Aparecida decorava a parte frontal do caixão. Os presentes buscavam uma bandeira do partido para cobri-la. “Eu tenho uma, mas está tão desgastada… Será que pegará bem?”, disse a ex-vereadora e dirigente do PCdoB local Majô Jandreice. “Essa é a melhor, surrada e usada, como a dos batalhadores. Uma nova destoaria de sua trajetória”, emendou o professor aposentado Isaías Daibem.

No momento do fechamento do caixão não houve jeito: após exaltados pronunciamentos de louvor ao morto, uma pregação e orações. A filha e uma sobrinha do falecido comunista são pastoras evangélicas. Professores, operários, profissionais liberais, políticos, engravatados, botinas sujas, gente suada e outras sem cheiro nenhum se espremiam no recinto.

Nadir Ferreira Valente, perito criminal aposentado, veio de Jaú, distante 60 quilômetros, só para rever o quase irmão: “Eu vinha de lá até aqui para jogar tranca com ele. Muita gente gostava dele, mas poucos o procuravam de fato. Ouvi tudo o que podia ter contado a alguém em vida. Ele queimou a vela até o pavio, até a última gota de cera”. A destoar, o desabafo da filha mais velha: “Se foi sempre ótimo para com os amigos, em casa deixava a desejar. Teve sempre pouco tempo para ficar com a família”.

Alguns eternos companheiros tentaram resumir a importância do velho comuna. “Somos orgulhosamente herdeiros dele e nos sobra uma responsabilidade muito grande para continuar sua luta. O militante não morre”, disse Daibem. O professor universitário Clodoaldo Meneghello Cardoso tentou conclamar a união: “Queria muito que o evento pudesse ser um momento de convivência da esquerda”. Cardoso não conseguiu. Com Arcôncio Silva enterrado, a ligeira trégua acabou. Na saída, um exaltado dirige-se a uma roda e desfere: “Apesar das aves de mau agouro presentes, verdadeiras cassandras do negativismo, sobrevivemos”. Cada um foi para o seu lado. E -Arcôncio finalmente descansou.

registrado em: , ,