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O ministro no alvo

por André Siqueira e Sergio Lirio — publicado 31/03/2011 09h33, última modificação 01/04/2011 14h59
Dispostos a liquidar a continuidade da política econômica e restabelecer a ortodoxia, os mercados fiam-se em Palocci para investir contra Mantega.
O Ministro no Alvo

Dispostos a restabelecer a ortodoxia e acabar com a continuidade, os mercados fiam-se em Palocci para investir contra Mantega. Por André Siqueira e Sergio Lirio. Foto: Celso Junior/AE

Matéria de capa da Edição 639, que foi às bancas no dia 25/3.

Guido Mantega considerava que o pior havia passado. A entrevista da presidenta Dilma Rousseff ao jornal Valor e as sucessivas mensagens do Palácio do Planalto de apoio à política econômica fizeram brotar no ministro da Fazenda a sensação de que a campanha do mercado financeiro a favor de sua demissão pode até ser estimulada, senão tramada, entre as divisórias do espaçoso gabinete do chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, mas de lá nunca passou. As pressões, de fato, haviam diminuído consideravelmente.

Mas eis que um lance fortuito recolocou Mantega na linha de tiro. Na segunda-feira 21, uma reunião do ministro com o presidente do conselho do Bradesco, Lázaro Brandão, vazou à imprensa. No encontro, Mantega teria solicitado a substituição de Roger Agnelli na presidência da Vale, empresa de capital misto, mas que tem entre seus principais acionistas o BNDESpar e os fundos de pensão de estatais. Ainda que até os homens-sanduíches prostrados nas imediações da Bolsa de Valores de São Paulo conheçam a insatisfação do governo com a gestão de Agnelli, o vazamento deu nova munição aos críticos de Mantega e à oposição ávida por temas para confrontar o Palácio. Líderes oposicionistas como Aécio Neves e José Serra criticaram o intervencionismo estatal na mineradora privatizada em 1997. Duas comissões do Congresso, a de Fiscalização e Controle da Câmara e a de Assuntos Econômicos do Senado, querem convocar o ministro a dar explicações. Um movimento de defesa da permanência de Agnelli, cuja espontaneidade não está totalmente clara, ganhou corpo na Vale. Além de um abaixo-assinado, funcionários da empresa anunciavam a intenção de trabalhar com roupas pretas numa espécie de luto pelo afastamento do executivo que comanda a mineradora há uma década. E falou-se na possibilidade de um pedido de demissão conjunta da diretoria.

Ao longo da semana, circularam diversas versões sobre o encontro entre Mantega e Brandão. Em círculos petistas, vigorava a tese de que o ministro teria tratado com a pessoa errada no Bradesco. Brandão apoiaria Agnelli, que não contaria com a simpatia do presidente do banco, Antonio Carlos Trabuco. Por esse motivo, o teor da reunião teria chegado aos ouvidos de aliados do executivo da Vale e em seguida aos jornais. Gente ligada à Fazenda contava outra história. Quem teria solicitado a conversa teria sido Brandão, ansioso por uma definição rápida de um assunto que desgasta a imagem da companhia há meses. Instruído pelo Planalto, Mantega recebeu o banqueiro em seu escritório em São Paulo e iniciou as negociações. Um acordo teria sido selado com o Bradesco: o substituto seria alguém da própria mineradora. Na quinta 24, após a especulação de ao menos meia dúzia de sucessores, todos executivos com passagens por grandes empresas e sem ligação com o governo, ventilava-se o nome de Tito Botelho, atual diretor-presidente da Inco, subsidiária da Vale no Canadá.

A série de queixas do governo, acumuladas desde o tempo em que Dilma comandava a Casa Civil e os principais investimentos públicos, é conhecida. Apesar de ter negociado os reajustes de preços do minério que possibilitaram lucros recordes nos últimos anos, Agnelli, na visão de Brasília, é personalista em excesso, usa as estruturas mais para promover a si mesmo do que à companhia, e não compartilha a ideia de que a Vale, por sua dimensão e papel estratégico, não pode pensar apenas em maximizar o lucro dos acionistas. Integrantes da Esplanada sempre citam a opção do executivo por encomendar navios na Ásia em vez de comprá-los de estaleiros brasileiros. A recuperação da indústria naval, agonizante na era FHC, é um dos grandes orgulhos de Lula. Agnelli justificou com o argumento de que o setor nacional, ainda em reconstrução e abarrotado por encomendas da Petrobras, não estava preparado para atender à demanda da mineradora no prazo exigido e a preços competitivos. O presidente da Vale tem dito a interlocutores esperar uma decisão rápida, mas gostaria de negociar uma transição mais lenta, de forma a não atrapalhar os atuais planos da empresa.

Não se sabe por quanto tempo o assunto interessará à oposição, que tem sido estimulada pelo próprio Agnelli, mais próximo do PSDB desde o início da disputa pessoal com os petistas. Mas os piores adversários de Mantega não se encontram no Congresso. Embora as expressões públicas de beatitude de Antonio Palocci – e seu silêncio jesuíta – possam comover até o papa Bento XVI, um manancial de intrigas parece jorrar sistematicamente da Casa Civil. Palocci, sabe-se, é uma espécie de ouvidor das butiques bancárias. O problema é que, em vez de acalmar os aflitos, ele semeia dúvidas e ceva os preconceitos. E tem o hábito de se apresentar como fiador de uma estabilidade que não depende dele. Suas movimentações -nada discretas acabaram por chamar a atenção do Planalto. Na terça 22, em entrevista ao portal IG, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, não poderia ter sido mais explícito: “O Palocci é suficientemente inteligente para não entrar em nenhuma disputa. Ele sabe que, cada vez que entrar em uma disputa, perde autoridade”.

É uma situação peculiar. Economista, professor da Fundação Getulio Vargas, Mantega sofre resistências nas finanças pelo simples fato de pensar de forma autônoma e em sentido contrário. Hoje é chamado de “gastador”, em decorrência das medidas anticíclicas que possibilitaram à economia brasileira recuperar em tempo recorde as perdas do estouro da bolha norte-americana no fim de 2008, início de 2009. Trata-se do mesmo ministro que manteve os superávits primários nos dois anos anteriores e que agora comanda o ajuste necessário das contas públicas. O mercado, “técnico”, preferiria ver na Fazenda o médico sanitarista que exibe um fervor ortodoxo típico dos neófitos, dos recém-convertidos. Cabeças mais inteligentes do setor financeiro talvez pudessem se perguntar se, após o desastre de 2008, não teria ficado claro que meros fantoches acabam por se tornar um risco ao próprio sistema e a seus lucros.

Fontes do Palácio garantem que Dilma Rousseff tem sido sincera ao defender o ministro da Fazenda e está convicta de que a guerra das expectativas em torno da inflação será vencida quando os índices começarem a mostrar claramente o recuo na alta de preços, o que deve ocorrer a partir do meio do ano. A presidenta, não se pode esquecer, integra a ala desenvolvimentista que dominou o segundo mandato de Lula e que hoje predomina no governo. Para esse grupo, o Brasil só conseguiu crescer e gerar empregos e renda após a inflexão “desenvolvimentista” a partir de 2006. A mudança de rumo coincide justamente com a queda de Palocci na esteira do escândalo da quebra do sigilo do caseiro Francenildo e a nomeação de Mantega. A mesma turma vê com ressalvas o novo ciclo de aperto monetário e alta dos juros, atribuída ao retorno de Palocci.

O apoio ao ministro da Fazenda não significa que Dilma o isente de críticas. A presidenta teria ficado especialmente irritada quando Mantega, durante a entrevista coletiva na qual foi anunciado o corte de 50 bilhões de reais, declarou que a inflação não preocupava o governo. A entrevista ao Valor, entre outros motivos, visava corrigir esse erro. Dilma acha ainda, segundo um assessor próximo, que o ministro não compreendeu seu estilo de decidir, baseado na preferência por encontros individuais e objetivos com subordinados em vez de extensas reuniões coletivas, convocadas apenas para dirimir divergências extremas. Na área econômica, seus principais interlocutores, além do titular da Fazenda, são o secretário Nelson Barbosa, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, e, claro, Palocci. Segundo uma fonte do Planalto, Mantega se incomoda quando os encontros não o envolvem.

O mercado alimenta-se e retroalimenta dessas intrigas. Dispostos a garantir a supremacia dos “falcões” sobre os “pombos” da política monetária, departamentos de economia dos bancos e analistas influentes reforçam o pessimismo quanto ao futuro. Mesmo assim, ante um cenário nebuloso, não existe um consenso monolítico. Na verdade, as análises do setor financeiro nunca aparentaram tantas divergências. No boletim Focus, levantamento do Banco Central que reúne as projeções de economistas de bancos, as mais recentes expectativas de crescimento do PIB vão de 3% a mais de 6%, diferença que aumentou desde o fim do ano passado. Quanto à inflação, o intervalo entre as apostas é um pouco menor: de 5% a quase 7%.

Isso não significa que Brasília deva ignorar os riscos de descontrole dos preços em favor da expansão da economia. “Se eu estivesse no governo, estaria preocupado, porque a inflação ficou acima do centro da meta no ano passado, e repetir isso acende o sinal amarelo”, diz o coordenador do IPC-Fipe, Evaldo Comune. “Não adianta, segurar a inflação exige segurar o crescimento. Mas acredito que uma alta de 4% no PIB em 2011 seria de bom tamanho para conter os preços e garantir investimentos que não há como deixar de fazer, como a reforma da infraestrutura e as obras para os grandes eventos esportivos.”

Segundo Comune, o índice da Fipe, medido na cidade de São Paulo, fechou em 6,4% em 2010, acima, portanto, do IPCA, indicador adotado oficialmente pelo governo federal, que registrou 5,91%. O especialista lembra, porém, que o índice foi influenciado por fatores locais, entre eles o reajuste acumulado das passagens de ônibus e do IPTU. Excluídos tais aumentos, tanto o IPC quanto o IPCA tiveram comportamento bastante próximo, e influenciado pelas altas de alimentos (só a carne subiu 34% no ano) e os combustíveis (em especial, o etanol).

Com relação a 2011, o coordenador do IPC alerta para o risco de as estiagens prejudicarem novamente a produção de itens agrícolas e de o choque internacional das commodities afetar, finalmente, o preço da gasolina, contido por uma política de não repasse da Petrobras. “Se o barril do petróleo ultrapassar os 130 dólares, será difícil segurar a alta dos derivados.” Preços administrados, como as tarifas de energia elétrica, prossegue o especialista, tiveram repasses represados nos últimos anos, o que pode representar surpresas negativas neste ano. Comune lembra ainda os custos de habitação, com a alta de preços dos imóveis no último ano e a indexação dos contratos de aluguel ao IGPM, índice fortemente ligado ao atacado e que acumulou aumento de 11,32% em 2010.

O setor de serviços, por sua vez, depois de pressionar a média da inflação não deverá mais ser uma fonte de preocupação, segundo o pesquisador. “Se a renda e o emprego estão em alta, o prestador de serviços tende a repassar, arredondando para cima as elevações de preço que percebe no supermercado. Mas o reajuste do salário mínimo neste ano (sem ganho real) já deu o recado de que o espaço para isso será reduzido.” Feitas as ponderações, o coordenador do IPC-Fipe prevê que a inflação em São Paulo vai ficar entre 5% e 6% até o fim de 2011.

A análise de Comune é semelhante à de Paulo Pichetti, coordenador do IPC-S (Índice de Preços ao Consumidor Semanal, medido pela Fundação Getulio Vargas). “A alta de preços não deverá ser tão grande quanto o mercado prevê. Mas isso não chega a servir de consolo se o nível já está elevado.” O especialista da FGV diverge, no entanto, ao se referir ao risco de propagação da inflação no setor de serviços. “A demanda continua elevada e há uma percepção de que a inflação voltou a ser um problema, o que torna os preços mais suscetíveis aos choques de oferta. Os prestadores de serviços começam a tentar repassar até mesmo oscilações normais, como a dos preços de hortaliças e legumes.”

Pichetti acredita que o mercado tem encontrado dificuldades para fazer suas projeções diante de uma conjuntura internacional indefinida, o que leva a reações exageradas aos sinais de curto prazo. “Nem o mercado nem o BC têm hoje motivos confiáveis para apostar se é necessário elevar demais os juros ou se é possível controlar a inflação apenas com medidas macroprudenciais. Não acho que seja necessário derrubar a atividade econômica. Mas não dá para ignorar os sinais de aquecimento excessivo.”

As divergências de expectativas não ocorrem apenas no mundo financeiro. A Federação do Comercio de São Paulo revisou suas projeções para níveis próximos das previsões mais sombrias do mercado financeiro. “Alertamos os empresários para que não se criem expectativas de que 2011 será igual ou melhor do que 2010”, afirma o diretor-executivo da Fecomercio-SP, Antônio Carlos Borges. A entidade trabalha com um cenário de apenas 3% de expansão do PIB e inflação entre 6% e 7%. O pessimismo tem entre suas bases a pesquisa de intenção de consumo, que pelo terceiro mês consecutivo indica menor propensão às compras. “Temos uma resistência à queda de preços que se deve também a pressões externas, o que torna extremamente difícil trazer o índice de volta à meta.”

Na área industrial, medir a temperatura dos negócios é ainda mais difícil, segundo o gerente-executivo de política econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco. “O ritmo é bem mais moderado- do que no ano passado, numa mudança de ciclo que percebemos já no segundo semestre”, afirma. “Há um descasamento entre o consumo doméstico e a produção industrial, por conta das importações, usadas para suprir o crescimento da demanda.”

Castelo Branco explica que as pressões por repasses de preços ocorrem apenas nos segmentos que sofrem menos com a concorrência externa, como alimentos, bebidas, farmacêuticos e, até certo ponto, materiais de construção. “A elevação na taxa de juros tem efeito negativo tanto para quem eleva preços quanto para os setores desaquecidos, ou que têm dificuldade para brigar com as importações.”

A CNI ainda não concluiu a última revisão de suas previsões econômicas. A expectativa de crescimento do PIB, que havia caído de 5% para 4,5%, provavelmente ficará ainda menor. Quanto à inflação, Castelo Branco acredita em uma queda dos níveis atuais até o fim do ano, mas à custa de uma boa dose de desaceleração da atividade econômica. “Como a inflação espraiou-se para os custos domésticos e os salários, o cenário de queda pode não ser tão rápido. E quanto mais tempo a inflação permanecer em patamares elevados, pior será o ajuste.”

O grupo desenvolvimentista do governo, Mantega à frente, acredita que, passados os choques do primeiro semestre, os preços tendem a refluir. Em meados do ano, os índices acumulados em 12 meses ainda serão altos, num efeito meramente estatístico por conta dos níveis próximos a zero registrados no ano passado. Mas os reajustes correntes terão perdido o fôlego. Além disso, grande parte da alta é atribuída aos problemas da economia mundial, que não podem ser combatidos adequadamente com o aumento dos juros domésticos. O argumento é justificado com o fato de que a maioria dos paí-ses que adotaram o regime de metas de inflação tem convivido nos últimos meses com índices fora da curva. O Brasil, nessa plêiade de nações, tem até apresentado oscilações de preços mais suaves.

O que preocupa essa turma é outro ponto, a valorização do real. Desde o ano passado, a moeda brasileira valorizou 32% em relação ao dólar e 28% na comparação com uma cesta de 15 outras. A capacidade de competição da indústria e das exportações está cada vez mais comprometida, embora o aumento dos preços de produtos básicos como minério e soja no mercado internacional mascare os efeitos nocivos do câmbio. Projeta-se um déficit nas contas externas de 64 bilhões de dólares neste ano, ante 47,5 bilhões em 2010.

Uma política ortodoxa baseada em fortes aumentos dos juros e excesso de medidas para segurar a economia pode até aumentar a popularidade do chefe da Casa Civil nas tesourarias dos bancos, mas é extremamente nociva em um prazo mais longo. Cabe a Dilma mediar as tensões. E será mais difícil para ela do que para Lula.  No primeiro mandato, premido pela especula-ção contra sua eleição, o presidente viu-se obrigado a render-se à ortodoxia. No segundo, livre de certas amarras (e de certos indivíduos), deu a guinada que guiou o País ao caminho do crescimento e elevou seus índices de aprovação a níveis nunca antes alcançados na história republicana.

A presidenta herdou uma economia bem encaminhada, mas dependente de ajustes inadiáveis. Começa um governo sob a esperança de equilibrar fiscalistas e desenvolvimentistas. Falcões e pombos. A história tem demonstrado que, uma hora ou outra, um dos lados sai derrotado. Dilma aparenta preferir os pombos. Mas os falcões nunca descansam.

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