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O Casamento não é uma instituição falida

por Coluna do Leitor — publicado 28/09/2010 09h50, última modificação 28/09/2010 15h21
Não sei quanto ao casamento civil, mas pelo menos o casamento na política ainda é a instituição que deve ser mais observada e priorizada

Por Marcus Vinícius de Almeida Baccarini*

Não sei quanto ao casamento civil, mas pelo menos o casamento na política ainda é a instituição que deve ser mais observada e priorizada. A aparente bancarrota das expectativas dos tucanos de praticarem rapel nas escarpas do Planalto é tão prevista quanto grito em queda de montanha russa, todo mundo grita, mas sempre há alguém para bancar o durão. Bom, pelo menos alguém no carrinho assumiu antes e deu o grito, de desespero é claro. Diante das pesquisas de intenção de voto para presidente e das constantes elevações da preferência do público eleitor pela chapa de Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto, que já deixou a oposição com aquela sensação estranha na barriga há tempos, fez com que o ex-presidente, mas nunca contente, Fernando Henrique Cardoso desse o grito altíssono em meio aos companheiros tucanos e demistas para que voltassem suas forças, ou melhor, seus gritos, para as cadeiras do Senado Federal. Na última semana do mês de agosto, FHC reuniu-se com Sérgio Guerra, presidente do PSDB e com Jorge Bornhausen, presidente de honra do Democratas, e alertou as diretrizes dos dois partidos que caso não garantissem uma maior presença no Senado, ampliaria ainda mais a presença do PT no Congresso Nacional, uma vez que a Câmara tenderá a inclinar-se vertiginosamente ao Planalto com a vitória de Dilma.

Pois foi então com a renomada dramaticidade oposicionista que FHC manifestou o receio de que um governo longevo levasse o “petismo” a tentar mimetizar no Brasil o modelo autocrático de Hugo Chavez. No entanto, é sabido que a diminuição da presença da oposição se dá por diversos fatores, tais como a negação de sua própria herança e essa não-identificação com o próprio passado, e não somente pelo longevo governo do PT. A preocupação da oposição diante do loop da montanha russa é compreensível, afinal saltar do carrinho a essa altura não é uma alternativa politicamente e democraticamente saudável.

Mas, e o casamento? Calma. A noiva sempre é a última a chegar. O casamento surge diante da imediata reação de César Maia, candidato ao Senado pelo DEM-RJ, frente as preocupações de seus aliados, que o levou a publicar um vídeo em sua página na internet na sexta-feira, 20 de agosto de 2010, dizendo que a vantagem da média de 17 pontos percentuais à época, hoje já atingidos a casa dos 24 pontos percentuais, atribuída à Dilma faz com que a oposição “mude o foco para as eleições no Senado”. É aí que então entra a célebre (eu diria nefasta) frase extraconjugal dita pelo ex-prefeito dos cariocas “Essa é uma questão da maior preocupação de todos nós, que somos amantes da democracia”.

Definitivamente, essa afirmação conseguiu me preocupar e ao mesmo tempo ironizar o cenário político no Brasil. Ora, todos sabem que o amante é sempre quem paga o pato, nunca é assumido, sempre é escondido debaixo da mesa, e pior, quando a corda aperta, é o amante quem recebe um “foi bom enquanto durou”. Será que nossa democracia terá direitos a uma pensão? Difícil dizer, é costume de nossos tribunais entender que amantes não possuem a proteção na lei. Seria saudável que nossos amantes da Democracia regularizassem sua situação de adultério, pois o ordenamento jurídico brasileiro não dá garantias reais ao concubinato e muito menos permite a bigamia. Se a democracia é a amante, valha-me Deus saber então quem é o cônjuge legítimo.

Humores e ironias à parte, a democracia realmente tem caído na boca do povo ao invés de cair na consciência do cidadão, e pior, daqueles que o representam. Em um sistema político em que a própria política é por muitos, lastimavelmente, vista como profissão de carreira e palco para a prática da cultura da corrupção, não é de se espantar que a democracia seja não mais do que uma concubina.

Justamente por isso, uma simples e rápida reflexão sobre a evolução do casamento e das aventuras extraconjugais de muitos protagonistas noveleiros, quero dizer, politiqueiros, nos faz perceber que, pelo menos em matéria de política e cidadania efetiva, o casamento ainda é a instituição em voga, e a nossa democracia tem sido a melhor das pretendentes. Ainda bem que se acabaram os dotes.

*Marcos Vinícius Baccarini é de Belo Horizonte, graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Ativista dos direitos fundamentais. Acompanha os trabalhos do NesP (Núcleo de Estudos Socio Políticos) da PUC-MG.

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