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O líder profissional

por Cynara Menezes — publicado 01/03/2011 17h52, última modificação 01/03/2011 18h23
De Fernando Henrique Cardoso a Dilma Rousseff, o peemedebista Romero Jucá especializou-se em representar e articular os interesses governistas no Senado. Por Cynara Menezes

De Fernando Henrique Cardoso a Dilma Rousseff, o peemedebista Romero Jucá especializou-se em representar e articular os interesses governistas no Senado

Durante a última campanha eleitoral, a piada que circulava entre os políticos dos mais variados matizes era que não se sabia quem iria ganhar a eleição para a Presidência da República, mas com certeza o líder do governo no Senado seria Romero Jucá. O peemedebista de Roraima conseguiu a façanha de liderar a situação durante os governos Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e, agora, Dilma Rousseff. Poucos duvidam que, fosse o tucano José Serra o eleito, também seria Jucá o escolhido.

Sua posição no novo governo comprova o pragmatismo da presidenta Dilma de não mexer no que está funcionando. E Jucá funciona, reconhecem governistas e oposicionistas. Sua principal qualidade é conseguir manter sob controle o próprio partido, o PMDB, o que será, de certa forma, mais fácil neste ano. Durante o governo Lula, o bloco governista no Senado nunca esteve consolidado, era muito frágil – situação bem diversa da enfrentada por Dilma, que deve contar com uma maioria folgada de 54 dos 81 parlamentares.

Mas o que torna alguém um líder profissional, independentemente de ideologia? Primeiro, as boas relações, tanto com a base quanto com a oposição. Nisso, Jucá é mestre, mas sua trajetória de político infiel a partidos facilita: foi do PPR, do PFL e do PSDB antes de ir para o ecumênico PMDB, ideal para seu perfil. Como cidadão, o voto do líder de Dilma já foi para FHC em 1994 e 1998, para José Serra em 2002 e para Lula e sua sucessora nas duas últimas eleições. Quem foi melhor presidente, FHC ou Lula? O ex-tucano Jucá sobe no muro. “Os dois tiveram avanços. Houve avanços no governo Fernando Henrique, mas Lula avançou mais.”

A natureza calma também ajuda. É unanimidade na Casa que o líder do governo nunca criou confusão ou se alterou no plenário, que frequenta apenas nos momentos mais importantes, para encaminhar votações. Não é político de muitos discursos, mas de gabinete. Chega cedo e é assíduo no Senado de segunda a sexta-feira, dias em que costuma ocupar a tribuna, geralmente com temas relativos a seu estado, Roraima, que governou a partir de 1988, quando ainda era território, indicado pelo então presidente José Sarney. A trajetória de Jucá vincula-se à de Sarney desde então, embora o líder negue ter copiado os bigodes do maranhense.

Pernambucano, o economista Jucá, de 56 anos, começou cedo na política, pelas mãos do ex-senador Marco Maciel. Seu primeiro cargo público foi na prefeitura do Recife, com o pefelista Joaquim Francisco, em 1984. Daí, indicado por Maciel, foi direto para a presidência do Projeto Rondon e de lá para o comando da Funai. A nomeação para o cargo de governador de Roraima rendeu-lhe uma espécie de capitania hereditária: tanto Jucá quanto a ex-mulher Teresa, que já foi três vezes prefeita da capital, Boa Vista, têm um latifúndio eleitoral. Nas últimas eleições, mais um integrante da família estreou na política, o filho mais velho, Rodrigo, conhecido como “Juquinha”.

Aos que o acusam de ter transformado Roraima na “Jucalândia”, o líder do governo responde com a tranquilidade habitual. “Minha ex-mulher foi uma excelente ex-prefeita e foi eleita agora a deputada federal mais votada do estado. E meu filho foi eleito deputado estadual no voto.” Ou seja, o domínio teria ocorrido por livre e espontânea vontade do povo. Não é bem assim que vê a Procuradoria Regional Eleitoral em Roraima, que acusa de compra de votos e gasto ilícito durante a campanha tanto Romero quanto sua ex-mulher Teresa, que hoje assina Surita, como o irmão Emílio, apresentador do programa Pânico na TV.

Roraima, estado com o menor colegiado, foi onde o voto custou mais na última eleição: para se eleger, cada deputado gastou, em média, 73,4 reais por eleitor. Teresa, uma das campeãs em gastos, investiu 121,92 reais por voto, de acordo com a prestação de contas feitas ao TSE. Para se ter uma ideia, no País, a média de gastos dos deputados federais foi de 9,7 reais por eleitor. A ex-mulher de Jucá acabou por se tornar a quarta deputada mais bem votada do Brasil, com 29,8 mil votos, ou 13,38% dos válidos. O ex de Teresa recebeu 118 mil votos. Dias antes do primeiro turno das eleições, um empresário teve o carro interceptado por agentes da Polícia Federal e jogou pela janela 100 mil reais dentro de um pacote. Em depoimento, disse ter recebido o dinheiro das mãos de Jucá, que negou.

O líder do governo Dilma no Senado já havia sido alvo de denúncias em 2005, quando foi ministro da Previdência do governo Lula. Jucá foi acusado de participar de fraude para obter empréstimo no Basa, o Banco da Amazônia, para a Frangonorte, empresa da qual era um dos sócios. Alvo de processo aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido do então procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, viu-se livre da acusação em 2008. O ministro Cezar Peluso, do STF, mandou arquivar o processo.

“Todo mundo sabe dos rolos do Jucá em Roraima, mas como líder é preciso reconhecer que é extremamente habilidoso”, diz um ex-senador petista. “Tem boa relação com todo mundo, cumpre os acordos e conhece os escaninhos do poder, tanto do governo quanto da Casa.”

A grande comparação feita pelos próprios governistas é com Aloizio Mercadante, do PT, que ocupou a liderança do governo durante os primeiros dois anos de Lula na Presidência. A queixa mais frequente contra o atual ministro da Ciência e Tecnologia é de que nem sequer cumprimentava os colegas nos corredores, o que gerou uma piada criada pelo ex-senador Heráclito Fortes. Quando um senador passava por outro sem cumprimentar, vinha o chiste: “Bom dia, Mercadante!”

O petista teve a má sorte de se indispor com o líder do PMDB, Renan Calheiros, um dos principais sustentáculos de Jucá como líder de governo, seja ele qual for. O apoio de Calheiros é uma faca de dois gumes para Jucá. Ao mesmo tempo que trabalhou pela manutenção do colega na liderança, o alagoano cortou as ambições do colega de se lançar à presidência da Casa em duas ocasiões: em 2008, após a renúncia do próprio, e neste ano. Circula pela Casa a versão de que Calheiros ainda almeja voltar à presidência do Senado quando Sarney terminar seu biênio, em 2013. Assim como Calheiros nega a ambição de recondução à presidência, Jucá tampouco admite qualquer interesse no cargo. “Foi a oposição que aventou meu nome.”

Como líder, a grande moeda de troca de Jucá no convencimento de colegas nas votações são as emendas e substitutivos que, muitas vezes, engordam os projetos e medidas provisórias. Outra vantagem que costuma prometer para agradar senadores é a agilidade nas audiências com ministros. Uma de suas atuações mais importantes no ano passado foi conseguir reverter a convocação da então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff para depor na Comissão de Constituição e Justiça do Senado sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos.

Capitaneados por Jucá, os governistas substituíram Dilma, já pré-candidata, pelo secretário de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi. Em 2008, graças a um cochilo dos governistas, Dilma havia sido convocada para falar na Comissão de Infraestrutura sobre o caso Lina Maria Vieira, a ex-diretora da Receita Federal que a acusava de tê-la chamado ao Palácio do Planalto para insinuar que o órgão deveria fazer “vista grossa” em investigações sobre a família Sarney.

O grande revés de Jucá como líder do governo foi mesmo a derrota da proposta de prorrogação da CPMF, em 2007. Na época, até os senadores do PMDB se dividiram, mas, justiça seja feita, nem os governistas colocam o fim da CPMF na conta dele. “A culpa foi do Eduardo Cunha, que era líder na Câmara e deixou o assunto demorar muito para ser votado. Esses temas impopulares ou se vota logo ou as dificuldades aumentam”, ensina um líder governista. Jucá confirma o dito e promete apressar a votação do salário mínimo no Senado para a quarta-feira 23.

As principais qualidades do líder do governo, apontadas inclusive por seus desafetos, são a organização e a memória prodigiosa: sabe de cor a ordem do dia e a agenda das comissões. Conhecedor das regras, como presidente da Comissão de Fiscalização e Controle durante o governo FHC foi capaz de conseguir adiar por mais de 50 dias a primeira reunião sobre o caso Eduardo Jorge, em 2000. Quando finalmente o fez, marcou para uma véspera de feriado, quando os parlamentares costumam desaparecer de Brasília.

Seu pior defeito, diz um senador governista, “é ciscar para dentro”. Como assim? “É tudo venha a nós, ao vosso reino, nada. Primeiro ele resolve as próprias demandas. Os aliados muitas vezes ficam a pão e água.” Diz outro parlamentar da base: “Nem sempre ele encaminha o que o governo está querendo no momento. A prioridade é sempre resolver o PMDB e depois entregar o que se pede”. A vantagem é que, sim, Jucá resolve o PMDB, o que para Dilma é mais do que necessário. “O PMDB é a maior bancada no Senado. Se o líder não for um cara deles, simplesmente lavam as mãos”, diz um terceiro senador governista.

A explicação do próprio líder de todos os governos para sua longevidade no cargo é a seguinte: “Minha especialidade é buscar convergência, não briga. E o processo aqui é artesanal, tem de se construir a relação um a um”. Do alto de seus 30 anos de Senado, o segurança do plenário cita a Bíblia para resumir: “Jucá nasceu para ser cabeça, não para ser cauda”. Com uma boa ajuda dos braços: haja tapinhas nas costas.

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