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Política

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Análise

20.05.2011 12:23

O escândalo Palocci e as miçangas

Por Maria Inês Nassif

Até o momento, mesmo com todos os revezes de sua vida pública, a imagem de Antonio Palocci, titular da Casa Civil, que emerge das denúncias de que teria aumentado o seu patrimônio pessoal em 20 vezes de 2006 a 2010, está longe de ser a de um ministro enfraquecido. É o retrato de corpo inteiro de um político muito forte. Palocci não tem poder apenas porque isso foi conferido a ele pela presidente da República, Dilma Rousseff, mas pela capacidade de se investir do papel de fiador de governos petistas, principalmente junto ao mercado. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, foi o fiador de um candidato eleito considerado pelo mercado como um incendiário; no governo Dilma, de uma presidente com um passado revolucionário que carregava a tiracolo um ministro da Fazenda, Guido Mantega, nada ortodoxo, e optou por tirar do Banco Central outro “fiador” do mercado, Henrique Meirelles.

No governo Lula, Palocci não caiu porque se viu envolvido em denúncias. Enquanto eram apenas elas, foi suficientemente poupado pelo mercado, pelos jornais e também pela oposição. Caiu devido a um excesso seu, depois de já ter retomado o controle sobre seu destino no Congresso. Depois de sair-se muito bem em uma ida ao Legislativo para prestar esclarecimentos, sua assessoria divulgou o sigilo bancário de um caseiro, a testemunha do caso. Se esse excesso não tivesse acontecido, é provável que tivesse continuado no governo, inclusive fortalecido, numa conjuntura em que o presidente estava frágil e o PT sob fogo cruzado. Seria, pelo menos naquele momento, um ministro forte sustentando um presidente fraco. Palocci não voltou para o governo antes de ter sido absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) mas, já nessa condição e ainda na campanha eleitoral de Dilma, colocou-se – e foi colocado – novamente como o grande interlocutor do partido junto ao poder econômico. A manutenção de Guido Mantega na pasta da Fazenda foi um aceno, para o partido, de que a presidenta não abandonaria a opção desenvolvimentista representada pelo titular da pasta. A escolha de Palocci como “gerente”, todavia, deu a ele o espaço de articulador e mediador junto a setores empresariais e financeiros.

Palocci ocupou todos os espaços de poder conferidos à Casa Civil: não há um assunto de governo, hoje, que não seja acompanhado pelo ministro. Não interessa para esses setores, que têm uma forte ascendência também sobre os partidos de oposição, que se mude a relação de poder dentro de um governo cujos espaços divide com a esquerda, ou que desapareça do cenário um político pragmático, que tem bom trânsito a empresários e a partidos mais conservadores da base aliada, além de uma certa simpatia da oposição. Se cair, será por seus excessos, não pelo zelo da oposição em defenestrá-lo.

O primeiro excesso já ocorreu. Em sua defesa, partiu para o ataque. Sua nota, em que nomeia ex-ministros que ficaram ricos depois que saíram do governo, é uma saída à La caseiro: uma aposta de que tem apoio de quem interessa do lado de fora do governo, e de quem consegue fazer isso prevalecer dentro do Congresso e do próprio núcleo de poder; a certeza de que a intimidação pode levar adversários ao corner. Como grande gerente da máquina de governo, conseguiu, por exemplo, traduzir isso em votos na Câmara para evitar sua convocação para prestar esclarecimentos. Confiante em sua própria capacidade de reverter uma situação contrária, apela com naturalidade ao discurso de que se todos fazem – ganham dinheiro depois que saem do governo –, ele também tem esse direito.

É uma situação que pouco contribui para a discussão de sistema político do país. Um debate de reforma política que abrir mão de entender por que é tão normal ex-dirigentes governamentais da área econômica acumularem fortunas depois que saem de cargos públicos será uma discussão sobre miçangas. O que é hoje, segundo o ministro, um padrão normal de relações, onde fatalmente um homem forte de governo se torna rico quando volta para a planície, é também um elemento importantíssimo de análise das causas da corrupção no Brasil. O discurso oficial, assumido pelos jornais e pela opinião pública, é o de que a classe política é intrinsicamente corrupta: faz parte da sua natureza ruim o político tirar proveito de seu mandato. O problema é bem mais amplo. Na verdade, num sistema onde transitam grandes vantagens privadas, a corrupção é um negócio que interessa tanto ao corruptor, como ao corrupto. Para os setores que têm interesses econômicos no governo, é uma situação muito mais cômoda arcar com os ônus de financiar campanhas políticas e contratar consultorias de quem tem informações de governo do que defender, por exemplo, o financiamento público de campanha. Num sistema político que é movido a dinheiro privado, esses recursos não apenas financiam partidos, mas escolhem nas agremiações quem vai representá-lo. O financiamento privado é uma terceirização da atividade partidária. O dinheiro mantém nos partidos homens fortes, cujos erros são relativizados, e todo o sistema político na defensiva, ao jogar para os representantes eleitos a responsabilidade exclusiva das mazelas morais da democracia.

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Sua opinião

  1. eduardo alexandre disse:
    Não dá mais para o Palocci… Para a saúde política do governo Dilma ele deve ser suspenso, investigado e demitido. Não é possível defender esta pessoa, que se locupleta das informações estratégicas do Estado a que tem acesso para benefécio próprio. Se não existe lei para isso, é devido a natureza intricicamente corrupta do Estado, que assim se mantém dada a perenidade da sociedade civil brasileira, que sem sua inflúencia, vê tais práticas reproduzirem-se de tempos em tempos nos mais diversos escalões e nas várias esferas da federação numa promiscuidade incontrolável no trato da coisa pública como se fosse patrimônio privado. O que nos permite conceituar seus agentes operantes de cleptocratas. Reformar o Estado, não só a política é urgente a mais de dois séculos.
  2. Joel Emidio da Silva disse:
    Quem diria! O velho ditado atualizadíssimo: "O pior cego é aquele que não quer ver." Parodiando, pode se dizer que "é pior o corrupto quando faz carreira justamente na crítica à corrpção." Reproduzo um trecho do artigo:"...a classe política é intrinsicamente corrupta: faz parte da sua natureza ruim o político tirar proveito de seu mandato." Não é uma mera frase "fora do contexto" como muito se diz: é uma interpretação muito correta. Eu só acrescentaria que os dirigentes das classes dominantes são essencialmente corruptos e se julgam - com razão - acima da Lei, pois de facto assim acontece. E têm respaldo em importantes setores da população, como exprime a maioria dos leitores que aqui se manifestam, dando perfeitamente salvo conduto às práticas de ética duvidosa, recorrendo ao velho argumento conspiratório. A democracia só se será real quando todos os cidadãos efetivamente serem responsáveis tano nas funções a eles designadas, quando na escolha de seus dirigentes. COm a chegada do PT ao poder - a qual eu, como eleitor petista nos primeiros tempos, ajudei a construir - definitivamente acabaram-se as possibilidades de se por fim ao inimigo número um de qualquer país: a corrupção endêmica e livre!
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