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O Brasil, além dos calotes

por André Siqueira — publicado 14/12/2010 17h03, última modificação 14/12/2010 17h24
"A Longa Estrada da Dívida", de William Salasar, garante ao leitor uma boa viagem, ainda que a jornada termine antes do esperado. Por André Siqueira

"A Longa Estrada da Dívida", de William Salasar, garante ao leitor uma boa viagem, ainda que a jornada termine antes do esperado

O jornalista William Salasar é figura conhecidíssima nas redações de economia brasileiras. Não só pelos mais de trinta anos no ofício de repórter, mas pelos tantos outros à frente da comunicação da Febraban. Convivemos em três ocasiões – ele foi duas vezes meu chefe, e também colega de turma da pós – o que dá um gosto especial e acrescenta uma dose de responsabilidade a este texto. Posso afirmar que o Sala entende do mercado financeiro como poucos na profissão (e da área cambial como nenhum outro) e não faria feio em seu livro de estréia.

"A Longa Estrada da Dívida" vale muito, antes de tudo, pelo registro histórico das finanças públicas brasileiras, feito em linguagem leve, sem perder em substância. A leitura é importante, sobretudo, para o leitor mais jovem, que somente começou a acompanhar a trajetória da economia nacional depois que o monstro da dívida foi substituído pelo da inflação. Ou ainda, mais recentemente, quando o dragão cedeu lugar às críticas aos elevadíssimos juros.

Os contemporâneos do autor certamente vão gostar de relembrar as peripécias da economia brasileira, do milagre ao ocaso da ditadura, e nossos primeiros passos, tortos e cambaleantes, nos primeiros dez anos de democracia. E todos, jovens e nem tanto, vão se deliciar com os relatos de bastidores da vida de repórter que pontuam cada capítulo. Alguém por aí imaginava que havia uma relação entre o garimpo de Serra Pelada e a dívida externa?

Fica mais fácil entender, ao sorver um pouco da experiência de um tarimbado jornalista econômico, porque muitos dos nossos medalhões da imprensa se arrepiam da palma à alma diante de qualquer política que soe minimamente heterodoxa. Só quem experimentou os anos de inflação (antes que alguém pergunte, eu estava na faculdade à época do Plano Real) deve saber o quanto é desesperador ver o País aventurar-se de pacote em pacote até render-se diante das exigências internacionais e engolir o chamado tripé macroeconômico – que muitos ainda hoje insistem em creditar à criatividade de meia dúzia de “gênios” da PUC-Rio.

Vem justamente dessa visão meio escaldada pelo passado uma importante lacuna deixada pel’A Longa Estrada. E que permite cobrar do autor pelo menos mais 50 suadas páginas na segunda edição. Embora a adoção do triunvirato responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante tenha marcado o início do fim do endividamento externo brasileiro, a derradeira prestação da dívida líquida não foi paga na era FHC. Aliás, os pagamentos das últimas faturas foram feitas sem recorrer à venda de estatais ou a arrochos salariais.

No alerta para o risco de “o Ipatinga voltar a cair para a segunda divisão”, vejo um Gustavo Franco menos sarcástico (como diz o autor) do que autodepreciativo – afinal, foi ele quem deixou o País quebrar antes de desvalorizar o real, reeleger FH e perder o emprego no Banco Central.

Por mais que Salasar faça ressalvas e justifique-se por só ter conversado com economistas dos governos passados, a boa vontade (e a honestidade ao narrar adoção forçada da flutuação cambial – a terceira perna do tripé em 1998) não basta para evitar que o livro, em dado momento, recaia na falácia de que todo o sucesso econômico brasileiro se deve à política dos anos FHC, a sólida base que, para a oposição saudosa, teria sobrevivido com Lula e apesar de Lula.

Vide a contribuição de Maílson da Nóbrega à obra: “O governo Lula deu sua contribuição ao processo ao decidir manter a política econômica herdada, apesar de ele ter passado 25 anos prometendo mudá-la se chegasse ao poder.” Esse tipo de declaração soa, nos dias de hoje, como dizer que todos os presidentes devem seus feitos à herança republicana do Marechal Deodoro da Fonseca. Se o leitor ainda tem estômago para mais uma metáfora, é como ignorar que, sobre uma mesma fundação, podem ser erguidos tanto um palacete como uma meiágua.

É uma pena que tantos cérebros experientes (e agora não me refiro exatamente ao livro, mas às incontáveis análises da era Lula que ainda vamos ser obrigados a ler neste fim de ano) percam tanto tempo em analisar a continuidade, e não as diferenças, dos dois últimos governos. O estímulo à demanda interna (por meio dos programas de realocação de renda), o reforço à imagem institucional no exterior, a redução consistente dos juros (ainda que, graças a Henrique Meirelles, em um ritmo desnecessariamente lento), o espetacular drible na crise de 2008 (enquanto criávamos nosso fundo soberano) são só alguns dos fatores que deveriam, sim, ser relembrados e analisados em uma obra que se propõe os últimos passos de nossa finada dívida líquida externa.

Não peço loas à gestão econômica lulista. Até porque cabem muitas críticas ao que tem sido feito – que o Sala, com sua bagagem, as faça com o charme que lhe é característico (e que pode ser visto, em boa medida, nesta primeira aventura literária). Essa lacuna não tira o mérito d’A Longa Estrada da Dívida, que traz um bom retrato da economia brasileira e recorre às melhores fontes (de Celso Furtado a Paul Krugman).

Fica a esperança de que a estrada ganhe alguns quilômetros numa segunda edição. Tanto para explorar melhor as conversas do autor com os economistas (ficaria feliz em ver alguém como Luiz Gonzaga Beluzzo, Luciano Coutinho, Mantega ou até o Pochmann por lá também), como para oferecer ao leitor uma narrativa crítica, sem precisar fugir ao ritmo do resto da obra, dos últimos anos da política econômica tupiniquim. Mãos à obra, Sala!

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