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O aniversário de Fukushima e a usina nuclear no Brasil

por Ildo Sauer — publicado 15/03/2012 15h21, última modificação 15/03/2012 15h28
O Brasil está investindo em energia nuclear. No entanto, temos muitas lições a tirar de Fukushima para as usinas de Angra

Após duas décadas de hibernação dos planos nucleares, no final do governo anterior foram anunciadas a conclusão de Angra 3 e mais quatro usinas, possivelmente às margens do Rio São Francisco. A previsão de investimento é da ordem de 8 a 10 bilhões de reais por unidade, atingindo 40 a 50 bilhões para a instalação de 6.800 MW. A decisão e esses planos merecem uma profunda reflexão por dois fatos: a disponibilidade de recursos energéticos e capacidade tecnológica e humana brasileira para atender as necessidades desenvolvendo alternativas com impactos, riscos e custos muito inferiores; e a análise da catástrofe de Fukushima, com suas lições e implicações para os projetos propostos para o Brasil, especialmente por revelar que  Angra 3 não está livre de riscos semelhantes.

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O País dispõe de capacidade tecnológica, de recursos humanos e de um conjunto de recursos naturais para expandir a oferta de energia elétrica. Eis o valor, em dados aproximados: 150.000 MW de potencial hidráulico remanescente, em adição aos 100.000 MW já desenvolvidos e em desenvolvimento; 143.000 MW eólicos; 15.000 MW de biomassa, mormente bagaço-de-cana; 17.000 MW em pequenas centrais hidrelétricas; 10.000 MW em cogeração e geração descentralizada por gás natural. Tudo isso afora as possibilidades decorrentes da re-potenciação e modernização de usinas antigas e dos programas de racionalização do uso de energia. A energia eólica vem apresentando uma curva de aprendizado tecnológico notável, no mundo e no Brasil, conforme demonstrado pelas contratações recentes, com custos declinantes, já competitivos com a opção nuclear.

A própria opção fotovoltaica, conectada à rede de distribuição, tende a repetir o sucesso da eólica. Várias combinações entre estes recursos são possíveis para suprir a energia disponibilizada pela alternativa nuclear proposta, todas elas com custos de investimento inicial de cerca da metade da opção nuclear, economizando mais de R$20 bilhões em investimentos para o mesmo benefício energético. Os recentes leilões de energia hidráulica e eólica confirmam que seus custos de geração, sem subsídios, são cerca da metade da opção nuclear. Uma diferença adicional: os recursos renováveis (majoritários nesta proposição) prescindem de combustível, ao contrário dos projetos nucleares propostos, que deixam ao final de sua vida útil uma herança de cerca de 1.000 toneladas de combustível irradiado a exigir custos e cuidados por centenas de anos se desmontados e reprocessados, e, por milhares de anos quando estocados intactos.

O desenvolvimento de 70% da capacidade hidráulica e 50% do potencial eólico permitiria gerar anualmente cerca de 1,4 bilhão de MWh vindas de fontes inteiramente renováveis, produção superior ao 1,1 bilhão de MWh requerido para atender a demanda brasileira prevista para a década de 2040 (considerando uma duplicação do consumo per capita anual, para 5 MWh, semelhante ao padrão atual da Itália e Espanha) quando, segundo o IBGE, a população  se estabilizará em torno de 220 milhões. Há uma tendência natural de complementaridade das disponibilidades energéticas entre os ciclos hídrico e eólico. Além disso, eventual complementação com usinas térmicas, com suprimento flexível de combustível para operação em períodos hidro-eólicos críticos, permitiria aumentar a confiabilidade e reduzir custos.

Muitos fatores desempenharam um papel no acidente Fukushima, mas em última análise, a catástrofe foi conseqüência de pressupostos errados, um local perigoso, tecnologia nuclear superada, análise de segurança insuficiente e falta de supervisão e controle por autoridade de segurança nuclear independente. Minuciosa investigação, desenvolvida sob a liderança do Dr. Francisco Correa revelou que todos esses fatores de risco também estão presente no projeto de Angra 3. Como conclusão, um cenário de acidente catastrófico para esta usina não pode ser ignorado ou menosprezado:

1) No licenciamento de Angra 3, a Eletronuclear apresentou dados inadequados e não avaliou quantitativamente as frequências possíveis, conseqüências e os riscos para um conjunto representativo de sequências de acidentes. Esta avaliação é essencial para saber os reais riscos do projeto e para planejar cenários de emergência realistas. Angra 3 não emprega a tecnologia disponível em reatores de terceira geração, como o reator de água pressurizada Europeu (EPR), que inclui quatro novos sistemas de segurança tais como: a dupla contenção, quatro sistemas redundantes de segurança ativa separados em quatro prédios auxiliares, dois dos quais com proteção contra impacto de acidente aéreo; um coletor central de núcleo do reator sob o vaso de pressão, capaz de retê-lo em caso de fusão, e outras características de segurança adicionais.

2) Eventos externos, como incêndios, explosões, terrorismo e impactos de avião não foram considerados adequada ou suficientemente pelo projeto. Porém, acidentes de avião, sabotagem ou terrorismo, por exemplo, poderiam causar incêndios ou explosões com impactos superiores aos previstos nos critérios de projeto de Angra 3. Os reatores brasileiros não estão preparados para este tipo de eventos e  não atendem os requisitos mais rigorosos que foram desenvolvidos na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York, nem mesmo as exigências que foram desenvolvidos depois de Three Mile Island em 1979. Angra 3 também não atende todos os requisitos de segurança aplicáveis ​​para seu reator de referência Grafenrheinfeld na Alemanha. Contenção de Angra 3 terá apenas metade da espessura de Grafenrheinfeld, proporcionando assim menos proteção em caso de eventos como uma explosão de hidrogênio ou um acidente de avião.

3) Com o longo período decorrido desde o início do projeto, mais de 20 anos, a Eletronuclear gastou uma grande soma para armazenar, fiscalizar e manter os componentes do reator importados para Angra. À medida que os critérios de amostragem utilizados para inspecção a focam apenas sobre os componentes principais, existe a possibilidade de que os componentes não incluídos nas inspeções tornem-se disfuncionais pelo envelhecimento, aumentando os riscos no início da operação da usina e na fase operacional.

4) É paradoxal e gera apreensão observar que sítio de Angra dos Reis não atende nem mesmo aos critérios que a própria Eletronuclear está usando atualmente para identificar locais adequados para as futuras usinas nucleares (como as propostas para o Nordeste). Os critérios em vigor excluem a locais em áreas propensas a deslizamentos de terra ou próximos de cidades densamente povoadas. Angra 3, no entanto, está localizado em uma área com encostas instáveis ​​e perto de uma cidade densamente povoada, Angra dos Reis. Estes novos critérios aprovados pelo próprio governo são uma admissão involuntária de que o Angra 3 não é local adequado para uma usina de energia nuclear.

5) Terremotos e tsunamis são eventos extremamente raros, especialmente no Brasil, mas a região entre São Paulo e Rio de Janeiro, onde Angra 3 está localizada, experimenta grandes e frequentes deslizamentos de terra e inundações em uma base regular, que podem desencadear eventos semelhantes aos ocorridos em Fukushima. Deslizamentos podem varrer e soterrar edifícios, pontes, estradas e outras instalações, podem causar falta de energia externa e a destruição do sistema de geração de diesel, e ainda impedir o acesso ao reator para o pessoal de emergência à usina de Angra,de forma semelhante à origem da catástrofe nos reatores de Fukushima. Deslizamentos são registrados desde o século 19, sendo notáveis os que precederam a grande ocupação humana e a urbanização atuais, como os 20 de Janeiro de 1859,  de 1944 e de 17 de Março de 1967.

6) A cultura de segurança no setor nuclear brasileiro também apresenta muitos problemas, como um conflito de interesses devido a uma mistura de responsabilidades da Comissão de Energia Nuclear (CNEN), responsável por fiscalizar e por promover a energia nuclear. Falta supervisão adequada no processo de licenciamento das instalações nucleares, incluindo a fiscalização para determinar se as condicionalidades são cumpridas ou cumpridas no tempo devido. O fato de que as condicionalidades muitas vezes não são cumpridas na totalidade ou são cumpridas com atrasos enorme experiência provavelmente também aumenta as consequências de um eventual acidente, de ações de terrorismo ou de sabotagem nas instalações nucleares em Angra.Para resolver esses problemas, as instituições reguladoras brasileiras, a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear)  e IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais), ou seus substitutos, devem ser independentes as regras, funções e competências de cada órgão devem ser claramente definidas. Esta não é a situação atual.

Países destituídos de recursos energéticos, como Japão, Coréia, França, e mesmo Índia e China, lançaram mão da opção nuclear como alternativa de suprimento energético primordial e agora, pós-Fukushima estão promovendo profundas revisões, e, como no caso do Japão e Alemanha debatendo o abandono definitivo da opção. Mas a dotação de recursos do Brasil permite outra estratégia e exige uma reflexão e debate mais profundos, inclusive sobre os benefícios da tecnologia e ciência nucleares. A construção de usinas nucleares, per se, não garante avanços significativos no domínio da tecnologia nuclear. A consolidação da capacidade nuclear brasileira, inclusive para geração elétrica, depende do planejamento, projeto, desenvolvimento e construção de reatores, especialmente de pesquisa, no País. Há dois projetos para cumprir este papel. O primeiro é reator experimental de 50MW, de iniciativa da Marinha, projetado e cujos equipamentos foram construídos e estão estocados, há 20 anos. Este deveria, finalmente, ser montado e operado, e ser adaptado para testar tecnologias inovadoras em segurança, como as incorporadas pelo EPR, por exemplo, o sistema de convecção natural para garantir o resfriamento do núcleo mesmo na ausência de energia elétrica. Outro é o reator de alto fluxo nêutrons, para teste de materiais, apoio a pesquisa na agricultura, biologia e medicina e, para produzir radioisótopos, hoje caros e em falta no País. O investimento estimado para os dois projetos é de cerca de R$ 1 bilhão, 5% dos custos economizados com cancelamento do plano atual de geração nuclear e sua substituição por outras fontes, renováveis, sustentáveis, sem incorrer nos riscos da operação das usinas, sem deixar como herança carga radioativa a exigir cuidados das gerações futuras. Está na ordem do dia debater o cancelamento de Angra 3, e utilizar os cerca de 8 bilhões de reais ainda não gastos de seu orçamento de forma mais eficiente para a população brasileira.

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