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Gianni Carta

Internautas racistas faziam parte de rede criminosa?

por Gianni Carta publicado 22/03/2012 19h49, última modificação 24/03/2012 12h10
A dupla teria aconselhado Wellington Oliveira, o assassino de 12 crianças em uma escola no Rio, em 2011
frança

Resta saber se tentativas de atentados como os da dupla Rodrigues e Vieira de Mello engatilharão ataques terroristas como aqueles de Mohamed Merah, autor de sete assassinatos e morto por policiais em Toulouse. Foto: AFP

Podemos imaginar as barbaridades que disseram na sexta 23 aos agentes da Superintendência da Polícia Federal (PF) os dois homens detidos por publicar mensagens racistas, homofóbicas e a incitar violência em um site.

Sem direito à fiança, os suspeitos alimentavam o site silviokoerich.org, hospedado na Malásia e ironicamente ainda no ar. Faziam ameaças de morte ao deputado federal Jean Willys (PSOL-RJ), ofensas à presidenta Dilma Rousseff, a negros, homossexuais e judeus. Teciam apologias à violência contra as mulheres, e, ao mesmo tempo, incitavam o abuso sexual de menores. A dupla planejava “atirar a esmo” nos alunos da Universidade de Brasília (UnB).

“As investigações continuam para verificar se há outros envolvidos nesta rede criminosa”, disse o agente federal Marcos Korem, que acompanhou o depoimento em Curitiba.

Tudo leva a crer que Emerson Eduardo Rodrigues, de 32 anos, e Marcelo Mello, de 29 anos, residentes respectivamente em Curitiba e Brasília, têm seguidores. A dupla, segundo policiais, teria aconselhado Wellington Oliveira, o assassino de 12 crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio, em 2011.

A PF não informou se Oliveira esteve em Curitiba, ou se os dois internautas presos na quinta se comunicaram por outros meios com o assassino do Rio. Certo é que Mello viajou de Brasília para Curitiba, onde foi detido, para receber “instruções”. Outro detalhe importante a sustentar a tese da existência de uma rede terrorista é o fato de que os dois dispunham de 500 mil reais em uma conta bancária.

Rodrigues parece ser o mentor de Mello, este alvo de investigação pelo Conselho Disciplinar Permanente da UnB, onde cursava Letras, devido ao seu envolvimento em conflitos raciais. O processo ainda está em andamento e tramita de forma sigilosa. Por não ter frequentado mais a universidade durante dois semestres consecutivos, Mello perdeu sua vaga em 2006.

Por sua vez, Rodrigues teria, segundo a PF, participado de assassinatos na capital paranaense. A motivação de todos os supostos homicídios, até agora sem autoria, seria a intolerância. Se for comprovada a cumplicidade de Rodrigues nos crimes, ganhará ímpeto a veracidade do plano da dupla de matar alunos a cursar faculdades de Direito, Comunicação e Ciências Sociais da UnB. Os ataques se dariam em uma casa de eventos.

Os alunos de Ciências Sociais pareciam ser o foco principal de Mello e Rodrigues. O motivo? Aqueles “esquerdistas” tinham ideais liberais sobre sexualidade e direitos de minorias. Enquanto isso, Rodrigues e Mello postavam fotografias de cenas pornográficas a envolver crianças e adolescentes. Como se dá com psicopatas, as ideias dos dois extremistas são permeadas de contradições.

De qualquer forma, como explicar essas tentativas de perpetrar ataques contra as vidas de estudantes e um deputado federal no Brasil? Em grande parte, esse fenômeno decorre da radicalização de uma narrativa ultraconservadora na “fascistofera” e na mídia canarinho.

Neste mundo globalizante onde a tecnologia (leia internet) aproxima cada vez mais os povos, o ultraconservadorismo a reinar nos tabloides e redes de tevê nos Estados Unidos e na Europa logo contagia outros países. E, por tabela, esse discurso tem um enorme impacto nos extremistas capazes de cometer atos de loucura. Esse fenômeno ocorre na Europa, onde a islamofobia e a judeofobia são uma grande preocupação.

Mas, ao contrário do Brasil, onde a vasta maioria da mídia é neoconservadora, na Europa e EUA há periódicos liberais que não aderem a essa narrativa, entre eles o Le Monde, La Repubblica, The Nation, etc. E mesmo diários conservadores como o Corriere della Sera ou Le Figaro fazem o mesmo.

Os dois presos vão responder por crimes de incitação e indução à discriminação ou preconceito de raça, por meio de recursos de comunicação social; de incitação à prática de crime e de publicação de fotografia com cena pornográfica envolvendo criança ou adolescente.

Resta saber se tentativas de atentados como os da dupla Rodrigues e Mello engatilharão ataques terroristas como aqueles de Mohamed Merah, autor de sete assassinatos e morto por policiais em Toulouse.

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