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Política

Análise

O DEM quer atrair a nova classe média. Será?

por Viomundo — publicado 15/03/2011 16h35, última modificação 15/03/2011 16h35
Como saímos do campo dos princípios para o eleitoralismo puro e simples, o partido corre o risco de encontrar o caminho para a classe C congestionado. Por Luiz Carlos Azenha

Por Luiz Carlos Azenha

Leio no Estadão que a nova estrategia — de sobrevivência — do DEM será:
“investir nos eleitores de classe média, especialmente aqueles que chegaram há pouco nessa faixa, impulsionados pela ascensão que tiveram durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na avaliação dos dirigentes do DEM, essa nova classe média é conservadora nos costumes e cobra uma atuação mais presente do Estado. Nessas análises, o comando do partido concluiu que esse grupo de eleitores demanda uma participação direta do governo, mas de uma forma diferente do que se imaginava.

Não se trataria de estatizar empresas ou rechaçar privatizações, mas sim de exigir que a administração pública garanta a eficiência de serviços públicos – nas áreas de educação, saúde e segurança, por exemplo. “A pessoa que agora tem dinheiro para comprar um aparelho celular quer que esse serviço seja bom. E quer também que o preço caiba no fim do mês no seu orçamento. E isso eles não recebem do Estado”, diz o atual presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), que apoia seu sucessor, Agripino.

“É a mesma coisa com as passagens aéreas. Viajar de avião não é mais algo restrito às elites e esses novos consumidores cobram qualidade no serviço.”Para o comando do partido, as eleições de 2010 teriam demonstrado que esse eleitor é conservador e ficou órfão de um candidato especificamente voltado para ele. Por conta disso, teria migrado para a candidatura de Marina Silva (PV), justamente porque ela empunhava publicamente algumas bandeiras de interesse desse grupo, como, por exemplo, a oposição à legalização do aborto”.
Os leitores deste site se dividem, ou pelo menos se dividiam, entre aqueles que acreditam que em seus dois mandatos o presidente Lula optou por não politizar o eleitorado, ou seja, fugiu dos embates que poderiam contribuir para tal politização. Teria sido assim, por exemplo,  nos casos da demissão do diretor da ABIN, Paulo Lacerda; da implementação das decisões da Conferência Nacional de Comunicação e do Plano Nacional de Direitos Humanos. Por motivos eleitorais e por não ter maioria sólida no Congresso, Lula teria optado por “comer pelas beiradas”, justificam os lulistas.

Outros dizem que o simples fato de Lula ter promovido ascensão de milhões já mudou a sociedade. Argumentam que isso deu uma nova dimensão social aos beneficiados, que aos poucos passariam a exigir  direitos plenos de cidadania, o que seria em si um grande avanço.

Há, porém, os que apontam para o chamado fator Berlusconi: um eleitorado cujo principal objetivo é consumir quer mais é se afastar de sua origem, descartar suas marcas de nascença (de classe) e ingressar no maravilhoso mundo da Globo e da Veja. Ou seja, à ascensão econômica seguiria uma pretensa ascensão cultural, cuja aparente consequência no Brasil de hoje é a disseminação do country universitário, das siliconadas e dos tatuados, que copiam tudo o que aparece no BBB. A partir daí votar no DEM exige, convenhamos, um pequeno passo.

Por este raciocínio, os filhos dos beneficiários do Bolsa Família seriam os primeiros a negar apoio político ao programa, mimetizando as opiniões da classe média à qual pretendem pertencer de corpo e alma.

Como a negação da política é uma ferramenta muito utilizada pelos que não conseguem ganhar eleições, me parece que a opção do DEM se encaixa perfeitamente neste último raciocínio: a cobrança por “eficiência administrativa” descolada da política.

Vejo, no entanto, alguns problemas na proposta de reencarnação do DEM. Um deles: os esqueletos no armário do partido, que se posicionou oficialmente contra alguns dos projetos sociais de Lula, como o Prouni.

E mais: uma parte razoável dos eleitores de Marina Silva foi de jovens entusiasmados com as propostas dela e descontentes com a “velha política”, na visão deles representada pela dicotomia PT-PSDB. Dificilmente este eleitorado, que é idealista e ligado ao futuro, vai se identificar com grandes líderes da juventude como Agripino Maia.

Finalmente, pelo que leio aqui e ali, a proposta de Dilma Rousseff, de olho em 2014, seria ocupar espaços à direita, deixando os espaços à esquerda por conta de Lula. Se for verdade, o Brasil teria dado mais uma contribuição à Humanidade, além da jabuticaba: um governo de centro-esquerda que governa como se fosse de direita com o objetivo de ganhar eleições em 2014 como se fosse de centro-esquerda. A correlação de forças recomendaria a tática. Deve ser por causa da avassaladora maioria que PSDB e DEM conquistaram no Congresso…

Seja como for, como saímos do campo dos princípios para o eleitoralismo puro e simples — com Kassab se posicionando à esquerda, por exemplo –, acho que o DEM corre o risco de encontrar o caminho para a classe C congestionado.

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