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O blecaute, o aquecimento global as metas de carbono do Brasil

por Ricardo Young — publicado 16/11/2009 15h21, última modificação 08/09/2010 15h23
Quanto mais o tempo passa, mais tenho a convicção de que pertenço a uma geração privilegiada de brasileiros.

Quanto mais o tempo passa, mais tenho a convicção de que pertenço a uma geração privilegiada de brasileiros. Uma geração que sobreviveu à ditadura militar, à inflação alta, a quatro longas recessões, a três quebras do país e a alguns eventos menos graves como o racionamento de energia de 2001 e o blecaute de terça-feira, dia 10 de novembro.

Sim, porque talvez nós dessa geração sejamos dos poucos seres humanos que pudemos vivenciar na prática alguns dos cataclismas previstos nas teorias sobre as conseqüências das mudanças climáticas.

Se não há mais tempo para evitá-las, podemos ao menos torná-las menos catastróficas. E é este o sentido de toda a discussão sobre metas de redução de carbono que ocorre no Brasil e em todos os países do mundo.

O governo finalmente assumiu “objetivo voluntário e consensual” de reduzir as emissões do país entre 36 e 38,9% até 2020. Uma atitude ousada, porque implicou enfrentar alguns setores industriais poderosos que ainda não perceberam a gravidade da situação. Estamos diante de um fenômeno sistêmico cujas manifestações, ainda embrionárias, já deram mostra do seu poder de desorganização da sociedade.

Estas forças sociais se prevalecem do fato de termos uma dificuldade, diria genética, de imaginar tragédias. Talvez por isso os interesses particulares se sobreponham às necessidades da humanidade. Não é só o Brasil que teve dificuldades em aprovar metas. Os países mais industrializados, e com maiores índices de emissões de carbono, também tergiversam sobre o assunto, como se não fosse com eles – e, principalmente com eles o desafio de reverter o quadro de destruição que se avizinha.

De qualquer forma, mesmo sem chamar de “meta” o governo brasileiro anunciou um número concreto para corte de emissões e levou em conta, para isso, uma estimativa de crescimento anual de 5 a 6%.

Com isso, poderemos chegar a 2020 com o mesmo volume de emissões de 2005.

Objetivo ou meta, a redução de carbono tem impacto na vida dos brasileiros. Vai exigir mudanças nos processos industriais, nos hábitos de consumo, no modo de vida em geral. Algumas profissões podem desaparecer, algumas práticas empresariais também. Por isso, de acordo com o governo, a definição desta meta-objetivo foi feita em conjunto com empresários, trabalhadores, cientistas, ONGs e órgãos do governo federal.

Concretizar a redução de 38,9% pode não ser tão complicado assim. Metade disso será alcançada com a queda em 80% do desmatamento. Os outros 20% dependem de esforços na pecuária e na indústria.

Pecuária sustentável exige mudança de algumas práticas rurais centenárias no Brasil. Uma delas é a criação extensiva, raiz do desmatamento. Outra é o uso de trabalho análogo à escravidão. Produção industrial sustentável, por sua vez, está na razão direta dos investimentos em inovação e tecnologia, numa dimensão que nosso país nunca teve.

Tomara que, agora, o governo trate este “objetivo voluntário” com o mesmo empenho com que cuida da meta da inflação, diga-se de passagem, outro “objetivo voluntário e consensual” do país. Se há tantas medidas macro e microeconômicas para controlar a inflação, por que não fazer o mesmo com a redução de carbono?

Copenhague está chegando e seria bom que, no melhor espírito voluntário deste debate, governos, pecuaristas e industriais, bem como setores da sociedade civil ainda refratários às evidências, entendessem que o Brasil já perdeu muita floresta, o mundo está esquentando e que nenhum país vai comprar produto que venha de desmatamento ou de indústria altamente poluidora.