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Política

Romeu Tuma Jr.

No limbo dos acusados

por Sergio Lirio publicado 22/09/2010 14h46, última modificação 22/06/2012 15h33
O ex-secretário nacional de Justiça vive um drama: “Condenado in limine” na mídia, ainda espera que os acusadores provem seus supostos crimes
Romeu Tuma Júnior1

“Orquestração”. O objetivo, afirma Tuma Jr., seria barrar seu trabalho e atingir seu pai. Foto: Glaucio Dettmar

Desde maio, Romeu Tuma Júnior vive uma situação infelizmente corriqueira na vida pública brasileira. Acusado de fazer lobby na Secretaria Nacional de Justiça e de manter relações “suspeitas” com o chefe da “maior máfia chinesa” em atividade no País, Tuma Jr. viu-se obrigado a deixar o governo pelas portas do fundo. Durante quase um mês, o delegado civil de carreira foi exposto na mídia como se tivesse usado o posto para fazer tráfico de influência. As acusações provocaram a reabertura de uma investigação na Polícia Federal (ele já havia sido investigado e inocentado antes), de uma sindicância no Ministério da Justiça e apuração no Conselho de Ética do governo federal.

A agilidade da condenação midiática foi substituída pela lentidão das apurações oficiais. Quatro meses depois, o ex-secretário vive no limbo das honras destroçadas, impossibilitado de alardear sua inocência pelo fato de, até hoje, nenhum órgão que o investiga ter sido capaz de afirmar oficialmente se ele cometeu ou não um crime. Paulo Li, o amigo da família Tuma apresentado na imprensa como “megacontrabandista”, foi solto sem ser indiciado por contrabando. “Foi um julgamento político e serviu a interesses diversos”, diz o ex-secretário nesta entrevista a CartaCapital. “Queriam barrar o meu trabalho na secretaria e atingir a campanha do meu pai (o senador Romeu Tuma, candidato à reeleição no Senado). Mas afirmo minha inocência e tenho certeza de que, no fim, não restará uma única acusação contra mim.”

CartaCapital: Como andam as investigações a seu respeito?
Romeu Tuma Júnior: Está tudo parado. Ainda espero o pronunciamento do Conselho de Ética do governo e da sindicância do Ministério da Justiça. Eu mesmo pedi para ser investigado nessas instâncias. Até agora eles não se pronunciaram. A Polícia Federal anunciou que rea-briria um inquérito para me investigar, um negócio absolutamente incompreensível. Eu já havia sido investigado. Houve um inquérito que foi enviado à Justiça. Todos que eventualmente tinham alguma conta a prestar foram denunciados. Contra mim, nada. Não fui indiciado, denunciado ou processado. O Ministério Público Federal manifestou-se: segundo os procuradores, não havia nada contra mim. Desde o início coloquei-me à disposição da polícia, prestei esclarecimentos. Estranhamente, o meu depoimento não está nos autos. O criminoso foi vazar para a imprensa escutas telefônicas de um processo arquivado. O vazamento teve objetivos muito claros.

CC: Quais, na sua opinião?
RTJ: Em primeiro lugar, tirar-me das investigações que conduzia na Secretaria Nacional de Justiça contra o crime organizado e os que lavam dinheiro. Era uma junção de interesses diversos, mas especialmente de grupos financiadores de campanhas eleitorais. Falo da turma ligada aos caça-níqueis e dos interessados em aprovar um projeto no Congresso para anistiar a repatriação de dinheiro sujo enviado ao exterior. Há projetos de lei em tramitação nesse sentido e eu, à frente da Enccla (Estratégia de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro, cúpula formada por representantes de vários ministérios), me opunha frontalmente. Falo também do banqueiro Daniel Dantas, que teve milhões de dólares bloqueados enquanto o DRCI (Departamento de Recuperação de Ativos) esteve sob o meu comando. Coincidência ou não, logo após a minha saída do governo o Opportunity conseguiu desbloquear parte do dinheiro retido pela Justiça dos Estados Unidos. Não entendo o motivo de o Brasil não ter reagido. Outro objetivo claro era atingir politicamente o meu pai, o senador Romeu Tuma, por causa de sua acentuada atuação no Congresso no combate ao crime organizado e à corrupção. De certa forma, conseguiram. Meu pai ficou muito abalado. Seus problemas de saúde atuais (o senador, candidato à reeleição, está na UTI) tem a ver com essa história, com o que fizeram comigo.

CC: E quem forma esses grupos?
RTJ: Políticos, empresários, contraventores. E, no fim das contas, são todos beneficiários ou fonte de dinheiro, lícito e ilícito, para campanhas eleitorais.

CC: Ou seja, tudo teria muito a ver com sua atuação no DRCI.
RTJ: Não só lá. Na própria secretaria, no conselho antipirataria, no departamento de estrangeiros. Disseram que fiz uso político do DRCI, mas não trouxe ninguém de fora para o departamento ou para outros postos que tinha o direito de indicar. Escolhi dentro da estrutura existente no ministério. Fui muito pressionado para nomear advogados de fora e resisti. Como, então, fiz uso político? Foi o contrário. Atuei para reduzir a influência de interesses externos, principalmente no DRCI. Para quem não sabe, o diretor do departamento antes da minha chegada foi trabalhar para o Opportunity. E alguns funcionários faziam um jogo duplo: trabalhavam no órgão e davam dicas a empresas e empresários de como conduzir seus processos e reclamações lá. Quando assumi a secretaria, descobri que havia processos que o DRCI- mantinha na gaveta. Mandei investigar internamente o motivo de esses processos terem sido engavetados.

CC: A Polícia Federal de Luiz Fernando Corrêa agiu a favor desses interesses?
RTJ: Não posso afirmar isso. Mas posso dizer que parte da cúpula da PF agiu sem compromisso com os direitos constitucionais fundamentais e republicanos. Ela foi movida por interesses políticos e pessoais, subjugando o próprio Poder Judiciário e o Ministério Público. Vejo como uma ameaça ao Estado Democrático de Direito. É uma ação deletéria que, aos poucos, demole a boa imagem da instituição, em detrimento dos excelentes profissionais que lá trabalham, muitos dos quais discordam desses métodos.

CC: Que métodos?
RTJ: Hoje há grupos a trabalhar em prol de pessoas, não do Estado. Quem é da polícia como eu sabe que uma investigação tem de partir do crime para o criminoso. Atualmente, parte-se do suspeito para ver se existe um crime. Está errado. Muitas vezes prende-se um indivíduo e só depois vão buscar as provas de sua culpa. É preciso que alguém observe isso.

CC: Mas o Ministério Público não faz o controle externo da polícia?
RTJ: É feito com muita deficiência, especialmente no âmbito federal.

CC: Segundo o inquérito vazado, Paulo Li, seu amigo e de sua família, seria o maior contrabandista em atividade no Brasil.
RTJ: Não quero defendê-lo. Mas essa acusa-ção é mais uma aberração. Aliás, ele foi solto e ninguém noticiou. Faço uma pergunta: qual máfia do mundo foi descoberta sem querer? A PF diz que o chefe de uma máfia, da maior máfia, segundo eles, foi descoberto em um grampo. Assim. Qual é a estrutura dessa máfia supostamente comandada por Paulo Li? A polícia disse a jornalistas que ele era o maior mafioso do País, mas isso não está no inquérito. Disseram que ele era o maior contrabandista, mas ele não foi denunciado por contrabando. Qual é a história dessa organização mafiosa? Quem mais a integra? Em que área ela atuava? Qual era a sua natureza? Quais os seus ramos de atividade? Nada disso foi explicado e mesmo assim o chamaram de chefe de máfia. Havia um fundo político nessa história. Paulo Li era um líder comunitário e havia políticos na área dele que deveriam ter sido investigados por tentarem burlar a Lei de Anistia aos imigrantes. Os federais sabem disso.

CC: Alguém no Planalto trabalhou pela sua queda?
RTJ: Não vou citar nomes, mas certamente havia gente do governo no mínimo feliz com a minha saída.

CC: O que pretende fazer se, no fim das contas, o Conselho de Ética declarar não haver nada contra o senhor?
RTJ: Não preciso da definição do Conselho para reafirmar minha inocência. Repito: eu havia sido investigado e não se levantou nenhuma acusação contra mim. O vazamento dos diálogos, esses sim criminosos, tiveram o único objetivo de atingir a mim e à campanha do meu pai. Tenho 50 anos de idade e 32 de serviço público inquestionáveis. Como policial, mandei muita gente para a cadeia, mas posso dizer: alguns bandidos acabaram escapando por eu não ter conseguido provar seus crimes, só que nunca fiz ninguém passar pelo que passo. Tentaram me destruir. E esse sentimento de ser injustiçado, de perseguição política, é indescritível. Mas não vou descansar. Minha honra vale mais que a minha vida. Tomei as medidas possíveis. Ingressei com as devidas ações de reparação. Tenho tranquilidade e sei que meu julgamento é político. Digo, porém, que não é uma questão de ser absolvido ou não. Não serei nem julgado.

CC:
Por quê?
RTJ: Porque, se crime houve, foram esses vazamentos descontextualizados a jornalistas, essa forma de atingir sorrateiramente alguém que dedicou sua vida pública a combater o crime e atingir politicamente um homem honrado como o senador Tuma. Tentaram tirá-lo do cenário político nacional e isso só deve ter acontecido pelo fato de ele incomodar muita gente.

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