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O Nordeste cidadão

por Emiliano José — publicado 09/04/2008 15h56, última modificação 02/09/2010 16h06
Não sei se o Nordeste voltará como questão à pauta nacional, tão empobrecida pela orientação da nossa grande mídia, sempre pronta apenas e tão-somente a encontrar ganchos destinados a desestabilizar Lula – e quanto mais ela bate, quanto mais cartões corporativos, e quanto mais o presidente-operário, que ela nunca aceitou nem vai aceitar, cresce e cresce no gosto popular.

Não sei se o Nordeste voltará como questão à pauta nacional, tão empobrecida pela orientação da nossa grande mídia, sempre pronta apenas e tão-somente a encontrar ganchos destinados a desestabilizar Lula – e quanto mais ela bate, quanto mais cartões corporativos, e quanto mais o presidente-operário, que ela nunca aceitou nem vai aceitar, cresce e cresce no gosto popular. Coisas da vida, da vida-cidadã, que também, para felicidade geral da Nação, tem crescido como nunca.

O Nordeste foi tema por décadas. Havia uma questão nordestina. Dela se ocuparam tantos, entre os quais pode-se destacar, por justiça, um Celso Furtado que foi não somente um estudioso da região, como o principal formulador e executor da primeira Sudene. Ou um Francisco de Oliveira, com sua crítica à razão dualista. Não é novidade a existência de uma questão regional em variados países. Basta lembrar a Itália, que encontrou em Antonio Gramsci o grande intérprete da chamada lá Questão Meridional, a cuja análise ele se dedicou com profundidade.

Será que a questão do Nordeste desapareceu? Não creio. E mais: penso que deva ser pauta do País. Mas defendo que ela deverá ser, por obviedade, repensada. Não pode ser mais posta nos termos anteriores. Discutia-se, então, no final dos anos 50, início dos 60, o problema da desigualdade regional e apontava-se uma saída industrializante. A indústria era a saída. Lembro-me do afinco de um Rômulo Almeida em favor da industrialização da Bahia, contra a idéia da perpetuação do arado com burro, como costumava ironizar.

A indústria chegou ao Nordeste – que ninguém negue mais isso. Evidentemente, não chegou, nem poderia, como havia chegado a São Paulo. A Petrobrás na Bahia, nos anos 50, foi o elemento detonador desse processo, que se acelerou nos anos 60 e ganhou consistência com a implantação do Pólo Petroquímico de Camaçari.

Os economistas dizem que a Bahia se especializou em bens intermediários e não foi muito adiante. E será que poderia, para ficar apenas nessa ótica da industrialização, ir muito além disso? Sob alguns aspectos, sim, mas de modo limitado até pela força do parque industrial do Sul. E este é um Brasil integrado economicamente, embora, lembre-se sempre, o desenvolvimento, como característica do capitalismo nessas plagas, se dá de modo desigual e combinado.

Vou e volto. Há uma questão nordestina? Ouvindo a notável economista pernambucana Tânia Bacelar falar nos últimos dias, numa conferência em São Paulo, pude perceber que há mais do que a questão nordestina: há a questão do Nordeste, de parte do Centro-Oeste e do Norte. Nessas regiões é que se encontram os menores índices de IDH do Brasil. Há carências profundas em educação, saúde, saneamento, não há condições aceitáveis de vida na maior parte delas. Isso, no entanto, não autorizaria a dizer que não há mais uma questão nordestina.

Seguramente, qualquer discussão hoje sobre o desenvolvimento da região deverá levar em conta não apenas aquela visão anterior – que concentrava todo o esforço na industrialização, e esta era entendida como a implantação de unidades modernas, com grande concentração de capital. O Nordeste, se puder ser pensado como uma unidade, terá que levar em conta necessariamente a economia dos pequenos produtores, das médias empresas, da agricultura familiar. Pensar como combinar tudo isso com a grande propriedade empresarial do campo, com a grande empresa industrial das grandes cidades. Pensar o destino do campo e pensar o das grandes cidades, já uma realidade nordestina.

O Nordeste, sempre repito isso para lembrar o grande Graciliano Ramos e seu Vidas Secas, continua a ser o retirante em busca do Eldorado paulista, é Sinhá Vitória, Fabiano, a cadela Baleia. É a odisséia melancólica de Triste Partida. Para entendê-lo pode-se buscar inspiração em Patativa de Assaré, em Luiz Gonzaga, em sua Asa Branca. Mas já mudou, e muito. E para repensá-lo é necessário captar o movimento dessas mudanças. Até um parque de serviços modernos já pode ser localizado na região. O Brasil é um país integrado, insista-se.

E mais: mudou o homem, a mulher nordestina. É bom que se esqueça aquele ser apático, submetido ao coronel, ao político aproveitador, cultivador de currais seguros pelo caminho dos pequenos favores em época de eleições. Não é que isso tenha desaparecido. Temos ainda muito chão pela frente para completar a revolução cultural que começou. Mas, a rigor, a rigor, acabaram-se os grotões nordestinos.

As políticas públicas do governo Lula inegavelmente tiveram um efeito libertador, que ninguém se iluda quanto a isso. E as últimas eleições foram uma evidência disso – não adiantou o partido da mídia dedicar-se tanto a Alckmin. Perdeu tempo. E o Nordeste foi fundamental para garantir o segundo mandato de Lula. Quaisquer tentativas de manipulação do povo nordestino atualmente estão fadadas ao fracasso. Há uma cidadania ativa, muita organização popular a sustentar essa revolução cultural em andamento.

E isso significa que qualquer proposta de desenvolvimento para a região, qualquer discussão que pretenda indicar novos rumos nordestinos, deve necessariamente levar em conta a dimensão da participação popular, a cidadania ativa ali presente. Não dá para reduzir o debate aos gabinetes. É preciso ir aonde o povo está.

Buscar suas energias. Encontrar e ouvir a população organizada, que é grande. Nessa nova cidadania nordestina, entre os habitantes das cidades e os sertanejos calejados dos campos estão as fontes de energia que poderão contribuir decisivamente para a formulação de um projeto de desenvolvimento que combine crescimento econômico e distribuição de renda.