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Protestos

O Brasil não é a Síria

por Thiago Foresti — publicado 26/06/2013 16h01
Jogar toda a culpa no presidente democraticamente eleito é, além de injusto, um atestado de burrice
Wilson Dias/Agência Brasil
Protestos em Brasília

Manifestantes se reúnem para discutir os rumos das mobilizações na cidade

Por mais que os protestos sejam um curso intensivo de política aplicada, é ingenuidade achar que o brasileiro, tão desacostumado com a vida pública, saiba exatamente o que reivindicar. Muitos que vão às ruas acreditam, numa mistura de senso comum com experimentação empírica, que a maioria dos políticos é corrupta e ineficiente, mas são poucos os que apontam fatos concretos e exigem mudanças consistentes. O resultado disso é uma massa perdida arrastada apenas pela indignação e uma perspectiva vaga de melhora.

À medida que o caldo engrossa é cada vez mais comum vermos a população pedir a cabeça da Dilma Rousseff, símbolo máximo de poder no imaginário da população. O problema é que o Brasil não é a Tunísia, Egito, Síria ou qualquer desses países tomados pela Primavera Árabe, com liberdades civis reduzidas e ditadores no poder. Faz mais sentido reunir todo mundo em volta do objetivo comum de guilhotinar uma cabeça quando toda a vida da nação passa pelas mãos de um déspota. Mas no Brasil gozamos de uma República Federativa presidencialista, com voto popular e de um Judiciário e um Legislativo independentes. Jogar toda a culpa no presidente é, além de injusto, um atestado de burrice.

Neste momento de crise, quando todos fazem média com os manifestantes e tiram o corpo fora, a batata quente arde no colo da presidenta. É óbvio que em seu último pronunciamento, no qual anunciou os cinco pactos pelo Brasil, com uma cara de quem não dorme há dias, Dilma estava, no fundo, devolvendo a batata quente para o Congresso, lugar de onde nunca deveria ter saído. O problema é que, em invés da classe política se envolver nesse projeto de reforma, as críticas e comparações com a Bolívia e a Venezuela começaram antes do fim do pronunciamento.

É mais do que óbvio que reformar a política no Brasil é a grande solução. Mas por que a proposta está no Congresso há mais de 15 anos sem ser votada? Por que os deputados não foram capazes de votar e resolver de uma vez esse problema? E principalmente, por que tanto medo de um plebiscito?

Talvez a proposta seja arrojada demais para uma população que só começou agora a ir para as ruas e está ainda aprendendo sobre política, mas um plebiscito para uma reforma política resultante dessa “Revolta do Basta” seria uma das coisas mais interessantes presenciadas pela população nos últimos tempos e poderia colocar o Brasil como responsável por dar à luz essa nova política que há anos já sofre com as dores do parto ao redor do mundo.

Se deixássemos o medo do retrocesso e do autoritarismo de lado poderíamos iniciar uma discussão política séria, com participação popular efetiva. Nesse mundo hiperconectado quem precisa de partidos políticos e figuras representativas no Legislativo quando tudo pode ser feito por grupos instrumentados?

Temos a chance de riscar essa corja de parlamentares caros e ineficientes do mapa e elaborar projetos em formato wiki, colaborativos, com comissões populares. Seria a inauguração de uma verdadeira democracia 2.0.

Mas ao que tudo indica, a presidente voltou mesmo atrás na ideia do plebiscito. O que seria a grande novidade política da década vai ficar só na promessa. Provavelmente Dilma foi aconselhada por “analistas” do primeiro escalão, gente que analisa essa revolta toda da semana passada como apenas como mais um carnaval fora de época. Coisa pouca, passageira, nada que valha o enorme esforço de mexer em algo tão contencioso... E assim, mais uma vez o país perde o bonde da história.

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