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O mundo precisa de mais Sergios

por Eduarda Hamann — publicado 19/08/2013 10h27
No aniversário de dez anos da morte de Sergio Vieira de Mello, é preciso entender por que há tão poucos brasileiros nas missões da ONU. Por Eduarda Hamann
Eskinder Debebe / UN Photo
Sergio Vieira de Mello

Sergio Vieira de Mello em fevereiro de 2003, em reunião do Conselho de Segurança da ONU

Em 19 de agosto de 2003, a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Brasil perderam Sergio Vieira de Mello, o brasileiro que chegou mais alto na estrutura da ONU. Sua carreira foi encerrada de forma trágica, em um atentado em Bagdá, que também tirou a vida de outros 21 funcionários.

Sergio era conhecido e admirado por sua coragem, simpatia, astúcia política, respeito aos mais fracos e capacidade de negociação. Ele personificava características associadas por muitos ao Brasil, enquanto ator político internacional. Considerando a projeção de sua carreira e sua reputação, especulava-se que poderia ser o próximo secretário-geral da ONU. Dada a importância de cidadãos como ele para a nossa política externa, por que há tão poucos brasileiros nas missões da ONU?

O Brasil tem demonstrado interesse em ser reconhecido não apenas como líder regional, mas também como um relevante ator global. Esta postura encontra respaldo na expectativa de vários países em relação ao papel que o país pode desempenhar no mundo. Em sua atuação externa, o Brasil advoga a maior participação de nações em desenvolvimento no gerenciamento da ordem internacional, apresentando-se como candidato a representar os países do Sul. Neste sentido, tem feito um grande esforço para abrir embaixadas, perdoar dívidas, diversificar seu comércio e fazer reverberar a voz dos que não são ouvidos.

Muitos Estados do Norte desejam cada vez mais dividir com potências emergentes – África do Sul, Brasil, Índia e Turquia, por exemplo – os custos, riscos e desafios políticos, financeiros e de segurança mundiais. Países em desenvolvimento têm a percepção de que os emergentes são potenciais representantes de suas demandas em foros globais. Esse alinhamento político ajuda o Brasil a avançar na caminhada, mas como materializar o discurso e tornar o avanço sustentável?

A participação em missões de paz e políticas da ONU é um espaço cada vez mais legítimo de engajamento em atividades globais complexas que exigem investimentos políticos, financeiros e de pessoal. Até 2004, os militares brasileiros em missões de paz da ONU não chegavam a 80. Naquele ano, com a criação da missão no Haiti e o interesse em contribuir com tropas, superou-se a barreira dos 1.200. Após o terremoto de 2010, o número ultrapassou os 2 mil – o que corresponde a apenas 2,5% das tropas da ONU.

A quantidade de policiais brasileiros nas missões de paz também é inexpressiva e equivale a 0,9% do total. Os civis nacionais, por sua vez, correspondem a menos de 0,5%. Há apenas 34 brasileiros entre os cerca de oito mil funcionários civis das missões – poucos, em comparação à África do Sul (63) e à Índia (232), por exemplo. Se estivesse vivo, seria somente o 35º civil brasileiro das missões de paz da ONU.

É fundamental entender que a atuação de funcionários civis é cada vez mais importante para a solução duradoura de conflitos contemporâneos. Para ser sustentável, a paz precisa de soldados e também de professores, médicos, juízes, economistas, engenheiros e administradores. Assim, a estratégia de inserção do Brasil por meio das missões de paz deve dar mais atenção à identificação, ao preparo e ao envio de civis para o terreno.

Não faltam credenciais à nova geração para ampliar e consolidar nossa recente ascensão no mundo: são jovens com visão cosmopolita, ávidos por contribuir para os direcionamentos gerais dos bens públicos globais. Alguns deles escolherão o serviço público e, por meio de suas carreiras, virão a trabalhar em alguma missão da ONU.

Outros, porém, ainda que não venham a representar o país – Sergio nunca falou em nome do governo brasileiro –, poderiam levar às missões um pouco de brasilidade e da experiência doméstica, contribuindo para capilarizar a influência do país no mundo.

Para tanto, é preciso promover a maior exposição da juventude brasileira aos problemas internacionais, algo que pode estimular o surgimento, tão desejável, de novos Sergios.

*Eduarda Hamann é coordenadora do Programa de Cooperação Internacional do Instituto Igarapé.

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