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Crônica

O céu é o limite

por Redação Carta Capital — publicado 04/01/2012 10h17, última modificação 04/01/2012 14h20
No futuro, e futuro incerto, será inaugurada uma obra que se transformará em bandeira eleitoral. Por Menalton Braff

Por Menalton Braff

 

 

Não gosto muito dessas festas municipais de inauguração. Sobretudo quando se inaugura uma placa indicativa do lugar onde, no futuro, e futuro incerto, haverá uma segunda inauguração (em vésperas de eleições) de uma obra.

Confesso a vocês que esta vidinha cheia de malandragens políticas me cansa.

Acontece que fui convidado para uma dessas inaugurações do lugar onde, no futuro, e futuro incerto, será inaugurada uma obra que se transformará em bandeira eleitoral. Não tive como me safar e lá fui eu para ouvir discursos.

Vocês já repararam como discursos são todos muito parecidos? Algumas frases de efeito, um tom de voz exaltado, que é para levantar as massas, e tudo resumido e espremido resta apenas uma forte sensação de tempo perdido.

Tudo acontecia dentro da chatice prevista quando uma frase me assustou: Vamos transformar Pouso do Sossego numa grande cidade.

Nomes e topônimos são omitidos ou modificados, pois o que interessa é a situação, o modo de pensar. E isso quase não tem variação.

E eu fico aqui pensando: qual a razão de estarmos sempre competindo? Conheço uma cidade onde se construiu um prédio de dez andares só porque a cidade vizinha, portanto rival, tinha construído o seu. As salas, pelo menos metade delas, continuam acumulando poeira e teias de aranha. Não importa: de longe, lá da estrada pode-se ver a majestade do principal edifício da cidade, que em nada perde para o edifício da cidade vizinha.

‒ Vamos transformar Pouso do Sossego numa grande cidade.

Alguns podem argumentar que este sentimento de emulação é que promove o progresso. Precisamos ver isso com mais vagar. Que tipo de progresso? Econômico, técnico, civilizacional? Progresso é palavra vazia, sem um recheio nada significa. Progresso social, é isso que se quer com o crescimento? Bem, então pode mesmo ser desejável.  Mas quando se quer transformar uma cidadezinha em uma grande cidade, me parece que a categoria desejada é a do maior tamanho.

 

 

Se uma cidade cresce, cresce o número de oportunidades. E isso é bom. Geralmente, contudo, cresce ainda mais o número daqueles que esperam as oportunidades. O poder de atração exercido por uma cidade em crescimento é incontrolável.

Se a população de uma cidade cresce, crescem necessidades como vagas em escola, moradias, rede de esgoto, iluminação pública, leitos de hospital, áreas de lazer e tudo mais que não há necessidade de citar. Então começam as queixas da população que não são menores do que as queixas das autoridades municipais. Os recursos não cresceram na mesma proporção, portanto, se o estado não ajudar, se o governo federal se fingir de surdo, o que é que poderemos fazer para superar a degradação da qualidade de vida do município?

E o mais interessante é a reação dos munícipes ao ouvirem que Pouso do Sossego será transformada numa grande cidade. Os aplausos interrompem o orador, na certeza cívica de que todos crescerão na mesma medida da cidade. E o orgulho do crescimento torna os cidadãos eufóricos e os aplausos fervorosos. Mas quando tiverem de esperar dois meses por uma consulta médica, ou entrar numa lista de espera qualquer por um direito que já fora de atendimento tranquilo, os mesmos que aplaudiram a ameaça de crescimento serão os primeiros a culpar as autoridades pela inépcia na solução dos problemas. Os dias de aplauso serão coisa do passado, ninguém mais se lembrará deles.

Em lugar de ameaçar com uma cidade grande, por que esses oradores não ameaçam com uma cidade melhor? Talvez a quantidade seja uma categoria mais visível do que a qualidade.

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