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Política

Rio de Janeiro

O governo pode esvaziar poder das milícias

por Edgard Catoira — publicado 02/12/2011 10h33, última modificação 02/12/2011 10h33
Depois de pacificar áreas dominadas pelo tráfico, o poder público deve quebrar espinha das milícias onde elas se sustentam: o lucro com serviços ilegais
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Faixa convida população a denunciar paradeiro de bandidos. Foto: Edgard Catoira

No muro de uma escola municipal da Lagoa Rodrigo de Freitas, bem ao lado da Igreja de Santa Margarida Maria, zona nobre do Rio, está pintado, no estilo dos grafiteiros, um enorme painel que diz: “é um DISQUE-DELIVERY: você liga e os BANDIDOS recebem a POLÍCIA na porta de casa.”

Neste momento em que o Rio comemora um ano da pacificação do Complexo do Alemão por UPP – Unidade de Polícia Pacificadora, ou a Polícia da Paz, o Disque Denúncia vem colaborando no apoio às autoridades policiais. A população confia no serviço. As denúncias têm a garantia do anonimato. Tanto que o programa recebeu 15.950 ligações em novembro, com informações que orientaram a tomada da Rocinha pela UPP.

Esses números já são suficientes para explicar por que recados e painéis como esse do muro escolar, feitos por gente do povo, começam a aparecer espontaneamente nas ruas do Rio.

Na área do tóxico, as UPPs foram operações vitoriosas, comandadas pelo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame. Em muitas dessas ocupações, conta com apoio das polícias estaduais, federal e forças armadas.

Beltrame, apesar de ser gaúcho, conhece bem as manhas do banditismo no Rio. E tem vontade política para rechaçar essas forças do mal. Conta, para isso, com o apoio do governador, para quem, em última análise, vão os louros da vitória do Poder Público, que volta a ocupar seu lugar em áreas antes tomadas pelo terror do tráfico.

O secretário sabe que o tráfico não terminou. Os chefes que estão presos continuam comandando seus asseclas de dentro das prisões. Os “esticas”, pontos de vendas no asfalto, também continuam a existir. Altamente positivo foi o armamento apreendido, que tirou parte importante da força bélica dos traficantes.

Para que não se retorne ao passado, o próprio Beltrame reivindica que os espaços retomados agora sejam preenchidos por serviços sociais – desde escolas e postos de saúde, até facilidades para comunicações, com televisão a cabo e internet a preços populares. Sem esquecer, inclusive, da coleta de lixo.

E as milícias?

Eu, particularmente, vejo tudo isso acontecer com bons olhos. Mas nunca posso deixar de me intrigar sobre por que não se faz o mesmo com relação ao poder paralelo das milícias, principalmente na Zona Oeste do Rio.

Imediatamente me lembro da CPI presidida pelo deputado estadual Marcelo Freixo. O relatório final é uma radiografia completa da máfia da milícia no Estado do Rio. Merece ser lida por quem estuda o assunto (LEIA AQUI) . Vale a pena.

Grilado com a falta de informações sobre o que acontece na repressão às milícias, vejo uma juíza assassinada e o deputado ameaçado. As denúncias sobre atentados continuam chegando pelo Disque Denúncia, a ponto de o deputado, para se preservar, sair do país por 15 dias.

Claro que fico o tempo todo querendo saber se o deputado, agora que está comandando outra CPI, a do tráfico de armas, tem novidades sobre as milícias e se algumas de suas 58 propostas da CPI estão sendo desenvolvidas.

Na quinta-feira, dia 1º de dezembro, um mês depois de ter viajado para manter sua segurança, o próprio Freixo, falando a CartaCapital, me deixou aliviado. Ele conta que retomou seu trabalho normalmente e tem mantido contatos com o secretário Beltrame. E está sendo notificado sobre as investigações que vêm sendo feitas.

Assim, o deputado passou sua tranqüilidade para mim, comentando que neste dia 2 de dezembro, estará no Complexo do Alemão, onde a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia fluminense realiza uma audiência pública de avaliação dos resultados da atuação governamental na área, ocupada há exatamente um ano pelas autoridades constitucionais.

Todos os órgãos de segurança, serviços sociais, de direitos humanos, representantes da comunidade se sentarão juntos para analisar o que foi feito os rumos a serem tomados daqui para a frente. Qualquer cidadão pode participar da reunião.

Quanto às milícias, as informações ainda são sigilosas.

O que se sabe é que, para enfraquecer essas forças, só existe um caminho: cortar suas fontes de renda.

Quando a Prefeitura se impuser para acabar com a ilegalidade de transporte alternativo – as vans – maior fonte de renda dos milicianos, a coluna vertebral dessa máfia estará fragilizada.

Os revendedores de gás também têm que se impor e denunciar onde estão os 15 mil pontos ilegais de distribuição de gás – aliás, onde estão os fiscais da Agência Nacional de Petróleo, que não levantam esses revendedores piratas?

Sabemos que é impossível que três fiscais da ANP no Rio, e mais três, emprestados de outros estados, não vão se meter nessa empreitada suicida e, por isso mesmo, ficam perturbando os revendedores da Zona Sul do Rio, que não ameaçam as suas integridades físicas.

Para acabar de vez com os rendimentos das milícias, os órgãos de telecomunicação terão ainda que acabar com os “gatonets” – tanto para tevê, como para internet – e oferecer serviço compatível com a renda da população local.

A última fonte de renda que sobraria seria o pagamento pela “segurança”, que já estará acabado porque a milícias não terão sobrevivido.

Sou um velho repórter com direitos a neuroses adquiridas na época da repressão da ditadura. As milícias me remetem às ações de grupos, principalmente paramilitares torturadores, exatamente como são os milicianos.

Por isso, continuo buscando informações sobre o que está sendo feito com as denúncias ricas em pormenores, que o Disque Denúncia recebe sobre as milícias e repassa para as autoridades.

Sem querer atrapalhar as “investigações sigilosas”, voltarei ao assunto!

 

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