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No Mato Grosso do Sul, indígenas estão vivendo sob a mira de pistoleiros

por Adital — publicado 08/09/2010 10h15, última modificação 08/09/2010 10h15
Os malfeitores estão morando em pequenos acampamentos ao redor da comunidade e assim ‘ilhando’ os Guarani Kaiowá

Por Natasha Pitts*

O sofrimento dos indígenas do estado do Mato Grosso do Sul (MS) parece não ter fim. Após retornarem para suas terras tradicionais, no dia 17 de agosto, os Guarani Kaiowá da comunidade Y’poí, no município de Paranhos, estão vivendo cercados por pistoleiros, que impedem a entrada ou saída de qualquer pessoa da comunidade. Os indígenas estão sem acesso a serviços básicos como saúde e educação.

Após o Acampamento Terra Livre Nacional, instância máxima de decisão do Movimento Indígena Brasileiro, que neste ano aconteceu no MS, os Guarani, cansados de esperar por decisões que nunca são emitidas, decidiram retornar para sua terra tradicional e aguardar lá as deliberações sobre o processo demarcatório. Contudo, a ação trouxe ainda mais sofrimento para os indígenas, que agora vivem sob a mira de pistoleiros, contratados por fazendeiros da região.

"Na verdade, desde que os indígenas foram retirados de suas terras para que fosse iniciado o processo de demarcação, os fazendeiros mantêm as terras guardadas por seguranças. Logo após a entrada dos Guarani Kaiowá, estes seguranças fecharam as estradas de acesso à comunidade", esclareceu Egon Heck, coordenador do Regional Mato Grosso do Sul do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Segundo informe do Cimi publicado na última quinta-feira (2), os pistoleiros estão morando em pequenos acampamentos ao redor da comunidade e assim ‘ilhando’ os Guarani Kaiowá. Para amedrontar ainda mais, andam armados e fazem constantes ameaças à população indígena, além de impedirem a saída ou entrada na região. Deste modo, não é possível ter acesso a serviços básicos como saúde e educação. A água e a comida também estão escasseando e não há como procurar.

Alegando insegurança, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) não conseguiu ultrapassar a barreira e prestar atendimento aos indígenas, que estão vendo suas crianças adoecer sem que nada seja feito. Para Egon, o órgão está se deixando intimidar e falhando por não estar buscando apoio à comunidade.De acordo com o coordenador, apenas a Fundação Nacional do Índio (Funai) conseguiu romper o cerco e chegar até a comunidade, no entanto, o fato só aconteceu uma vez, pois o órgão também passou a alegar insegurança.

"O que está acontecendo é uma violação muito séria e grave aos direitos garantidos internacionalmente aos povos indígenas. É um absurdo chegar ao ponto de impedir a comunidade de ter acesso ao serviço de saúde. A fome também está chegando a esta comunidade, pois não há reserva de alimentos, já que os Guarani tiveram que levar o mínimo de coisas possível durante o retorno. Nós pedimos, pelo menos, condições de sobrevivência para os indígenas até que as instâncias responsáveis resolvam a questão da identificação", afirmou Egon.

Mesmo sendo evidente a gravidade da situação, nada foi feito. Diversas denúncias já foram remetidas ao Ministério Público Federal de Ponta Porã, à Funai e demais órgãos encarregados de segurança no Mato Grosso do Sul e ainda assim a situação continua sem resolução.

"Deixamos aqui um apelo humanitário pela vida tão abalada da maioria dos Guarani Kaiowá. Acreditamos que esta situação de expulsão, sofrimento e atentado à vida só será revertida se o governo federal se comprometer, ainda neste mandato, a finalizar e divulgar o relatório de identificação, que faz parte do processo de demarcação", finalizou Egon.

Caso Rolindo - Outra situação não resolvida e que até hoje causa sofrimento aos Guarani é a falta de notícias sobre Rolindo Vera. O professor, que se encontra desaparecimento há cerca de 300 dias, foi sequestrado junto com Genilvado Vera, seu primo, durante a retomada das suas terras tradicionais. Poucos dias após o sumiço, o corpo de Genivaldo foi encontrado dentro do córrego Y’poí. No entanto, sobre o paradeiro de Rolindo não se tem notícias até o momento. A família continua a esperar aflita por notícias, pois deseja, ao menos, receber o corpo, caso o professor esteja morto.

*Matéria originalmente publicada no site Adital

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