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O carteado gaúcho

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 08/02/2010 18h05, última modificação 07/09/2010 18h06
Esta semana a sucessão gaúcha embaralhou-se novamente.

Esta semana a sucessão gaúcha embaralhou-se novamente. O fator principal para isso é entrada em cena do “trator federal”. Propiciada pelo prefeito de São Leopoldo, Ary Vanazzi (PT), a presença do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff desorganizou o jogo que os gaúchos vinham pensado em jogar. Lula e Dilma passaram o final da semana pavimentando o terreno para a sucessão presidencial. Na prática, passaram um trator no pampa gaúcho.

O Brasil no centro de tudo

Na sexta feira, Ary Vanazzi, prefeito de São Leopoldo, levou o presidente ao seu município, na região metropolitana de Porto Alegre, para inaugurar uma Estação de Tratamento de Esgoto e entregar as chaves de 600 casas populares. Um leque, disputado por quatro mil pessoas num calor senegalesco no ato de inauguração da Estação de Tratamento de Esgoto, dizia: “São Leopoldo é Brasil”.

No sábado, Vanazzi reuniu mais de 800 prefeitos, vereadores e apoiadores de diversos partidos no auditório da Assembléia Legislativa do Estado com Dilma Rousseff a pretexto de discutir o PAC 2.

Lula já tinha ido mais de vinte vezes a São Leopoldo pedir votos. Nunca tinha ido como presidente. Dilma tinha ido diversas vezes ao Estado como ministra, mas nunca para reunir com os prefeitos e muito menos para encontrar-se com o prefeito de Porto Alegre e sinalizar que gostaria de ter o seu apoio e freqüentar o seu palanque nas eleições para o governo do Estado.

Fogaça, tendo conversado longamente com a ministra, não foi ao encontro público no sábado com os prefeitos, mas seu vice, José Fortunatti, representou o município num sinal de boa vontade e aproximação.

Para Ary Vanazzi, que disputou prévias com o ministro Tarso Genro para ser candidato a governador, o final de semana foi pleno. O resultado possivelmente seja uma alteração importante na cena política gaúcha e um reordenamento das alianças e projetos partidários.

Vanazzi trouxe a política nacional para o Rio Grande do Sul. Se isso vai implicar em dar maior racionalidade à política gaúcha ou não só o tempo dirá. Mas o fato é que, a partir deste final de semana, os políticos gaúchos não poderão mais negar a existência da política nacional e a necessidade de levá-la em conta em seus movimentos.

Rodada de blefes

Política é como nuvem. Você olha, ela está de um jeito. Olha de novo, ela já mudou. Alguns atribuem a frase a Magalhães Pinto, outros a Tancredo Neves. De qualquer modo, ela seria mineira.

No Rio Grande do Sul, mudaram-lhe o sentido e o objeto direto. Aqui, a política virou carteado. Você olha, pensa que entendeu. Olha de novo, vê que todos estão blefando. A frase mineira apontava a dinamicidade da política. Que alguns interpretam como defeito. Outros como virtude. A prática gaúcha indica outra coisa. No Rio Grande, estamos sob o império da ausência de projetos, da falta de objetivos políticos maiores. Vivemos, por assim dizer, a privatização rasteira da política e do Estado. Todos blefam o tempo todo e o resultado final só Deus sabe qual vai ser.

Fogaça no olho do furacão

Quando parecia que o campeonato estava se organizando, neste mês de fevereiro o jogo está sendo zerado de novo. Em janeiro, tudo indicava para uma aliança PMDB-PDT, com Fogaça como candidato a governador e Pompeu de Matos candidato a vice. Esta equação implicava em José Fortunatti (PDT) assumir a prefeitura de Porto Alegre e tornar-se candidato natural à reeleição. Também isolava o candidato do PT, Tarso Genro, no canto do ringue e apontava para um favoritismo de Fogaça logo ali na frente. O único problema que parecia restar era a insistência do PDT para que Fogaça deixasse claro o apoio à candidata do governo federal, Dilma Rousseff, à presidência.

No final de janeiro, PMDB e PDT marcaram um almoço para selar o acordo. No almoço, o PMDB mudou tudo, disse que o tema do vice deveria ser discutido com todos os aliados, Com isso, na prática os trabalhistas saíram de mãos abanando.

Na verdade, no PMDB de Pedro Simon, uma maioria resiste a acompanhar a direção nacional do partido e (já se sabe) pode até formalmente apoiar Dilma, mas dificilmente fará campanha. PMDB e PT sempre foram adversários no Estado e o PMDB (exceto por exceções como o deputado Mendes Ribeiro e o ex-governador Germano Rigotto) não engole o PT de jeito nenhum. No PMDB, é aventada a hipótese, inclusive, da candidatura de Rigotto ao senado ser desbancada por Eliseu Padilha, apoiador aberto da candidatura José Serra. Este setor, aliás, teria pressionado contra a aliança com o PDT nos termos em que ela vinha sendo costurada.

A resistência existente no PMDB teria se somado outro tipo de problema. No PDT, o deputado Vieira da Cunha alimenta o sonho de ser prefeito da capital. Ao firmar o acordo com Pompeu de Matos como vice-governador, a reeleição de Fortunatti na prefeitura aparecia como natural. Ou seja, Vieira da Cunha teria de abandonar seu objetivo por muitos anos. O resultado foi o surgimento nas últimas semanas de uma série de notas na imprensa trabalhando para desmerecer o nome de Pompeu dentro do PDT.

Porto Alegre é demais

Se Vieira da Cunha (PDT) e Eliseu Padilha (PMDB) operam nos bastidores, o que dizer de Sérgio Zambiasi, que é especialista no assunto?

O senador do PTB gaúcho já anunciou que não será candidato a reeleição. Mas até agora não disse o que pretende fazer. Nos bastidores, todos sabem que Zambiasi quer ser prefeito da capital. Para atingir este objetivo, o PTB estaria disposto inclusive (conforme fontes próximas ao partido) a colocar o senador na chapa ao governo do Estado ao lado de Fogaça. Uma chapa Fogaça – Zambiasi é vista como imbatível nos meios políticos. O PDT, que até agora vem se colocando como fiel da balança, perderia seu valor. Poderia até apoiar Tarso Genro, como é o objetivo de sua direção nacional, sem que isso afetasse o favoritismo da chapa PMDB-PTB.

Este movimento teria contribuído de forma decisiva para o PMDB recuar do que vinha acordando com o PDT. Como vice-governador, Zambiasi poderia candidatar-se a prefeito de Porto Alegre, desbancando Fortunatti até mesmo se esse viesse a contar com apoio do PT.

No fundo de tudo, os partidos e políticos gaúchos estariam todos disputando a prefeitura de Porto Alegre e não propriamente o governo do Estado. Só Tarso e Fogaça estariam preocupados em disputar o Rio Grande. E num quadro em que o governo federal gostaria de vê-los unidos.