Você está aqui: Página Inicial / Política / Números, erros e estatísticas

Política

Eleições 2010

Números, erros e estatísticas

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 29/09/2010 18h12, última modificação 06/06/2015 18h55
As pesquisas eleitorais apontam para uma decisão em primeiro ou segundo turno?
Números, erros e estatísticas

As pesquisas eleitorais apontam para uma decisão em primeiro ou segundo turno? Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Agência Brasil

Vamos ter um segundo turno na eleição presidencial? A quatro dias da eleição, a resposta é quase certamente não: Dilma Rousseff deve ser eleita com cerca de 54% dos votos válidos. Os dados da pesquisa Datafolha publicada dia 28, segundo os quais a candidata teria caído de 57% para 53% e 51% dos votos válidos em duas semanas, o que indicaria uma elevada probabilidade de segundo turno, estão provavelmente distorcidos.

Nas pesquisas que tem sido divulgadas para o público há três metodologias em jogo. A primeira, do Vox Populi, Ibope e Sensus, baseia-se em entrevistas em domicílios sorteados de modo a representar a população por critérios de renda, escolaridade e região. A segunda, do Datafolha, procura também entrevistar uma amostra representativa por critérios semelhantes, mas faz as entrevistas em “pontos de fluxo”, ou seja, busca pessoas em ruas e praças. A terceira, do tracking Vox/Band/Ig, faz entrevistas domiciliares diárias. São duas mil entrevistas com uma renovação diária de quinhentas delas. A cada quatro dias, toda a amostragem é renovada.

O método das entrevistas domiciliares, o mais trabalhoso, é geralmente considerado o melhor, pois oferece maior segurança de obter uma amostra realmente representativa.

O método do Datafolha é sujeito a distorção porque nem todos têm a mesma probabilidade de serem encontradas na rua. Jovens, pessoas que trabalham em escritórios e comércios centrais e pessoas que fazem compras diárias saem com mais frequência. Idosos, pessoas que trabalham em fábricas ou no campo, ou fazem compras mais espaçadas, passam por esses lugares mais raramente. Isso induz um viés que pode ser importante, dependendo do perfil dos candidatos em jogo. Isso não é compensado por um número maior de entrevistas: isso apenas reproduzirá o viés.

O método da pesquisa telefônica também é notoriamente enviesado, ao excluir os que não têm aparelho. É usado não para dar um quadro preciso, mas uma indicação rápida das tendências gerais: quem sobe e quem cai. A prática é tradicional nas pesquisas privadas dos partidos, cuja prioridade e avaliar o mais rapidamente possível os resultados de sua propaganda.

As pesquisas Ibope e Sensus publicadas em 29 de setembro indicam, respectivamente, 54% e 55% dos votos válidos para Dilma, apesar de divergirem significativamente nos números de nulos e indecisos (a primeira dá 8%, a segunda 13%) e, portanto, na porcentagem dos votos para Dilma sobre os totais (50% e 47,5%, respectivamente). O tracking, que indica 56% na mesma data, não é comparável e serve apenas para indicar a direção. Teoricamente, o segundo turno é possível se praticamente todos os indecisos – 4% segundo o Ibope, 9% segundo Vox e Sensus – decidirem-se pela oposição, mas isso é muito improvável.

É verdade, de acordo com todas as pesquisas e o tracking, que a direção de Dilma tem sido de queda desde o auge do início de setembro. Em parte, isso decorre da campanha negativa promovida pelo PSDB e seus simpatizantes. Em parte, da mudança de qualidade dos indecisos: até meados de agosto, a maioria dos indecisos queria votar no “candidato do Lula”, mas ainda não tinha clareza de qual era. A partir de meados de setembro, trata-se de dúvida entre votar no governo ou na oposição, ou entre os principais candidatos de oposição – e, portanto, é menor a probabilidade de se definirem pela candidata governista. À medida que estes se decidem e aumenta o total de votos válidos, Dilma ganha menos e os oposicionistas – tanto Serra quanto Marina e os “nanicos”, a julgar pelo tracking – crescem proporcionalmente mais.

Mas além de ter um pequeno efeito líquido sobre os votos de Dilma, a campanha negativa tem outra consequência: polarizar a eleição. Ou seja, acirrar as diferenças sociais e regionais, de maneira a aumentar a proporção de votos da oposição nos meios em que ela já tinha alguma vantagem, mas também de incomodar indecisos e reforçar a decisão dos governistas onde Dilma tinha vantagem mais ampla. A oposição aumentou suas porcentagens nas classes de alta renda, enquanto o governo manteve ou aumentou a sua nas classes populares. Os mapas do Ibope também mostram tendência a uma regionalização um pouco mais definida.

Isso torna mais fácil manipular uma pesquisa escolhendo os lugares certos para se fazer uma pesquisa por “pontos de fluxo”, mesmo que os números em si não sejam fraudados. No caso do Datafolha, a pesquisa eleitoral foi associada a perguntas sobre o caso Erenice que poderiam induzir a resposta – embora essas perguntas tenham sido, ao menos em teoria, feitas depois de o entrevistado declarar intenção de voto. Também é peculiar que, contrariando os outros institutos e a tendência lógica, o número de indecisos, na pesquisa Datafolha, tenha crescido significativamente na reta final: de 8% para 11%. Na reta final, em que a oposição mais precisa de motivação, o Datafolha voltou a ser o ponto fora da curva, como também o foi no momento em que Serra estava oficializando sua candidatura e precisava desesperadamente de fôlego. Coincidência?

Leia também:

-

-

-

registrado em: ,