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O papel da elite gaúcha

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 16/10/2009 14h50, última modificação 08/09/2010 14h52
O enredo da sucessão gaúcha está dando de dez a zero nos novelistas da Globo.

O enredo da sucessão gaúcha está dando de dez a zero nos novelistas da Globo. Tem de tudo. Os episódios vão do trágico ao cômico com grande facilidade. No final de semana do feriadão, por exemplo, a governadora embarcou em Porto Alegre para uma viagem a Washington, onde iria obter a liberação de uma nova parcela do empréstimo de 1,2 bilhão de dólares que fez junto ao BIRD. Na escala em São Paulo, onde deveria reunir com o alto tucanato nacional, Yeda nem reuniu, nem seguiu viagem. Voltou ao Rio Grande do Sul. Chegando em Porto Alegre, saiu dando declarações e insinuando que desistira da viagem porque estaria sendo armado um golpe para derrubá-la.

Conforme analistas políticos da direita gaúcha, os arquitetos do golpe seriam nada mais nada menos que seu vice-governador, Paulo Feijó (DEM), o Ministério Público Federal e até o presidente da Assembléia Legislativa do Estado. Ou seja, o Rio Grande do Sul estaria mais ou menos no nível de amadurecimento democrático de Honduras, onde o presidente Manuel Zelaya foi preso e deposto num golpe dado sob o manto do judiciário hondurenho. Com uma diferença. No RS, o judiciário e o DEM estariam mancomunados (pasmem) com a esquerda gaúcha... Loucura total.

Ninguém investigou se Yeda de fato conseguiria liberar os recursos em Washington, nem os motivos pelos quais o tucanato paulista não quis recebê-la no feriado. A imprensa gaúcha preferiu tratar das pautas ofertadas pela consultoria de comunicação e gestão de crise contratada para cuidar da imagem da governadora. Ou seja, depois de derrotar a oposição na Assembleia, passou a atacar o vice governador, Paulo Feijó, que promete depor na CPI da corrupção no próximo dia 26.

Tendo começado assim, a semana terminou com a governadora sendo excluída pelo Tribunal Regional Federal de uma ação de improbidade administrativa proposta pelo Ministério Público Federal. Os jornais deram destaque à exclusão. Nas letras miúdas, contudo, a decisão pode tornar ainda mais difícil a situação da governadora. O TRF entendeu que Yeda é agente político e não deve responder por improbidade administrativa mas sim por crime de responsabilidade. Ou seja, Yeda Crusius deverá ser julgada pelo Superior Tribunal de Justiça ou pela Assembléia Legislativa.

A comemoração da base yedista se deu por conta da maioria que possui na parlamento gaúcho e da blindagem que faz à governadora. O pedido de impeachment apresentado por doze entidades do funcionalismo público estadual foi negado sem sequer ouvir as acusações. A maioria governista patrolou a oposição e enterrou o processo no nascedouro. Com a decisão da exclusão da Yeda do processo de improbidade administrativa, o próximo passo da base yedista deverá ser enterrar a CPI instalada - mas também travada - na Assembleia do Estado.

Elementos de sanidade
O Rio Grande do Sul sempre se distinguiu no Brasil por suas características "mais européias". De fato, quase todos os índices gaúchos antes do governo Lula eram melhores que a média nacional. Distribuição de renda, produtividade, IDH, educação, saúde etc. Até em termos de ética os gaúchos ostentavam índices melhores que os demais estados do país. Porém, nos últimos anos, no pampa gaúcho, tudo o que era sólido se desmanchou no ar.

Com a crise instalada, a política gaúcha vem sendo dominada pela construção de factóides. A imprensa no Estado, toda ela a serviço de tudo o que seja, ou mesmo simplesmente aparente ser, anti-Lula, contribui com a desinformação. A cobertura fragmentada dos acontecimentos, a ausência de lógica no noticiário, colabora para o ambiente do vale tudo na política. Com isso, também, a cada dia mais o Rio Grande do Sul está enlouquecendo.

Em meio a esse hospício, alguns elementos de sanidade parecem emergir junto com as mudanças implementadas no país pelo governo federal. A antiga polarização entre esquerda e direita no Rio Grande do Sul está aos poucos tornando-se passado. O PT, que pontificava à esquerda, vem se dirigindo ao centro. O PMDB, que há quatro perfilou-se ao lado da direita, também. Enquanto Yeda Crusius, como representante da direita gaúcha mais radical incinera-se na chama crioula, PT e/ou PMDB emergem na cena como alternativas de sanidade e recuperação do Estado.

No PT, a candidatura do ministro Tarso Genro ao governo já está definida. Tarso vem superando aos poucos os obstáculos que tem em seu caminho. Já conseguiu unificar o seu partido, mas ainda está longe de ter resolvido outros problemas, como as alianças e o projeto de futuro. No PMDB, o ex-governador, Germano Rigotto, e o atual prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, disputam o posto de candidato. Com o partido dividido entre uma ala pró-Serra e outra pró-Dilma, o prócer do partido, senador Pedro Simon, vem sendo obrigado a fazer malabarismos para manter a unidade. Decidindo ainda este ano por Rigotto ou ano que vem por Fogaça, o PMDB de Simon colocou-se a tarefa de impor uma última derrota ao PT de Tarso Genro.

Tudo ainda pode mudar
Se hoje o mais provável é termos duas alternativas maduras de governo para resolver a crise do Estado em 2010, isso não significa que estes elementos de sanidade não possam sucumbir nos próximos meses. Há quatro anos tudo parecia caminhar para uma eleição entre Olívio e Rigotto. Acabou Yeda Crusius ganhando a eleição. Em torno a estas duas alternativas - um PT de centro-esquerda e um PMDB de centro-direita - gravitam alternativas para todos os gostos. O difícil é saber o que fará o eleitor gaúcho em 2010. Se vai perseguir uma alternativa testada e aprovada, ou jogar suas fichas novamente no novo.

Que viver, verá.