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O Bispo e a Rainha

por Redação Carta Capital — publicado 28/02/2013 12h05, última modificação 28/02/2013 12h28
Nomeação de secretária "ficha-suja" para a Cultura leva Dom Pedro Casaldáliga a pedir a retirada de seu nome de premiação

 

Por Thiago Foresti

Em tempos de renúncia e crise no Vaticano, um bispo de 85 anos de São Felix do Araguaia, região remota no interior de Mato Grosso, oferece um exemplo de força e coragem ao escancarar uma antiga mazela social dentro de seu estrato social mais obscuro: a política.

Dom Pedro Casaldáliga, nascido em Balsareny na Espanha e nomeado bispo prelado de São Felix do Araguaia em 1971 pelo papa João Paulo VI, tem uma biografia fortemente ligada à luta contra o trabalho escravo. Sua militância no tema é tão grande que a Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Mato Grosso (COETRAE-MT) resolveu homenageá-lo neste ano e colocou seu nome em um importante prêmio nacional de jornalismo.

A escolha não poderia ser mais acertada. Com o intuito de informar e combater essa prática tão recorrente e perversa nos rincões do Brasil, a Comissão provavelmente não sabia, mas estava armando a jogada para que o bispo colocasse em xeque a peça de maior valor relativo do tabuleiro rival: a rainha.

Acostumada a transitar livremente pelo tabuleiro, Janete Riva é mulher do presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, José Riva (PSD), que está no cargo há mais de 10 anos e parece gozar de uma prerrogativa vitalícia, concedida apenas a reis e papas. Como rainha, Janete foi presidente da Sala da Mulher da Assembleia e organizava festas e eventos de destaque em Cuiabá. O status de esposa do rei permitiu com que Janete transitasse tranquilamente entre vida pública e privada sem ser incomodada.

Como latifundiária da fazenda Paineiras, de sete mil hectares em Juara, foi posta duas vezes em xeque nos últimos anos. A primeira durante a operação Jurupari, da Polícia Federal, que constatou extração e transporte de madeira ilegal na fazenda em 2009. A segunda foi no ano passado, quando seu nome entrou para a lista-suja do trabalho escravo após ser flagrada, na mesma fazenda, com sete trabalhadores em situação análoga à escravidão. Mas as ações não ameaçaram o reinado de Janete, que continuou a se movimentar livremente pelo tabuleiro e neste ano foi nomeada secretária de Cultura do governo do estado.

Mas foi justamente essa última movimentação que abriu caminho para o bispo colocar a rainha mais uma vez em xeque. Em uma mensagem simples e direta, ele protocolou a seguinte nota oficial na Casa Civil de Mato Grosso: “Considerando que a fazenda de propriedade da secretária de cultura do estado de Mato Grosso, Janete Riva, consta da Lista Suja de Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho, eu peço que meu nome seja retirado do prêmio do concurso de jornalismo organizado pela COETRAE/MT”.

A atitude do bispo repercutiu nas mídias sociais e reverberou na sociedade civil mato-grossense, abrindo uma crise institucional. Aproveitando a oportunidade, o Fórum de Direitos Humano de Mato Grosso e mais 41 organizações protocolaram um pedido de exoneração imediata de Janete Riva da Secretaria de Cultura.

Se a intenção era combater o trabalho escravo através de sua exposição na mídia, a COETRAE não poderia ter feito uma escolha mais acertada. A “renúncia” do bispo foi um prato cheio para a imprensa local e mídias sociais e serviu para colocar o trabalho escravo novamente em pauta.

Mesmo que a movimentação do bispo não resulte no tão aguardado xeque-mate, ele fecha o cerco em torno de uma dinastia antiga e perene no estado de Mato Grosso. Quem é fã de xadrez sabe que nem sempre é fácil. É preciso uma grande confluência de peças se arquitetando conjuntamente combinada com bastante estratégia. Casaldáliga, no alto de seus 85 anos, mostrou ainda ter estratégia de sobra para jogar seu jogo favorito: o de combater o trabalho escravo.

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