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Nem é preciso ter inimigos

por Eduardo Graça — publicado 06/05/2011 16h12, última modificação 09/05/2011 17h18
Sob o “aliado” Obama, os movimentos sociais estão cada vez mais acossados
Nem é preciso ter inimigos

Sob o “aliado” presidente Barack Obama, os movimentos sociais estão cada vez mais acossados nos Estados Unidos. Por Eduardo Graça, de Los Angeles. Foto: Eric Thayer/Getty Images/AFP

O 1º de maio não é tradicionalmente celebrado por aqui, mas, justamente por ser o Dia do Trabalhador em quase todos os cantos do planeta, foi a data escolhida pelas organizações trabalhistas voltadas para o direito dos imigrantes nos EUA para sua marcha anual. Em 2010, galvanizados pela lei anti-imigração aprovada no Arizona, cerca de 60 mil manifestantes desfilaram pelas ruas do centro da maior cidade da Califórnia, uma demonstração de força ausente na minguada concentração deste ano, incapaz sequer de ocupar a esquina da Broadway com a Rua 1, o marco final do protesto. A cena ilustra com precisão o momento difícil vivido pelos movimentos sociais organizados americanos, aparentemente abandonado por um governo que recebeu decidido apoio tanto das centrais sindicais tradicionais quanto dos grupos interessados em uma ampla reforma na política de imigração de Washington.

Quase três anos depois da histórica eleição de Barack Obama, os trabalhadores americanos vivem, de acordo com o criador e diretor do curso de pós-gradu-ação de História da Universidade de Nova York (NYU), Daniel Walkowitz, o maior ataque a seus direitos desde o macarthismo. Walkowitz lançou em outubro de 2010, o extenso estudo Repensando a História dos Trabalhadores nos EUA – Ensaios sobre a experiência da classe trabalhadora, 1756-2009. O assalto se dá tanto pela inanição de Washington quanto pela vitória de candidatos republicanos nas eleições de 2010 na maioria dos estados da federação, ideólogos interessados em apresentar os trabalhadores sindicalizados, especialmente os do setor público, como responsáveis diretos pelo déficit público dos EUA, hoje na casa dos 15 trilhões de dólares.

Em Wisconsin, no Meio-Oeste, um dos estados mais afetados pela crise financeira global, o governador Scott Walker tornou-se um herói da direita ao reduzir os direitos dos funcionários públicos. Em março, após uma batalha de três semanas que transformou as ruas da capital, Madison, em cenário de manifestações a favor e contra a nova legislação, Walker aumentou os custos dos planos de saúde e das taxas veiculadas aos fundos de pensão dos servidores, ao mesmo tempo que diminuiu drasticamente o poder de barganha dos sindicatos na mesa de negociações com o governo por aumento de salários. O governador argumentou que assim poderia reduzir rigorosamente o déficit de 136 milhões de dólares sem ter de demitir 1,5 mil funcionários. Ao mesmo tempo, anunciou uma anistia de 137 milhões de dólares para empresários, com o objetivo de estimular a criação de empregos. Ações imediatamente adotadas, em maior ou menor escala, pelos novos governadores republicanos de Ohio, Michigan, Iowa e Indiana.

Em recente conversa com a imprensa internacional, Dennis Hughes, o presidente da seção nova-iorquina da maior central sindical dos EUA, a American Federation of Labor – Congress of Industrial Organization (AFL-CIO), afirmou que os primeiros cinco meses do ano transformaram o movimento sindical no bastião derradeiro de resistência contra o ataque conservador às conquistas sociais dos cidadãos americanos desde o New Deal dos anos 30. Em Wisconsin, as centrais chiaram especialmente com o estabelecimento de eleições anuais para confirmar se a maioria dos servidores quer de fato contar com um sindicato, o que revelaria a real- razão das reformas propostas pelos republicanos: o sufocamento das organizações, tradicionais aliadas dos democratas.

Walkowitz não vê exagero na avaliação de Hughes. Mas lembra que os sindicatos chegaram tarde e de forma tímida a um confronto ensaiado desde as eleições de novembro. “O caminho encontrado pelas centrais sindicais para reagir à violência tem sido o de bater na tecla de que a classe trabalhadora não pode pagar sozinha o pato pela crise financeira, enquanto os mais ricos seguem recebendo abonos de Washington, deixando de pagar impostos. O ataque do governo Bush aos sindicatos já havia sido intenso e, hoje, a bem da verdade, as centrais de fato lutam para sobreviver. Com os democratas no controle em Washington, as coisas melhoraram um pouco, mas não muito.”

Um dos principais especialistas no estudo de semiótica política na academia norte-americana, o cientista político Stephen Duncombe, também da NYU, concorda com Walkowitz e diz que o debate em torno das medidas conservadoras de ataque aos direitos dos trabalhadores deve ser compreendido como uma manifestação à esquerda do populismo de direita que assola os EUA nesta década. “Há a ideia de que uma elite de privilegiados, sejam eles republicanos ou democratas, se beneficia da República, em oposição à maioria da população. Não é correto afirmar que a maioria dos americanos é contrária ao direito da organização trabalhista. Mas a população que trabalha no setor privado está frustrada, confusa e com raiva, por perceber que ganha menos que seus pais ao mesmo tempo que descobre a falácia da ideia de igualdade no mercado de trabalho.”

Neste cenário de terra arrasada, o governo federal, diz Walkowitz, jamais pôs em prática a ideia de se usar a capacidade organizacional das centrais sindicais para defender os grandes projetos sociais da era Obama. Ironicamente, diz o acadêmico, a própria reação popular ao ataque republicano ao Medicare (um dos braços da saúde pública nos EUA, cuja dimensão a Câmara dos Representantes, dominada pela oposição, decidiu reduzir drasticamente) não veio dos trabalhadores organizados, mas de associações de idosos. Cidadãos com mais de 55 anos seriam os mais afetados pelas modificações propostas pelos republicanos. “Trata-se de uma rebelião popular, com nenhum controle da Casa Branca nem uso consciente dos sindicatos como força de pressão contra o corte de benefícios conquistados a duras penas.”

A aliança inédita de setores sindicais e dos grupos pró-reforma da imigração, historicamente antípodas nas discussões em torno da proteção dos direitos dos trabalhadores nos EUA, foi vista como um dos tentos da eleição de Obama. Mas a incapacidade da base governista de apresentar projetos voltados para os cerca de 12 milhões de trabalhadores ilegais no país e a reação tímida do governo diante da transformação do servidor público em um dos culpados pelo mau funcionamento da União deixaram os dois setores unidos na sensação de abandono pelos democratas que, em última instância, eles ajudaram a chegar ao poder. A situação atingiu o ápice quando o governador democrata de Massachusetts, o também negro Deval Patrick, um dos interlocutores mais próximos do presidente, aprovou o projeto que dá autoridade a prefeitos para reduzir o poder de barganha dos sindicatos na contratação de planos de saúde de professores, bombeiros e policiais.

Em recente estudo, a Massachusetts Business Alliance for Education revelou que, na última década, dois terços do aumento de despesas de Boston vieram dos planos de saúde dos servidores, defendendo as reformas “como um tema crítico” para os cofres estaduais. “É o fim de nossa relação com os deputados democratas”, anunciou o presidente da -AFL-CIO de Massachusetts, Robert Haynes.

Em cínico editorial, o Wall Street Journal, porta-voz dos conservadores, diz que as reformas trabalhistas propostas por um dos estados mais identificados com o ideário liberal, berço dos Kennedy, “prova que esta não é uma cruzada partidária contra os sindicatos”, como tem denunciado, tanto em textos opinativos quanto em reportagens especiais, o rival The New York Times. “Esta é uma necessidade fiscal, fundamental para poupar os contribuintes da crescente demanda salarial dos sindicatos que contam com o monopólio do serviço público. Depois das medidas tomadas por Walker, o presidente Obama disse que os sindicatos não deveriam ser transformados nos vilões da história. O que ele tem a dizer agora é que os democratas da Nova Inglaterra seguem pelo mesmo caminho?”, provoca o jornal de Rupert Murdoch.

Não muito, responde Walkowitz-. -Obama teria “deixado a peteca cair” ao optar por uma estratégia de aproximação com o centro, reagindo de forma tímida, com discursos esparsos, à demonização dos sindicatos pela direita mais ortodoxa. “Obama desrespeita seu próprio passado como líder comunitário, focando seu governo no que a administração qualifica de “política do possível”, aparentemente mais prática, não oferecendo o estabelecimento de um novo diálogo com os trabalhadores. É um dos grandes erros de sua administração”, diz.

O historiador lembra que os números desmentem a premissa conservadora de que o abatimento das taxas aos mais ricos beneficiaria toda a população, com o incremento de postos de emprego. Ao mesmo tempo, a política econômica atual não tem se revertido em uma criação significativa de postos de trabalho. “Um legado inegável da era Obama é uma nova onda de enfraquecimento dos sindicatos e dos movimentos de organização social.”

A sensação de alheamento das centrais não deve ser, no entanto, um problema para a reeleição de Obama. Walkowitz e Duncombe lembram que os democratas contam com duas vantagens: um plantel de candidatos fracos à direita, carentes de carisma ou muito conservadores até para o paladar do eleitor médio americano, e a inexistência de outra opção no flanco progressista para os setores organizados da esquerda ianque.

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