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Novo governo, velhos hábitos

por Rodrigo Martins publicado 18/01/2011 16h52, última modificação 19/01/2011 14h56
Eleito com a promessa de moralizar a política brasiliense após o escândalo que resultou na prisão de José Roberto Arruda, Agnelo Queiroz inicia o governo com polêmica nas nomeações
Novo governo, velhos hábitos

Eleito com a promessa de moralizar a política brasiliense após o escândalo que resultou na prisão de José Roberto Arruda, Agnelo Queiroz inicia o governo com polêmica nas nomeações. Foto: Agência Brasil

Eleito com a promessa de moralizar a política brasiliense após o escândalo de corrupção que resultou na prisão do ex-governador José Roberto Arruda, o petista Agnelo Queiroz parece ter iniciado sua gestão com o pé esquerdo. Convocou diversos secretários ligados às malfadadas administrações anteriores, permitiu o surgimento de vozes dissidentes dentro do governo – especialmente depois de alijar o senador aliado Cristovam Buarque (PDT) das discussões para a formação da equipe –, e já enfrenta protestos de moradores de cidades-satélites. A população mostra-se insatisfeita com a nomeação de gestores sem vínculos com as localidades e atrelados a deputados distritais das mais variadas matizes políticas. Entre eles, Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado, pivô da crise envolvendo a criação de cargos na Casa por meio de atos secretos.
Logo no primeiro dia do ano, cerca de 300 moradores de São Sebastião, cidade-satélite a 35 quilômetros de Brasília, protestaram contra a nomeação de Janine Barbosa, indicada por Agaciel, em frente ao Palácio do Buriti, sede do governo distrital. “Fomos traídos. Durante a campanha, Agnelo prometeu consultar os movimentos sociais e nomear um administrador que mora e conhece os problemas da cidade”, afirma a líder comunitária Sebastiana da Cruz, de 51 anos, durante uma reunião, na terça-feira 11, da Frente de Defesa Política de São Sebastião, que organizou a manifestação.
O movimento, criado em junho de 2010, chegou a elaborar um relatório de 294 páginas apontando os principais problemas da cidade-satélite, mas teme que o trabalho resulte inútil. “Temos uma população de mais de 100 mil habitantes e um único posto de saúde, que não atende casos mais complexos. A violência juvenil é altíssima e não há opções de lazer ou cultura”, comenta o professor de capoeira Cristino dos Santos Jr., o Cipó, que ensina artes marciais para 150 jovens de São Sebastião. “Moradores de pelo menos outras seis cidades-satélites estão insatisfeitos com essas nomeações, mas só começaram a se organizar agora. O governador veio aqui pedir o nosso voto e depois nos vendeu na Câmara Legislativa.”
Cristovam Buarque, que administrou o Distrito Federal entre 1995 e 1998, também protestou contra a nova equipe de governo. “Talvez eu tenha sido o mais aguerrido cabo eleitoral do Agnelo, mas ele me excluiu completamente das discussões. Chegou a me pedir indicações para a Secretaria de Educação, apresentei dois nomes e encaminhei outras três opções sugeridas pelo Sindicato dos Professores. Descobri pela tevê que o governador já havia feito sua escolha, uma professora da Universidade de Brasília que não conheço”, queixa-se o parlamentar. “O desrespeito é acintoso. As administrações regionais acabaram loteadas entre os deputados distritais. Se o governo já começa assim, o que garante que esses parlamentares não vão exigir mais? Haverá outro mensalão?”
Mas o que realmente tem causado desconforto, mesmo entre parlamentares petistas, é o perfil do secretariado, composto de pessoas ligadas aos ex-governadores Joaquim Roriz e Arruda. Alírio Neto (PPS), por exemplo, foi secretário de Justiça de Arruda e, agora, volta a assumir a pasta na gestão petista. Após deixar o cargo confiado pelo governador cassado, ele retomou seu mandato na Câmara- -Legislativa e chegou a chefiar os trabalhos da CPI da Corrupção no DF. Em sua rápida passagem pela presidência da comissão, o parlamentar suspendeu a investigação com base em uma interpretação judicial. Após sofrer ataques na imprensa, voltou atrás e abandonou o posto. A CPI passou a ser presidida por Geraldo Naves (DEM), outro aliado de Arruda.
Outra cria do ex-governador que volta à administração brasiliense é Luiz Carlos Pitman. Empresário da construção civil e ex-presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), estatal responsável pela venda de terrenos em Brasília, ele se elegeu deputado federal pelo PMDB e acaba de assumir a Secretaria de Obras. Sua indicação é creditada ao vice-governador, Tadeu Felipelli (PMDB), que foi casado com uma sobrinha de Roriz e construiu sua trajetória orbitando em torno dele.
Após romper com  o padrinho político no ano passado, Felipelli aderiu à coligação que ajudou a eleger Queiroz. Agora, segundo fontes ouvidas por CartaCapital, passará a ter influência decisiva na destinação de recursos para as principais obras do DF, inclusive os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Não é tudo. Newton Lins, secretário de Assuntos Estratégicos do novo governo, foi assessor jurídico do então senador Arruda na época da violação do painel da Casa, em 2001. Apresentou-se como candidato ao governo distrital, mas jogou a toalha e  apoiou Queiroz de última hora. Antes disso, negociara a adesão à candidatura Roriz.
Outras figuras que integram a nova equipe de governo não despertam desconfiança pela ligação com as gestões anteriores, e sim pelo currículo. Na Secretaria de Segurança Pública, por exemplo, o ungido foi Daniel Lorenz, ex-diretor de inteligência da Polícia Federal, acusado de ter vazado para a Folha de S.Paulo os trabalhos da Operação Satiagraha com meses de antecedência. A manobra permitiu ao banqueiro Daniel Dantas obter um -habeas corpus preventivo no Supremo Tribunal Federal antes da sua prisão, em julho de 2008. Lorenz sempre negou a autoria do vazamento. O delegado que conduziu o inquérito, Protógenes Queiroz, recém-eleito deputado federal pelo PCdoB, também acusou Lorenz, a quem era subordinado, de impor obstáculos ao trabalho de agentes da Satiagraha. Acabou afastado do caso pela cúpula da PF.
Na avaliação otimista do deputado distrital Israel Batista (PDT), a presença de secretários ligados às antigas administrações não deve interferir no futuro do governo. “Para se eleger, Agnelo precisou formar uma coligação muito ampla. Mas quem aderiu ao governo sabe que ele é um homem de esquerda e terá de rezar nessa cartilha. Quanto às nomeações de administradores regionais, considero normal que o governador distribua os cargos entre os partidos que o ajudaram a se eleger”, afirma o parlamentar, responsável pela indicação do único pedetista a assumir uma administração regional: o cientista político Marcos Woortmann, no Lago Norte.
Por meio da assessoria  de imprensa, o governador afirmou respeitar os questionamentos feitos pela população das cidades-satélites, mas ressaltou que se trata de um problema pontual, uma vez que apenas três dos 30 gestores escolhidos motivaram manifestações. Queiroz enfatizou que jamais alijou o senador Cristovam Buarque no seu governo. Apenas decidiu que, nas áreas de saúde, educação e segurança, consideradas prioritárias, escolheria nomes de perfil mais técnico e sem vínculos partidários.
Por fim, Queiroz disse que todos os secretários foram escolhidos com base na experiência profissional e na capacidade de gestão. “Quem compõe o governo está consciente de que não haverá espaço para velhas práticas. Ao sinal de qualquer irregularidade, não haverá condescendência e tolerância com quem quer que seja.”
A conferir.

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