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Política

Entrevista - Beto Albuquerque

O PSB foi constrangido pelo Planalto, diz deputado

por Ricardo Rossetto — publicado 18/09/2013 18h40
Líder do partido na Câmara diz que a candidatura de Eduardo Campos pode agora ser discutida de forma “livre” e promete não fazer oposição por oposição
Agência Câmara
Beto Albuquerque

O líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque

Líder do PSB na Câmara, o deputado Beto Albuquerque (PSB) atribui o rompimento com o Planalto, do qual era aliado desde o governo Lula, à falta de diálogo com a administração petista e ao constrangimento em debater a candidatura do governador Eduardo Campos (PSB-PE) à Presidência da República enquanto integrava a Esplanada dos Ministérios. “Não há outra alternativa a não ser essa. Só pensamos em tornar viável a decisão da candidatura do Eduardo”, diz. Sem citar a presidenta Dilma Rousseff, ele afirma que a legenda não tinha espaço para participar das decisões do governo, condicionadas, segundo ele, à manutenção de cargos, e sofreu um “movimento para estigmatizar o PSB como um partido fisiológico”. Segundo ele, os antigos aliados possuem hoje divergências de propostas e ações, mas evita cravar que, a partir de agora, atuará como oposição ao governo. “O PSB não fará parte do grupo que torce contra o governo, para as coisas não darem certo. ”Abaixo, os principais trechos da entrevista:

 

CartaCapital - O que levou o partido a tomar a decisão de deixar a base do governo?

Beto Albuquerque – De forma franca, aberta, uma discussão interna da possibilidade de a gente ter candidato à Presidência da República. Não estamos agindo sem a transparência devida. E aí começaram a vir uma série de emissários do Planalto e da presidenta fazendo cobranças em relação a cargos do governo, e era essa discussão que o PSB estava fazendo, gerando constrangimentos ao partido, aos nossos ministros. E isso chegou a um limite da “insuportabilidade”. Primeiro, não é democrático querer que um partido não possa pensar no seu futuro de forma livre. E, segundo, porque esse debate de fato não existe. Nós tomamos uma decisão. Primeiro: é verdade que estamos discutindo a candidatura do Eduardo Campos e vamos discutir isso de forma livre, sem o convívio com esse tipo de diálogo desrespeitoso que nós vínhamos tendo recentemente. Então, sair do governo, entregar os ministérios, é dar independência ao PSB, de forma soberana, para definir o momento exato de ter ou não um candidato. E ao mesmo tempo é a forma que nós temos de discutir as questões que interessam ao País: como o desenvolvimento econômico, do crescimento econômico, da inflação, no aumento da participação da União no financiamento da Saúde. Nós não tivemos oportunidade de fazer essa discussão dentro do governo. Temos divergências políticas sobre esses assuntos, de segurança, de educação, e agora vamos ter mais liberdade para tomar todo tipo de decisão.

CC - Quem perde mais com a saída do partido da base governista: o PSB ou o PT?

BA - Não se trata de perdas e ganhos. Trata-se da afirmação do PSB na sua escolha, e o partido ganhará segurança e liberdade política. Não tem havido debate político no Brasil de alto nível sobre as coisas que acontecem no País. A China comunista fez mudanças no governo, readequou seu novo momento econômico. Na Europa, 12 governos caíram, foram alterados, e no Brasil não se consegue fazer uma discussão séria sobre o momento que vivemos.

CC – Esse anúncio indica que Eduardo Campos disputará a presidência em 2014?

BA – É um passo adiante que estamos dando, uma decisão importante para dentro também, junto à sociedade brasileira, de um partido que tem história, tem 60 anos, cresceu nas últimas eleições, em 2010 e em 2012 e tem legitimidade pra ser protagonista. Estranho é quem não consegue enxergar legitimidade em um partido que esteve, desde 1989, com todas as iniciativas e protagonismos eleitorais.

CC - Qual será o posicionamento do PSB no Congresso Nacional a partir de agora? Oposição, situação ou neutro?

BA - Nunca fomos um partido irresponsável que votava contra tudo, temos responsabilidade com o país, compromisso com a responsabilidade fiscal, as matérias boas do governo terão nosso apoio, seguramente. O PSB não fará parte do grupo que torce contra o governo, para as coisas não darem certo. Não estamos nesse time. As matérias que chegarem aqui do governo e que dialoguem com o que acreditamos, terá a sensibilidade dos deputados e senadores do partido.

CC - O que diferencia o PT e o PSB, hoje, em termos programáticos?

BA – O diálogo que precisa ser mais forte e mais amplo com a sociedade, com as forças políticas, se ampliar ao novo momento político do País desde as manifestações de junho. O quadro para 2014 será totalmente diferente daquele já vivido. A sociedade quer resultados, não conversa. Quer entrega e não discurso e análise. Se há um descontentamento da sociedade já discutido sobre saúde, ela não quer mais diagnóstico, quer apresentações concretas de medidas de financiamento e de gestão, pra melhorar esse assunto em todo o âmbito do País. Na economia, isso não é diferente, todos veem números preocupantes, e há um certo desânimo. Temos que fazer essa discussão e a diferença está na abordagem desses assuntos.

CC - As rusgas com o PT na disputa das prefeituras de Recife e Fortaleza no ano passado contribuíram para o partido tomar essa decisão?

BA - O embate em várias prefeituras não é um elemento definidor sobre isso que estamos pensando para 2014. Ao contrário, ganhamos os confrontos diretos, mas isso é da luta. Sentíamos falta de diálogo mais direto dentro do governo.

CC – Qual será a estratégia do partido no caso de a candidatura do Eduardo Campos não se confirmar?

BA – Não há outra alternativa a não ser essa. Só pensamos em tornar viável a decisão da candidatura do Eduardo. Construir as condições para que ele, em mais alguns meses, possa tomar uma decisão mais segura. Política não é lugar de aventuras, tem que correr riscos. Isso é fundamental.

CC Vocês esperam que os indicados pelo PT deixem os cargos nas administrações do PSB?

BA – Não vamos pedir os cargos. Quem cobrou do PSB a saída do governo para discutir deveria ser coerente. Não vamos pedir a saída de ninguém. Nossa independência permitirá fazer um debate interno melhor, traçar um caminho futuro com mais tranquilidade. Queremos discutir a economia brasileira desde o ano passado, mas não conseguimos, porque a resposta do governo era a mesma que virou uma toada única: a ideologia vigente é, estando no governo e ocupando cargos, não tem que ter projetos, não tem que ter ideias, não pode dar opinião. Havia um movimento de estigmatizar o PSB como um partido com algum nível de fisiologismo, oportunismo. Continuamos coerentes com a nossa proposta.