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O 2010 de Yeda Crusius

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 04/01/2010 18h08, última modificação 07/09/2010 18h09
A governadora Yeda Crusius está iniciando 2010 abandonada por quase todos que a elegeram no Rio Grande do Sul.

A governadora Yeda Crusius está iniciando 2010 abandonada por quase todos que a elegeram no Rio Grande do Sul. Tendo iniciado 2009 sob intensos ataques da oposição, em meados do segundo semestre Yeda tentou um projeto de recuperação política e de imagem, anunciando inclusive a disposição de disputar a reeleição. Para atingir esta meta, além de um conjunto de iniciativas políticas, como a consolidação de um acordo com o PP gaúcho, o PSDB contratou uma empresa de marketing, especializada em gestão de crises, para intervir no Estado. Entre os desafios que tinha, Yeda precisava recompor sua imagem, vinculada às ideias de conflito e incompetência política, sufocar as CPIs que buscavam reverberar as denúncias de corrupção em seu governo - algo que hoje alguns estimam em mais de 500 milhões de reais - e retomar a noção de estar realizando uma gestão bem sucedida através da apresentação de iniciativas e obras.

A operação de salvamento de Yeda Crusius foi atingiu sua meta apenas na anulação dos efeitos eleitorais superficiais da CPI da Corrupção. E isso somente porque a CPI atuou sobre um terreno já conhecido e consolidado na opinião dos gaúchos. Ao não ter nenhuma novidade importante para apresentar, a CPI pôde ser anulada pela maioria governista na Assembleia sem nenhum constrangimento. Na verdade, a reação de Yeda Crusius sobre o tema da corrupção foi tardia e, também por isso, ineficiente.

Mal de imagem

No que diz respeito a sua imagem e ao conceito de seu governo, Yeda inicia o ano derrotada. A pesquisa Datafolha de 22 de dezembro colocou seu governo com avaliação mais baixa que a do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM). A governadora ficou em décimo lugar, com nota 3,9 e 50% na soma dos conceitos ruim e péssimo. A pesquisa, ao mesmo tempo, indicava um empate, com 30% cada um, entre o ministro Tarso Genro e o atual prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, para sucedê-la em 2010. Em termos de intenção de votos, pela primeira vez Yeda aparece em quarto lugar, com 5%, atrás de Beto Albuquerque, do PSB, com 7%.

As avaliações para Yeda ter índices tão negativos vão desde uma suposta maior exigência ética dos gaúchos em relação aos seus governantes, diante da média brasileira, até a existência de um "espírito de grenal" na cultura política gaúcha, que impediria a viabilização de qualquer projeto.

A verdade, no caso, não parece residir nisto. Assim como uma pesquisa anterior, do Instituto Methodus, a pesquisa Datafolha não teve seus patrocinadores divulgados. Tanto Fogaça, quanto Tarso, trataram de tomar distância e minimizar seus efeitos. Como o grupo Folha vem tendo uma orientação pró-Serra, o mais provável é que a pesquisa seja uma nova sinalização no sentido da governadora abandonar os sonhos de reeleição, para não prejudicar o candidato tucano. Com Yeda candidata, seria muito difícil para Serra buscar o apoio entre as forças que estão em torno ao prefeito de Porto Alegre, principalmente no primeiro turno.

Mal de governo

Yeda, contudo, não inicia o ano apenas com um déficit de imagem. Inicia com um brutal problema político. No final de 2009, seu governo teve de recuar de dois projetos decisivos para sua gestão. Ao ver que não teria maioria para aprovar as reformas da Segurança e do Magistério, o governo do Estado retirou os projetos de votação. Com isso, ninguém mais acredita na possibilidade de Yeda obter liberação da segunda parcela de um empréstimo de US$ 1,1 bilhão do Banco Mundial. E sem esse dinheiro, o governo Yeda acabou.

Na prática, ainda que Yeda possua uma base disposta a defendê-la das acusações de corrupção na Assembleia (sendo que muitos parlamentares estariam atuando em causa própria), a governadora não tem uma maioria para apoiá-la em seus projetos. Com isso, o governo não cumpriu quase nenhuma das condições exigidas pelo Banco Mundial para liberar a segunda parte do empréstimo. E não deverá ser em 2010, um ano eleitoral, que Yeda Crusius vai impor sacrifícios aos gaúchos. Entre os itens previstos, estão a mudança nas carreiras e na previdência dos servidores (com a instituição de um gestor único da previdência, que deveria ser o IPE, para todos os poderes).

Incapaz de viabilizar suas ideias, Yeda inicia o ano sob o signo das piores práticas de governo que o Brasil já teve: Quebra dos contratos e financiamentos internacionais, e populismo irresponsável. Para resolver o problema de caixa, Yeda anunciou que vai usar 70% do fundo previdenciário de R$ 1 bilhão para obras nas estradas. Esse fundo, criado com a venda de ações do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, foi dito intocável quando da criação. Com o desbloqueio do dinheiro, a governadora pode ter resolvido seu problema imediato de recursos para alguns investimentos, mas este é um atalho que só vai aumentar os problemas do Estado.

O abandono em anúncio institucional

No dia 26 de dezembro, um anúncio institucional de página inteira, sob o título "O mundo está descobrindo o Brasil que você está ajudando a construir." apareceu no jornal Zero Hora. O texto do anúncio é o seguinte: "O mundo inteiro está descobrindo um país capaz de sediar uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, que conseguiu sair da crise mundial muito antes que os outros, e que logo vai estar entre as cinco maiores economias do planeta. Esse Brasil, que é feito por você e que o mundo está descobrindo agora, é o mesmo Brasil em que a gente sempre acreditou. Em 2010, descubra algo novo em você também."

Se você estiver pensando que este anúncio foi assinado pelo governo federal ou pelo PT gaúcho, lamento informar que você está enganado. De início, eu mesmo não acreditei. Até a primeira quinzena de dezembro, Zero Hora densenvolvia uma linha de combate virulento e muitas vezes rebaixado ao presidente Lula. Mas este anúncio foi assinado pelo Grupo RBS, dono do jornal Zero Hora, e não parece ser um ação publicitária de oportunidade. Aliás, ações institucionais como essa são raras no grupo e sempre sinalizam orientações de fundo.

O surpreendente na propaganda talvez não seja o seu conteúdo explícito, mas sua leitura implícita. Com o anúncio, a RBS, ao que tudo indica, está dando um adeus definitivo a Yeda Crusius. Depois de passar anos combatendo o governo Lula e tentando viabilizar o ajuste neoliberal da governadora, o grupo RBS pode estar vergando-se diante da realidade do sucesso do governo Lula e do fracasso de Yeda Crusius. Mais que isso, pode estar até inflexionando no sentido de apoiar a continuidade do governo federal, com a candidatura de Dilma Rousseff.

De fato, o anúncio do dia 26 foi confirmado por editorial no dia 27 e já havia sido precedido de uma guinada surpreendente no dia 22. Depois de passar semanas atacando Lula, Zero Hora colocou uma foto muito boa da ministra na capa sob a chamada "O novo visual da ministra candidata" e deu-lhe um tratamento positivo. A alteração de linha guarda relação com a leitura das próprias pesquisas. O governo Lula tem um dos seus piores desempenhos no Rio Grande do Sul, mas os índices de aprovação que obtêm na região metropolitana de Porto Alegre e no interior do Estado estão muito próximos da média nacional. O problema do governo Lula está na capital, que puxa para baixo seus índices.

A aprovação média de Lula no RS é de 58%, e em Porto Alegre é de apenas 45%. O pior lugar do mundo para Lula é Porto Alegre. Contribuem para esse conceito "crítico" eleitores de todos os campos políticos e ideológicos da capital gaúcha. Em Porto Alegre, esquerda, direita e centro se distanciam do governo federal em favor de suas próprias ideias, mas não conseguem viabilizá-las sequer no contexto municipal. O Estado hoje tem uma economia débil e um governo estadual desastroso, mas a principal debilidade econômica do Rio Grande do Sul (e ideológica) está em sua capital, cuja receita e capacidade de investimentos são declinantes há muitos anos. Num quadro de dificuldades, a tendência da sua ampla classe média, grande parte constituída de funcionários públicos de vários níveis, professores municipais, estaduais e federais, burocratas de alta estirpe, é operar de modo conservador, à direita, ao centro e à esquerda. Hoje, o Rio Grande do Sul é um Estado que perdeu a onda de crescimento do Brasil, e o carro chefe do trem descarrilhado é Porto Alegre.

Olhando 2010

Se, de fato, o grupo RBS aderir à tese da continuidade, isso não significa que os problemas do governo Lula tenham acabado no Rio Grande do Sul. Aliás, é possível até que eles verdadeiramente tenham início, dependendo de como isto venha a se processar. Uma das hipóteses recorrentes no Estado é que o grupo RBS faz tempo deixou de dar as cartas. Por estar perdendo audiência e leitores, e principalmente prestígio, dia a dia (tal como o PIG nacional), suas ações não estariam guiadas por uma estratégia ou convicção, mas pelo desespero da falta de recursos para dar conta dos compromissos no final de cada mês. Ao ver o caixa do Estado falido, o grupo RBS estaria se voltando rapidamente para o caixa federal.

Pode ser. E pode ser também que o Rio Grande do Sul não tenha grande importância no contexto nacional nos dias de hoje. Porto Alegre, menos ainda. Mas o governo Lula deveria se preocupar muito mais com o que está acontecendo por aqui. Porto Alegre tem tudo para ser o calcanhar de Aquiles dos sonhos de continuidade do governo federal. Yeda é um desastre estadual e Dilma Rousseff é um sucesso nacional. Mas se não tiver apoio em sua própria casa, como a mãe do PAC poderá pedir apoio na casa dos vizinhos?