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O que ocorre com a oposição no País?

por Coluna do Leitor — publicado 27/09/2010 18h20, última modificação 28/09/2010 10h31
Estamos diante de um desaparecimento da força de oposição no País com a eventual vitória de Dilma nas eleições de 2010? Ou estamos caminhando para um bipartidarismo polarizado entre as potências PT-PSDB?

Por Marcos Vinícius Baccarini*

Estamos diante de um desaparecimento da força de oposição no País com a eventual vitória de Dilma nas eleições de 2010? Ou estamos caminhando para um bipartidarismo polarizado entre as potências PT-PSDB? Sinceramente, há quem diga e há fatos que induzem às duas correntes.

Três fenômenos, em primeiro plano, levam a sustentar ambas as especulações, a saber:

1) o nunca antes visto alto índice de popularidade de um Presidente da República, que beira em seus 79%. E de um governo com quase unânime aprovação de 81,4%, segundo pesquisa CNT/Sensus.
2) A consolidação do PT como um bloco de poder que reúne em si setores da sociedade civil em ampla escala, que vai desde a base trabalhista a certa parcela da elite industrial e econômica do País.
3) A negação por parte de correntes do próprio PSDB, principal frente de oposição atual, quanto à herança e historia do partido.

No entanto, como se pode perceber, esses três fenômenos fazem as tendências acima ditas se colocarem como antagônicas e contraditórias.

Como pode haver a consolidação de um bipartidarismo polarizado e ao mesmo tempo o enfraquecimento, senão desaparecimento, da oposição do cenário político do País?

O PT ao longo das duas décadas pós-promulgação da Constituição Federal de 88, veio conquistando uma expressiva e consistente força no cenário político do País. Essa conquista emparedou-se com a também e esmagadora força em que o PSDB tomou ao assumir a Presidência da República em 1994.

Todavia, ainda que pudéssemos falar em um antagonismo político nesse contexto, a disparidade de forças entre PT e PSDB era evidente, o PSDB levava ampla vantagem. E essencialmente, ambos passaram a seguir caminhos diversos aos originais.
O PT e o PSDB não possuem a mesma base ideológica, em regra, porém ambos não são de direita. O PT originalmente era de esquerda, assumindo hoje a posição centro-esquerda.

O PSDB originalmente era de centro-esquerda (alguns afirmavam centro-direita e outros ainda como já de direita). Acontece que o PT esses oito anos de Governo forçou o PSDB a posicionar-se na direita, devido a sua política de governo, ainda que muitos do próprio PSDB possam pensar o contrário.

Outra das grandes causas do PSDB hoje ter essa faceta direitista foi a inusitada aliança com o PFL (hoje DEM) em 1994 para construir uma bancada governista sólida.

O PSDB fadou-se a permanecer na direita quando se aliou com o retrato original da UDN, que é, inegavelmente, o PFL-DEM. Há quem diga que o PSDB tentou desvincular-se do aliado, mas era uma relação viciosa. Quanto menos se queriam, mais se necessitavam. o PSDB sucumbiu às idéias do "indesejado" aliado.

A questão real é que o PT aprendeu a governar agora, consolidou-se como um bloco de poder atuante. O mesmo que o PSDB conquistou quando assumiu a Presidência em 94. Definitivamente, quando um partido assume o governo de um Estado soberano, as coisas mudam. O PSDB mudou sua linha de política, o mesmo com o PT.

Hoje, contudo, o PT enfrenta muita dificuldade em implementar sua carta programática devido as alianças que teve de fazer para que tivesse aquilo que chamam de “governabilidade”. Lula não conseguiu cumprir a carta, Dilma dificilmente conseguirá. Ainda mais com o PMDB como aliado.

Todos sabem que uma economia mista de mercado é ainda a melhor pedida para um crescimento estabilizado. O PSDB não teria feito diferente, o PT não faria diferente.

O alto índice, quase unânime, de aprovação do governo atual e em particular do Presidente Lula contribuiu, também, para que os moldes de oposição tivessem dificuldade em oferecer um discurso alternativo.

Não é de se alegrar em ver esse enfraquecimento da oposição, pois isso não é saudável para a Democracia em nenhum sentido. A oposição (PSDB especialmente) tem negado sua herança, seus saldos, sua historia e isso não é bom, pois desarticula o discurso de oposição e prejudica o processo democrático.

E ainda pior, hoje vemos uma oposição golpista. Sim, golpista. Nos mesmos moldes da UDN. Sem discurso, que se prega do denuncismo, com o apoio incondicional da "grande imprensa".

Mas, penso e espero, esse cenário tende a mudar. Podemos esperar com certo entusiasmo o surgimento de uma oposição moderada. Uma oposição não-gopista. O ressurgimento de um discurso coerente, centrado, fundamentado. Uma alternativa democrática de oposição.

A democracia pede isso, precisa disso. Não é bom se ter uma oposição enfraquecida, mas também não é bom se ter uma oposição além de enfraquecida, udeenizada.

Esperemos, então, a decisão da vontade do cidadão. Dia 04 de Outubro será uma página em branco pra novas expectativas serem cultivadas. Ou melhor, se confirmarem.

Sigamos com veemência, ponderação e consciência. Afinal sejamos nós petistas, tucanos, demistas, peemedebistas. Somos, primeiro de tudo, titulares do poder soberano de um regime de Democracia. Somos Cidadãos.

O discurso democrático e coerente ainda nos faz, e sempre nos fará, necessário. Espero que isso todos nós, inclusive eles, percebam isso.

*Marcos Vinícius Baccarini é de Belo Horizonte, Minas Gerais. Graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Ativista dos direitos humanos. Acompanha os trabalhos do NesP (Núcleo de Estudos Sócio Políticos) da Puc-MG.

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