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Ditadura

Nova versão sobre a morte de Fleury não faz sentido, diz biógrafo

por Matheus Pichonelli publicado 02/05/2012 19h45, última modificação 02/05/2012 19h56
O jornalista Percival de Souza lembra que delegado estava acompanhado na hora do acidente com lancha e 'pedrada' seria visível
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Capa da biografia de Sérgio Fleury, de Percival de Souza

O relato de um ex-delegado do Dops (Departamento de Operações Políticas e Sociais) do Espírito Santo promete mudar os rumos das versões oficiais sobre alguns dos mais misteriosos episódios da ditadura. Parte dos depoimentos feitos pelo ex-delegado Cláudio Antônio Guerra aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros foi publicada nesta quarta-feira 2 pelo portal iG. Entre as revelações, reunidas no livro Memórias de uma guerra suja, estão versões novas sobre o paradeiro de militantes, jornalistas e até de um dos homens-fortes do regime: o temido delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) de São Paulo.

Segundo o relato, a morte de Fleury foi queima de arquivo. Oficialmente, o delegado foi morto em um acidente com uma lancha em Ilhabela, litoral paulista, em 1979. De acordo com o ex-delegado do Dops capixaba, porém, o acidente foi provocado: Fleury sabia demais, não obedecia mais ninguém, e “tinha de morrer”. “Foi uma decisão unânime de nossa comunidade, em São Paulo, numa votação feita em local público, o restaurante Baby Beef”, afirma Cláudio Guerra. A versão, segundo o iG, é que Fleury foi dopado e levou uma pedrada antes de cair no mar.

Mas o relato, segundo o jornalista Percival de Souza, comentarista da TV Record e autor da biografia de Fleury (“Autópsia do Medo”, publicado pela editora Globo em 2000), não tem “sentido algum”. “Isso é totalmente inverossímil.”

Para ele, a versão da pedrada é “ridícula”. “Não havia nada na testa, na fronte, no rosto. Nada.” Na hora do acidente, lembra o jornalista, Fleury estava com a mulher. Tinha bebido demais antes de cair da lancha, conforme o inquérito ao qual teve acesso. “Na época todo mundo ficou com esse grilo. Quando soube da morte dele, a primeira coisa que me perguntei foi: ‘quem matou?’. Mas eu vi o inquérito sobre a morte dele, que ninguém tinha visto. Falei com o delegado de polícia (responsável pelo caso), e ele explicou o porquê de não ter havido a autopsia: ninguém queria traumatizar a família. Também falei com o marinheiro que o resgatou ainda com vida. Os cães do Fleury foram ao local, e olharam tudo. Todo mundo da equipe dele investigou. Ele estava no esplendor do poder na polícia.”

No livro recém-editado, Guerra aponta o nome dos militares que teriam comandado a operação para matar Fleury, entre eles o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, do Doi-Codi – recém-denunciado por crimes cometidos na ditadura. O biógrafo de Fleury afirma que o delegado era próximo da maioria dos agentes.

“Ele (Fleury) sempre foi um fiel vassalo do sistema. Não havia razão alguma para desconfiar de nada. Era super relacionado no Exército, na Marinha, na Aeronáutica. Não tinha como considerá-lo um inimigo em potencial. Se ele revelasse algo, seria incriminado por ele mesmo”.

Souza completa: “Quando o Fleury morreu, ele era diretor do Deic e o Erasmo Dias, de quem o Fleury era um vassalo, era o secretário de Segurança. Se tivesse arsênico, pedrada, o Erasmo iria mover mundos e fundos para descobrir. Foi ele o responsável pela carreira meteórica do Fleury na policia. Estavam em sintonia”.

Prova disso, completa o jornalista, é que todas as vezes que Fleury respondia a processo por suposto uso da força, ele listava como testemunhas os próprios oficiais das Forças Armadas. “A ligação era muito grande entre ele e todo o sistema. Isso não tem sentido.”

O biografo diz desconfiar também da participação de um delegado do Dops do Espírito Santo na história. “O Dops do Espirito Santo não tinha expressão alguma, nada, zero, nulo. Para meu livro, entrevistei 117 pessoas que considerava fundamentais. E só agora estou ouvindo falar nesse Cláudio Guerra.”

Cautela

Procurada após a reportagem, a procuradora da República Eugênia Fávero, uma das responsáveis pelas investigações sobre crimes da ditadura em São Paulo, afirma ter recebido com “cautela” o depoimento ao livro. Os relatos, diz, diferem das versões já levantadas pelo MPF mas, segundo ela, não são inverossímeis e devem ser levados em conta nas apurações feitas a partir de agora.

“Mas é ainda algo difícil de dizer porque não lemos ainda este relato”, afirma.

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