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Política

Análise

O fator Erenice

por Mauricio Dias publicado 07/10/2010 18h18, última modificação 27/10/2010 17h12
Uma petista e outra ex, Marina Silva, militante do partido por trinta anos, causaram danos profundos à candidatura de Dilma Rousseff

Uma petista e outra ex, Marina Silva, militante do partido por trinta anos, causaram danos profundos à candidatura de Dilma Rousseff

Os eleitores de Dilma Rousseff não conseguem esconder que o grito de vitória ficou preso na garganta e o que assomou à boca de todos eles é o amargo sabor de uma derrota. É enganoso, no entanto, esse paladar. Dilma não perdeu. Dilma ganhou o primeiro turno. A pergunta é: por que a vitória não ocorreu já agora como vinham projetando as pesquisas de intenção de voto de institutos independentes como Ibope, Vox Populi e Sensus?

O resultado do Ibope apurado entre 25 e 27 de setembro, a poucos dias do pleito, apontava Dilma com 50%, Serra com 27%, Marina com 13%, além de 1% de outros candidatos. Havia 4% de indecisos e 4% dos eleitores que pretendiam votar branco/nulo. Mas esse porcentual da candidata petista já embutia um problema: era um número praticamente estancado há duas semanas e, rigorosamente, desenhava uma curva em leve declínio, conforme o gráfico elaborado pelo professor Marcus Figueiredo, do Instituto de Estudos Políticos e Sociais (Iesp), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Por que razão a curva ascendente de Dilma declinou? Essa inversão ocorreu pela primeira vez ao longo de 2010. Durante todo o tempo manteve-se projetada para o alto. Era o retrato aproximado da crescente avaliação positiva do governo Lula.

As mulheres compõem a maioria do eleitorado brasileiro hoje. Isso significa 51,8% dos 135 milhões, 804 mil e 433 do total. Exatamente 70 milhões 373 mil 971 mulheres. Foram duas delas que provocaram esse desfecho do primeiro turno da eleição presidencial. Objetivamente, Erenice Guerra, ex-ministra da Casa Civil do governo petista no posto de Dilma, e Marina Silva, militante petista por mais de 30 anos, as principais causadoras nos danos à candidatura do PT.

Há uma relação clara entre a rápida ascensão da candidata Marina, nas duas- últimas semanas, e o caso Erenice.

Existe uma possível comprovação dos danos provocados pelas denúncias de envolvimento da ex-ministra Erenice em atividades ilícitas. Pesquisa do Ibope, divulgada em 24 de setembro, mostra que havia 4% dos eleitores que se diziam “levados a mudar a intenção de voto” em razão disso, e outros 5% responderam que estavam dispostos a “repensar sua intenção de voto”. Esse contingente de 9% representa um número de eleitores em torno de 10 milhões. -Quase a metade deles (4%) diz que mudou a intenção de voto (tabela). Por elementar dedução, eram eleitores de Dilma. Isso representa, aproximadamente, 5 milhões de pessoas. Um estrago razoável.

Acreditamos na pesquisa ou não? Essa resposta repousa no direito da livre manifestação de cada um. Por outro lado, 69% disseram que as denúncias e a demissão de Erenice “não interferiram na sua intenção de voto”.

Essa tabela mostra, também, a distribuição das respostas por estratos de renda, avaliada em salários mínimos. Os mais ricos foram os mais tolerantes com os supostos desvios de comportamento da difusa parentela de Erenice Guerra. Não se pode garantir que essa causa resultou no efeito eleitoral constado a partir do episódio apresentado pelo Ibope aos entrevistados. Foi imediatamente após, no entanto, que os porcentuais de Dilma estancaram e registram pequenos, mas sucessivos, declínios. A data da pesquisa sustenta essa afirmação.

Erenice, sucessora de Dilma na Casa Civil, levou água para o monjolo de Marina. Serra pouco se beneficiou deles. Mas quem comprou Marina levou Serra. É ele que vai para o segundo turno. A candidata do Partido Verde, após 30 anos de militância no PT, começou a aspirar votos de Dilma e de eleitores que ainda pensavam no que fazer. Esse contingente, como mostram os cruzamentos das pesquisas quando se considera o poder aquisitivo, saiu de uma classe média empurrada para a insegurança por inúmeros fatores explorados pela oposição: a pregação dos religiosos de todos os matizes, por exemplo, contra a posição de Dilma pelo aborto. Ela recuou, mudou a posição e não adiantou. E os e-mails infames que cruzaram a internet deformando a verdadeira participação de Dilma na ação armada contra a ditadura militar? Naquela guerra ela nunca deu um tiro.

Independentemente dos méritos políticos que tem, Marina, a candidata dos ambientalistas, plantou e colheu a imagem de uma pretendente amena. Era toda paz e amor. Raramente alterou o tom de voz, estridente diga-se, nos debates e, depois de um início titubeante, ganhou fôlego por propostas que raramente deixavam o -patamar das generalidades. A ideia geral do -desenvolvimento sustentável. A ideia geral da moralidade. A proposta generalizante de alterar- os -mecanismos da política tradicional. Acredite quem quiser. E um número surpreendente de eleitores acreditou. Que o digam os surpreendidos pesquisadores.

Mas o que pensará a doce Marina da política externa brasileira que, com Lula, privilegia a soberania nacional e não a subserviência?

Faltou pouco para que esse cenário eleitoral reproduzisse a situação ocorrida no Rio de Janeiro, nas eleições para o governo estadual, em 1982. Forças políticas poderosas oxigenaram a candidatura de Leonel Brizola que, vindo do exílio, estava atrás de Miro Teixeira e de Moreira Franco que, então, era apoiado pelo moribundo regime militar. Brizola ganhou fôlego para subir. E ganhou a eleição. Se houvesse mais tempo, duas semanas talvez, seria Marina a opositora de Dilma no segundo turno? Descartada a suposição, o opositor será o tucano José Serra.

O candidato da oposição vai enfrentar a candidata governista em situação aparentemente adversa. Serra vai desafiar as bases sólidas dos aliados do governo na maioria dos estados da federação e uma tradição. Em todas as eleições diretas realizadas após a ditadura ganhou no segundo turno quem saiu na frente (tabela). Foi assim na eleição de Collor, em 1989, e nas duas eleições de Lula, em 2002 e 2006.

No caso das duas vitórias de Lula, contra Serra e Alckmin, o resultado mostra uma vitória avassaladora do petista.

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