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Política

Série Entrevistas Eleitorais

O PSOL descarta o udenismo

por Sergio Lirio publicado 02/10/2010 11h16, última modificação 05/10/2010 20h19
Em entrevista no mês de abril Plínio Arruda Sampaio falou à CartaCapital como seria sua campanha
O PSOL descarta o udenismo

Em entrevista no mês de abril Plínio Arruda Sampaio falou à CartaCapital como seria sua campanha. A Sergio Lirio. Foto: Agência Brasil

Em entrevista no mês de abril Plínio Arruda Sampaio falou à CartaCapital e disse como seria sua campanha

CartaCapital: Em 2006, Heloísa Helena chegou a 11% de intenção de voto baseada em um discurso udenista. Qual vai ser o tom da campanha do PSOL neste ano?
Plínio de Arruda Sampaio
: Esse foi um ponto de discussão nas prévias do partido, pois não tenho esse tipo de discurso. E tenho medo de que esse tipo de discurso distorça o problema real do País. Há, sem dúvida, um problema de corrupção e essa corrupção precisa ser denunciada e combatida, mas, na verdade, esse combate não pode obscurecer o confronto principal, a contradição desse regime capitalista selvagem. Peguemos o caso da tragédia no Rio de Janeiro. Se houve corrupção ali, é necessário denunciar, mas o importante é debater a especulação imobiliária, o peso que ela tem no desenvolvimento das cidades. Por que aquela população está lá, mal alojada em favelas, morros? Por falta de uma reforma agrária. Por que há 80 mil imóveis estocados em áreas melhores do Rio de Janeiro para serem alugados durante as Olimpíadas? O objetivo da minha campanha é fazer um diagnóstico real dos problemas do Brasil.

CC: Como é possível, nas próximas eleições, escapar da polarização PT-PSDB?
PAS
: O PT e o PSDB são dois partidos da ordem. A divergência entre eles é menor porque o modelo de desenvolvimento é o mesmo. Vamos fazer outra proposta. Defendemos uma economia muito mais voltada para as necessidades da população, capaz de resolver, por exemplo, o problema da habitação, da educação, da terra. Forçar mesmo a mão na reforma agrária. Nem o (José) Serra nem a Dilma (Rousseff)- farão um discurso real sobre o problema agrário. Ambos vão louvar o agronegócio, a monocultura. E a monocultura e o agronegócio atingem a natureza.

CC: Que avaliação o senhor faz dos oito anos de Lula?
PAS
: Há uma realidade que, na superfície, parece tranquila. De certa maneira existe uma melhora em relação ao governo Fernando Henrique, que foi um terror. Mas isso escamoteia a verdade. A educação brasileira está em um nível inacreditavelmente ruim. Outro dia mencionei Getúlio Vargas em uma palestra. Notei que a plateia, cerca de 40 jovens entre 20 e 30 anos, não entendeu bem. Perguntei quem já tinha ouvido falar do Getúlio Vargas. Só quatro levantaram a mão. A saúde vai pelo mesmo caminho. A desnacionalização da nossa indústria é um fato patente. Estamos regredindo ao estágio de uma economia primária, exportadora de quatro produtos: soja, cana-de-açúcar para fazer etanol, carne bovina para não ter colesterol e celulose para fazer papel higiênico. É um absurdo.

CC: O senhor foi um dos autores de um plano engavetado pelo governo Lula de assentar 1 milhão de famílias. É esse o tamanho da reforma agrária necessária?
PAS
: A pobreza no campo é um problema do poder. A concentração da terra concede poder a uma capa que domina o camponês. Por isso ele é pobre, miserável. É preciso quebrar esse poder e ele só pode ser quebrado se for criado outro poder para o camponês. Uma reforma agrária precisa ter certo impacto para provocar desequilíbrios em cadeia que permitam à massa camponesa alcançar um mínimo de conforto. A reforma agrária é uma proposta capitalista. Caso me pergunte qual a minha visão do campo, direi que não é essa. Tenta-se reformar o capitalismo porque falta força para erguer outra organização da agricultura. No início, acreditei que o governo Lula tinha força para fazer. Estava equivocado. Era colocar 1 milhão de pessoas na terra em quatro anos. Isso criaria um entusiasmo na população rural. Era o que se pretendia, sobretudo, se fosse realizada de uma maneira estratégica, não jogando pontualmente um assentamento aqui, outro ali. Era preciso se concentrar em pontos focais do território, como aconteceu no noroeste do Paraná. Como lá foi implantado um número grande de assentamentos, os trabalhadores ganharam o poder de eleger prefeitos, vereadores etc.

CC: O presidente Lula não sofreu do mesmo mal da conciliação em excesso?
PAS
: Florestan Fernandes dizia que o militante socialista tem três deveres: não se deixar cooptar, não se deixar liquidar e obter vitórias para o povo. Lula deixou-se cooptar. O poder burguês, da ordem, o fascinou. Fui um dos cinco coordenadores da primeira campanha presidencial de Lula, em 1989. Tínhamos um projeto de reforma radical do capitalismo. Em 2002, não. Ele aderiu à ordem. Por que o fez? Não sei. O PT inteiro o fez.

CC: Mesmo assim essa elite não o aceita?
PAS
: Ah, bom, pois ele é inconfiável. Para o mundo capitalista, confiável é quem detém capital. E Lula não tem capital. De transfusão de sangue que passou a ser aceito mesmo só conheço o caso de Fernando Henrique Cardoso. Mas esse era filho de general, originário da elite. FHC passou a ser encarado como alguém que teve seus devaneios na juventude, depois criou juízo e seguiu as regras. Lula não. Ele é perigoso por ser um líder popular. Mas, sejamos claros, nem essa burguesia o combate mais com tanta ferocidade. Você é jovem e não viu o que fizeram com João Goulart. Eles estrangularam Jango. Quando eles atacam, Nossa Senhora, é terrível! Eu vivi isso. Atrás, não dá muita colher de chá para ele, mas não ataca. Quando ataca, meu filho, Nossa Senhora, é terrível. Eu vivi isso.

CC: O senhor tinha mais esperanças nos anos 60 ou agora?
PAS
: Se não acreditasse no Brasil não seria candidato à Presidência. Tenho enorme convicção das nossas condições de superar as adversidades, de construir uma nação mais justa. Mas acho que o caminho hoje é mais pedregoso. Celso Furtado publicou, em 1992, um livro pequeno de uma lucidez espantosa. Chama-se Brasil, a Construção Interrompida. Naquele tempo, ela estava mesmo interrompida. Veio a empresa de demolição de Fernando Henrique e demoliu o que havia. E Lula terminou o trabalho do antecessor. A construção interrompida virou uma construção destruída.

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