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Política

Eleições 2010

O script de Serra

por Celso Marcondes — publicado 26/05/2010 15h56, última modificação 17/08/2010 15h58
Estagnada nas pesquisas, a candidatura tucana mantém um roteiro que não apresenta resultados

Estagnada nas pesquisas, a candidatura tucana mantém um roteiro que não apresenta resultados

Antes que a Copa do Mundo comece – e que seja desmentida a tese de que nada acontecerá de novo na disputa eleitoral durante o mês de junho – dá para desvendar o script que José Serra seguiu até aqui nesta fase da sua campanha.

Estratégico para ele é não se confrontar com Lula, saudar os avanços de seu governo e até colocá-lo “acima do bem e do mal”, como chegou a declarar. Para amenizar o elogio, dizer de vez em quando que Lula “deu continuidade aos 8 anos de FHC”, lembrando do Plano Real, da estabilidade econômica, da consolidação da democracia.

A linha é jogar o debate “para o futuro” e fugir da comparação entre os resultados dos dois governos. “Não é uma briga entre passado e presente, mas uma discussão sobre o futuro”, dizem os líderes tucanos, ao tentar neutralizar a estratégia petista. Para fugir do “clima de Fla X Flu”, Serra até declarou, para espanto de muitos, que convidaria figuras do PT e do PV para compor um eventual governo seu.

Como decorrência desta avaliação, o objetivo é fazer o duelo direto com Dilma Rousseff. Comparar currículos pessoais, questionar sua limitada vida pública. A ex-ministra seria “inexperiente”, incapaz de tocar o legado de Lula. No submundo da luta política, aquele dos blogs fajutos e dos comentaristas de aluguel que infestam sítios como o de CartaCapital, a tese fica mais rasteira: Dilma vira a “terrorista” - até a “assassina” -, manipulada pelos “radicais do PT” que não têm sucesso hoje no controle de Lula. Vira também a “autoritária” que em nada lembraria a simpatia e a flexibilidade do atual presidente.

Definido o ambiente que seria mais favorável ao PSDB num quadro difícil, de crescente aprovação do governo Lula, a campanha tateia em busca dos pontos de programa que lhe convém discutir. Não fazem parte desta lista os programas sociais e o Bolsa Família, pois chocar-se com eles é chocar-se com Lula e o seu eleitorado mais pobre. Se o assunto vem à tona, o candidato lembra que o Bolsa Família foi criação do PSDB e se indigna quando um repórter resolve provocá-lo, ao perguntar se queria acabar com o benefício.

Outro tema que Serra destaca é o do “aparelhamento do Estado”. O governo petista é acusado de lotear os cargos entre seus partidários e aliados, de aumentar os gastos públicos e desperdiçar dinheiro com publicidade farta e inútil. Para o PSDB, careceria o País de um “choque de gestão”, aos moldes dos realizados nos governos de Minas e São Paulo, pois o Estado incharia ainda mais com Dilma, ocupando espaço que seria por direito da iniciativa privada. Decorreria desta discussão também as necessidades iminentes das reformas tributária e previdenciária.

Já no debate econômico, que apraz ao candidato tucano, ele critica sempre dois pontos da política atual, as altas taxas de juros e o câmbio valorizado que desfavorece as exportações. Quando não envereda também na discussão sobre a autonomia do Banco Central.

Outro assunto recorrente é a política externa do governo federal. Embora exaltada no exterior, no debate político local o que vale ser destacado pelo PSDB são as relações que Lula e Celso Amorim nutrem com os governos de Cuba, da Venezuela e do Irã. Não compartilhar com o governo norte-americano a mesma linha belicosa que ele adota contra Fidel, Chávez e Ahmadnejad significaria almejar para o Brasil as mesmas características autoritárias dos três, “um perigo para a democracia”.

Da mesma matriz, surge outro tema de confronto, revelado pelo debate entorno do Plano Nacional dos Direitos Humanos 3: o governo petista seria contra a liberdade de imprensa. O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, foi muito aplaudido recentemente quando fez esta crítica. Não por acaso, no auditório do Estadão, em debate com o presidente do PT, José Eduardo Dutra.

Mais além da estratégia geral e dos pontos táticos de ação, há pelo menos uma outra agulhada paralela, de bastidores. É aquela que acusa Lula e Dilma de fazerem “campanha antecipada”, visão já corroborada pelo Tribunal Superior Eleitoral, que tascou várias multas para eles.

O script é mais ou menos este e está sendo seguido à risca pelo candidato, com grande apoio dos principais veículos de comunicação. O problema é que o resultado final não tem sido lá essas coisas, as pesquisas recentes não foram nada alvíssaras para o comando tucano.

A TV explicaria tudo - Há quem tenha buscado exclusivamente na exibição do programa eleitoral que o PT levou ao ar na semana passada a explicação para o chamado “empate técnico” entre os dois. Segundo o Datafolha, ao avaliar o fenômeno, dez minutos na televisão com Lula incensando Dilma teriam rendido doze pontos percentuais a menos entre os dois candidatos.

Se for por aí, os programas de PSDB, PTB e DEM, que irão ao ar nas próximas semanas, terão a incumbência de recuperar o estrago. A tese joga um peso enorme sobre as costas dos marqueteiros que preparam os programas e poderá ser comprovada em breve, antes que o escrete de Dunga termine sua estadia na África.

Porém, diante dos resultados das pesquisas, talvez seja mais prudente que o PSDB reveja o sript geral e não se limite a valorizar tanto assim o horário gratuito na televisão.
No que se refere ao embate de currículos, é fácil constatar que a desqualificação de Dilma já recebe guarida junto a setores das classes A e B, principalmente o empresariado. Ocorre que estes são os setores que já estão alinhados com o PSDB e com Serra a muito tempo, independentemente do adversário escalado pelos petistas. Mostrar-se mais preparado que a oponente junto aos setores mais pobres da população, no entanto, é ainda tarefa a ser construída.

Acontece que sua pauta atual não causa qualquer “frisson” nas camadas populares. Discussões sobre o tamanho do Estado, o uso da máquina pública, o câmbio, as relações com Fidel ou o suposto autoritarismo petista, mesmo que os tucanos tivessem pressupostos corretos, estão fora do rol de preocupações daqueles que estão na base da pirâmide social.

Ao não apresentar propostas para as classes C, D e E, a sua eleição flerta com a derrota. Enquanto Serra se cala, sua oponente fala que a principal meta de seu governo será “erradicar a miséria do País”, missão que Lula estaria lhe transferindo.

Não me atreveria a sugerir para o comando da campanha de Serra que invente um “Programa Grande Família” para se contrapor ao “Bolsa Família”. Ou um “Água e Gás Para Todos” para ir além do “Luz Para Todos”. Ou um “Pró-pós-graduação” para avançar em relação ao “Prouni”. O que vale ressaltar é que sem se dirigir ao povo, o candidato tucano permanece falando sempre com seu público cativo.

Para ilustrar, relembro um caso que vivenciei há cerca de 20 anos, numa cidadezinha paulista. Nela, o prefeito, faltando dois meses para a eleição que elegeria seu sucessor, mostrava-se preocupado com os resultados de uma pesquisa de opinião, que colocava em primeiro lugar o candidato da oposição, apesar de todas as melhorias que tinha feito na cidade. Intrigava-lhe o fato de perder até num bairro criado em sua gestão e que abrigava em confortáveis casinhas todos os ex-favelados da cidade, algumas poucas dezenas de famílias. “São uns ingratos”, exclamava o prefeito, “resolvi o principal problema da vida deles e agora não votam no meu candidato!”, ele falou.

Passada as eleições, derrotado seu candidato, encontrei o prefeito num evento e não pude deixar de perguntar se havia, pelo menos naquele bairro, revertido a situação. “Não, perdemos lá também. Descobrimos tarde demais que a oposição tinha feito um trabalho intenso, prometendo que o bairro todo seria asfaltado”.

Serra até aqui não se propôs a asfaltar o bairro criado por Lula. Talvez nem tenha asfalto para tanto. A conta do desastre pode sobrar para o marqueteiro.

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