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O risco da "reconcentração" do Brasil

por Redação Carta Capital — publicado 26/02/2013 16h07, última modificação 06/06/2015 18h42
Em evento promovido por CartaCapital, governadores e especialistas dizem que fim das desigualdades deve ser política de Estado

Por Mariana Segala

O ano de 2013 promete ser “desafiador” para o Brasil no que diz respeito ao crescimento econômico, o que representa um problema a mais no caso dos estados do Nordeste, afirmou ontem o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, em entrevista a CartaCapital durante o seminário Nordeste – Como enfrentar as dores do crescimento, realizado pela revista em Recife.

“Para reduzir as desigualdades frente ao resto do país, precisamos avançar num ritmo acima da média nacional”, justificou.

A região abriga atualmente cerca de 28% da população brasileira, mas produz não mais que 13,5% do PIB – uma proporção que, nos últimos dez anos, apesar da melhoria da renda dos nordestinos, avançou apenas meio ponto percentual.

“O fim da inflação foi importante para ordenar os fundamentos macroeconômicos do país, mas por si só não nos levou a retomar o crescimento”, disse Campos.

“Quando a desigualdade começou a ser combatida, logo se percebeu que as áreas mais deprimidas responderam, mas não numa velocidade e numa intensidade suficientes para superar um passivo que é histórico.”

O governador disse que a desigualdade social continua sendo um entrave ao crescimento do Brasil e deve ser combatida não com ações pontuais, mas com políticas de desenvolvimento regional que incluam novos sistemas de financiamento para determinados investimentos. O estabelecimento de uma política mais ampla no âmbito do Estado, e não do governo, é fundamental para evitar que investimentos em áreas como o Nordeste dependam apenas da sensibilidade de quem ocupa os cargos mais altas do serviço público.

“Tivemos decisões políticas tomadas no governo do presidente Lula que favoreceram o Nordeste, mas isso precisa constar na matriz do Estado”, afirmou Campos.

Ele destacou que existem estratégias de apoio a setores, como a indústria automotiva ou a exploração de óleo e gás, mas que não se vê um recorte regional no desenho delas. “Precisamos evitar que a exploração do petróleo da camada do pré-sal, por exemplo, acabe se tornando um fator de reconcentração.”

A mesma preocupação foi compartilhada por Tânia Barcelar durante o seminário. Professora de economia regional da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e sócia da consultoria Ceplan, especializada em Nordeste, Tânia afirmou que já há “sinais de reconcentração” industrial no Brasil.

“Não podemos nos deslumbrar com a chegada da Fiat a Pernambuco ou das refinarias da Petrobras a outros estados”, ressaltou.

A Fiat está construindo uma fábrica no município pernambucano de Goiana com capacidade para produzir até 250 mil automóveis por ano.

A professora Tânia, no entanto, destacou que inclusão social no Nordeste não é sinônimo apenas de inserir os mais pobres no mercado de consumo. “Essas pessoas também precisam ter acesso a saúde e educação de qualidade”.

O governador da Bahia, Jaques Wagner, demonstrou uma preocupação em que o Nordeste perca o que já foi conquistado no que diz respeito ao desenvolvimento regional. “Não podemos permitir nenhum retrocesso nessa caminhada dos últimos dez anos, mas também não podemos esquecer que o foco no combate sistêmico da desigualdade regional depende de quem senta na cadeira de presidente”, disse Wagner.

O governador destacou que, do ponto de vista dos governantes nordestinos, cabe pensar sempre na região como um todo, e não em cada estado particularmente.

“Tenho mais que agradecer ao governo por ter dado início à construção de três refinarias em estados que não a Bahia. Já temos uma. Pernambuco, Ceará e Maranhão também precisam ter as suas”, afirmou. “Devemos criar um ambiente político de parceria e compromisso coletivo com o Nordeste.”

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