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Política

Entrevista

O PSB tem nome para 2014…

por Sergio Lirio publicado 13/04/2011 16h46, última modificação 15/04/2011 14h15
Embora a candidatura própria não esteja em pauta, segundo o governador do Espírito Santo. A Sergio Lirio
O PSB tem nomes para 2014...

Embora a candidatura própria não esteja em pauta, segundo o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande. A Sergio Lirio. Foto: Olga Vlahou

Ele é governador pelo PSB e foi eleito com mais de 82% dos votos válidos em 2010. Não, não é Eduardo Campos, expoente da política nordestina. Trata-se de Renato Casagrande, que desde janeiro comanda o Espírito Santo, um dos estados de maior expansão econômica dos últimos 15 anos. Ex-senador, Casagrande conhece os meandros do poder em Brasília e espera usar essa experiência para acelerar o desenvolvimento da região que governa. “Os problemas de infraestrutura são nosso limitador.” Em entrevista a CartaCapital, Casagrande elogia os primeiros meses do governo Dilma Rousseff, afirma que o PSB teria todas as condições de lançar candidato próprio à Presidência em 2014 e analisa os principais pontos da reforma política.

CartaCapital: O Espírito Santo é um dos estados que mais crescem no Brasil, mas carece de uma diversificação industrial. Qual o seu projeto de desenvolvimento?

Renato Casagrande: O Espírito Santo mudou muito nos últimos anos, nas áreas privada e pública. Mudamos para melhor. Temos hoje uma máquina administrativa organizada e um diálogo com as forças políticas e com a sociedade, o que dá uma responsabilidade grande ao governante e às demais instituições. Na área econômica, temos uma diversidade de atividades que nos dão segurança. Começamos, na década de 1960, a receber grandes projetos, como a Vale do Rio Doce, de outras mineradoras, de fábricas de celulose. Tínhamos três, quatro grandes projetos que foram as âncoras do processo de desenvolvimento e que, ao lado da cafeicultura, promoveram a expansão do Espírito Santo. E novos projetos têm se agregado. Nosso setor portuário está em expansão. A atividade de petróleo e gás se desenvolve em praticamente toda a costa estadual. Temos uma agricultura desenvolvida, um setor de confecções idem, sem falar na metal-mecânica. Nossa base econômica é bastante diversificada. Poderia citar 10, 15 atividades dinâmicas a reunir grandes, médios e pequenos projetos. Se mantiver sua organização administrativa e não sofrer nenhum impacto negativo de ações federais, o Espírito Santo terá um desenvolvimento garantido pelos próximos anos. Minha preocupação é outra.

CC: Qual?

RC: Distribuir melhor esse desenvolvimento pelas diversas regiões do estado. Meu antecessor, Paulo Hartung, recuperou a capacidade de investimento do estado e eu vou ampliar essa capacidade. Queremos fazer investimentos no interior em logística, saúde, educação. E também transformar o investimento público em um ímã para os projetos do setor privado. Esse é um caminho. Além disso, temos 12 microrregiões. Queremos construir, em parceria com os prefeitos e as comunidades, planos de desenvolvimento econômico e social em cada uma delas. Possuímos vários instrumentos: um banco de desenvolvimento, uma agência de fomento de micro e pequenas empresas, um instituto de pesquisa na área rural. Vamos colocá-los na elaboração conjunta desses planos.

CC: O que o senhor espera do governo federal?

RC: Discuto com o governo federal o que chamo de pauta velha. O limitador do desenvolvimento mais acelerado do estado é a ausência de investimentos da União em infraestrutura. Temos duas grandes rodovias federais, dois eixos rodoviários, que são de responsabilidade federal: a BR-101, que está em processo de recuperação, mas muito demorado, e a BR-262, leste-oeste, cuja licitação para obras está em fase de conclusão. Isso precisa andar. Além disso, temos um dos piores aeroportos do Brasil. Em 2004, o presidente Lula deu a ordem de serviço, mas divergências com o Tribunal de Contas da União têm impedido o andamento das obras. Existe um esforço gigantesco para fazê-las caminhar. Em 2010, passaram pelo aeroporto de Vitória quase 2,5 milhões de passageiros. A capacidade atual, com as obras paradas, é de 570 mil passageiros. O volume é quatro, cinco vezes maior do que o aeroporto pode suportar.

CC: Há alguma previsão da retomada das obras?

RC: Esperamos que ela recomece ainda neste ano. Temos mantido contatos permanentes com a Infraero, com o governo. Há outro ponto. Temos o complexo portuário que mais transporta mercadorias, em volume, no País. Mas é um porto público, e sua eficiência depende de novos investimentos federais. Existe o projeto de um novo complexo portuário de cargas gerais. Espero que o governo Dilma nos ajude a resolver os gargalos de infraestrutura. Por fim, entre as pautas velhas, permanece o debate sobre a distribuição dos royalties do pré-sal. Queremos preservar as áreas licitadas e estamos abertos para negociar um sistema de partilha que também faça chegar os ganhos do petróleo a outros estados, desde que preservados os direitos das regiões produtoras.

CC: Seria o modelo enviado pelo presidente Lula ao Congresso.

RC: Exato. Aquele é um modelo negociado com o Espírito Santo e o Rio de Janeiro. É adequado, distribui os ganhos de forma mais igualitária sem destruir o tratamento diferenciado aos estados e municípios produtores, que arcam com os custos sociais da produção. O debate que o Congresso tenta fazer é uma faca em nosso pescoço. Espero que a presidenta Dilma coordene essa votação para que os aspectos locais, os interesses locais, não dominem o debate e o tornem irracional. Acho, inclusive, uma discussão totalmente relacionada ao sistema tributário.

CC: O que o senhor acha possível fazer no caso da reforma tributária?

RC: Em primeiro lugar, simplificar. Depois, tornar o sistema menos regressivo. Quem ganha menos paga proporcionalmente mais. Há ainda a guerra fiscal. Não acho possível acabar com todos os incentivos, mas é factível estabelecer limites.

CC: E reduzir a carga?

RC: Não pode ser linear, não seria justo. Como disse, é possível reduzir a carga para quem ganha menos. Temos de tratar essas questões de forma segmentada.

CC: Qual a sua avaliação sobre o início do governo Dilma?

RC: Estou satisfeito. Ela está sabendo se posicionar, age de forma diferente, mas sem desrespeitar o legado do presidente Lula. Com ações decididas e decisivas em algumas áreas que apontam claramente, com objetividade e que moldam o perfil de seu governo.

CC: O senhor não vê riscos de uma guinada conservadora, na economia, por exemplo?

RC: Era preciso pisar no freio. Em 2009, o governo decidiu, de forma acertada, aumentar os investimentos para combater a crise financeira mundial. Em 2010, último ano de administração, era compreensível que Lula fizesse questão de imprimir suas marcas. Foram dois anos de maior flexibilidade. É natural que esse fosse um ano de ajuste. A presidenta dá todos os sinais de que vai manter o rigor fiscal necessário para governar com tranquilidade.

CC: A comissão da reforma política no Senado deve propor mudanças radicais no sistema. Como o senhor vê as propostas?

RC: Sou a favor do fim da reeleição, por exemplo. Não é uma questão fundamental nem condição para que o sistema político eleitoral brasileiro melhore. Mas tenho simpatia pela proposta. Considero cinco anos de mandato um prazo adequado. Se todos os mandatos, inclusive dos senadores, forem unificados e se as datas das eleições forem as mesmas, teremos um ganho. Eleições de dois em dois anos influencia o comportamento de quem está no governo, nas assembleias, no Congresso. Não tem jeito. Um prazo de cinco anos organizaria o processo político e eleitoral de forma mais proveitosa para o eleitor.

CC: E o fim das coligações em eleições proporcionais?

RC: Meu partido é contra, mas sou a favor. Os partidos iriam se fortalecer. As legendas precisam ter teses, propostas, princípios. Hoje, uma coligação permite a eleição de candidatos que pensam totalmente diferente um do outro. Gosto bastante da proposta do senador Valadares (Antonio Carlos, do PSB) de uma federação dos partidos, algo além das coligações. Ela valeria durante um mandato. E seria possível criar outra nas eleições seguintes. Isso poderia ajudar a consolidar os partidos com base social.

CC: O que o senhor acha do voto distrital?

RC: Sou contra. Já temos hoje uma representação regional. O sistema distrital vai transformar toda eleição em majoritária e vai fazer com que não tenhamos parlamentares temáticos. Um defensor do meio ambiente, por exemplo, não teria oportunidade.

CC: E o voto em lista?

RC: Não está na cultura do povo brasileiro e dos partidos e não é uma pauta usual em muitos países mais desenvolvidos no mundo. Seria preciso arrumar uma forma de ter financiamento público de campanha e voto nominal.

CC: O quanto o projeto Eduardo Campos em 2014 está na pauta do PSB?

RC: O PSB tem condições de lançar candidatos em 2014, como tinha em 2010. Temos o próprio Eduardo, o Ciro Gomes. Não é nossa prioridade, mas se a conjuntura nos impuser essa necessidade... Todos os partidos buscam ter lideranças para disputar a Presidência da República. Sabemos que se a presidenta Dilma fizer um governo de regular para bom ela terá legitimidade para pleitear a reeleição. Estamos no governo. Não trabalhamos para lançar uma candidatura em 2014. Mas se for necessário...

CC: E uma aliança com o Aécio Neves?

RC: É cedo para dizer. Temos uma boa relação com ele. Estivemos juntos na eleição do Márcio Lacerda a prefeito de Belo Horizonte. Participamos do governo dele em Minas Gerais e estamos na administração Anastasia. Mas nossa aliança nacional é com os partidos da base de sustentação do governo Dilma.

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