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Política

O ministro aprende mandarim

por Clara Roman — publicado 06/09/2011 15h01, última modificação 06/06/2015 18h16
Ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) recorre aos hackers para implementar projeto de transparência e softwares livres no governo. Por Clara Roman

Tracker aberto, código-fonte, universal ID, repositório de dados, XML. Aloizio Mercadante, ministro da Ciência e Tecnologia, bem que tentou. Durante encontro com hackers, ativistas, acadêmicos e “geeks” (nerds da computação), para expôr o seu projeto para a divulgação de dados de seu ministério, ele acenava positivamente com a cabeça diante das exposições da plateia até que, em determinado momento, confessou: “Para mim, esta conversa é em mandarim. Tô fingindo que eu estou concordando”.

Era uma espécie de reunião de trabalho realizada na Casa da Cultura Digital em São Paulo, na segunda-feira 5. Foi o palco usado por Mercadante para anunciar sua ideia para implementar um "caminho sem volta" na cultura do software livre – programas de computadores que podem ser estudados e redistribuídos sem restrições – e da transparência dentro do poder público.

O projeto consiste em criar a plataforma Aquarius, que deve disponibilizar os dados do ministério em uma interface acessível. Os hackers foram escalados, portanto, para desenvolver um software capaz de realizar a operação. Um software livre – ou melhor, o mais livre possível dentro de estruturas “proprietárias”. Segundo Mercadante, seria algo completamente inédito, não só no Brasil, mas no mundo. Para isso, o ministério passará a contar com a parceria de órgãos de controle como o Tribunal de Contas da União (TCU), a Controladoria Geral (CGU) e o portal da Transparência, que já divulga dados públicos.

Apesar de estarem diante da, em tese, maior autoridade do assunto no País, não demorou muito para que os hackers - a maior parte jovens vestindo-se de maneira despojada - dominassem a situação. O próprio ministro admitiu ser um "analógico". Esbanjando uma linguagem específica, a plateia apresentou as propostas do modo de trabalho. A cooperação e horizontalidade foram elencados como principais. “Não é necessário compartilhar o projeto pronto”, disse uma das participantes. “Podemos jogar na rede para que outras pessoas complementem”, disse para o ministro, que seguia balançando a cabeça.

A ideia do ministro é implantar o sistema primeiramente com os dados de seu ministério e depois expandir isso para outras instâncias do poder. Por isso a importância do software livre, que pode ser distribuído gratuitamente para aqueles interessados. “Temos objetivos claros e um caminho também. Vamos ter problemas dentro dos ministérios. Vocês vão participar dessa disputa. É um caminho sem volta”, disse o ex-senador.

Abrir dados é um dos pilares do ativismo hacker. E isso significa não só disponibilizar informações, mas realmente criar dispositivos para colocar o conteúdo na rede antes de uma edição consciente do poder público. Para o ativista Sérgio Amadeu, o governo deve colocar as informações para leitura do cidadão e não, como é feito hoje, mastigá-los para depois subir nos sites. “Se houver dúvidas, é claro que o gestor deve se dispor a conversar com o cidadão”, diz Amadeu.

Fazer isso seria instaurar uma lógica de transparência total dos gastos e atividades públicas. Mercadante não definiu até que ponto se disporá a abrir as informações. Mas, segundo Amadeu, é a proposta mais ousada que ele já viu do governo.

Do bem

O hacker, geralmente associado à imagem do ladrão virtual, se define como aquele apaixonado pelos sistemas operacionais da computação. Desde a década de 70, quando surgiu em meio à contracultura, o movimento hacker carrega consigo a idéia da liberdade e transparência. “Graças ao movimento hacker que a internet se manteve livre”, afirma Amadeu. E o software livre é umas das principais ferramentas para barrar a expansão dos softwares proprietarios, com códigos de programação fechados e de amplo uso comercial. Como os da Microsoft.

Como essa lógica destituída de padrões burocráticos casará com o modus operandi quadrado do governo é mais uma das incógnitas no processo. A desconfiança era demarcada nas falas durante o encontro. Propostas de parcerias empresariais, levantada por um empresario infiltrado, foram rechaçadas

Descrente, o programador Bruno Gola afirmou que já realizou trabalhos para o governo de desenvolvimento de software livres que não foram implantados quando o cenário político se transformou. O próprio Mercadante admitiu que há a possibilidade de o projeto ser frustrado. “Há o risco de se perverter, mas que diminui conforme essa cultura for inserida”, disse o ministro.

O projeto deve ser lançado no início de 2012. Mas, para que possa ser realizado, é necessário conciliar o tempo hacker com o tempo do governo.

LulzSec e Anonymous

Há alguns meses, grupos hackers iniciaram invasões a sites do governo. Os sites da Presidência da República, Receita Federal, IBGE, ministério dos Esportes e outros menores tiveram suas páginas invadidas. Poucos dias depois, os hackers  se identificaram. Desde então, as ramificações brasileiras dos grupos LulzSec e Anonymous começaram a aparecer na mídia e a expor seu ativismo.

Mas, segundo Amadeu, os dois grupos tem identidades muito distintas. O Anonymous é mais politizado. Uma de suas ações, por exemplo, é ajudar na organização do manifesto contra corrupção que ocorrerá na quarta-feira 7 em várias cidades do Brasil. É a mesma lógica do congestionamento de  sites, explica Amadeu, só que no mundo virtual: ao invés de paralisar o trânsito, paralisa-se a navegação.

Já o LulzSec tem suas ações focadas em objetivos pontuais, mais ligados a interesses do próprio grupo. Ambos declararam guerra ao governo e grandes cooporações. No início do ano, por exemplo, mais de um milhão de contas foram invdidas na rede da Sony no mundo todo. A politização dos grupos, no entanto,  não passa da instância de protesto e quebra com as instituições. Não estão dispostos a se juntar com o inimigo e dialogar com o governo, como o que foi feito por outros ativistas nesta segunda-feira.

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