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Política

Crônica / Matheus Pichonelli

Não culpe 2013 pelo colapso de 2015

por Matheus Pichonelli publicado 09/10/2015 15h37
Depois do chacoalhão das ruas, a velha ordem econômica, que pauta as decisões políticas, se reorganizou. Tenta agora nomear o mal-estar sem se compreender como sintoma
Orlando Kissner / Fotos Públicas
Sete de Setembro

Desfile e manifestações por intervenção militar durante a parada de Sete de Setembro em Curitiba

Quando a presidenta Dilma Rousseff anunciou a entrega de um sétimo ministério de seu governo ao PMDB, e incorporou no primeiro escalão dois paus-mandados de Eduardo Cunha, a revolta inevitável, ainda retida nas redes, deu origem a algumas leituras sobre a estratégia*.

Uma delas, rascunhada por um amigo, é que tudo foi culpa de Junho de 2013. Esse meu amigo até hoje atribui ao sacode daquele ano a explicação para a fragilidade política atual de um governo até então popular.

É um exercício elástico de indução, mas no fundo não é tão fora de sentido. A maneira como o governo federal incorporou a culpa por um certo sentimento de indignação evidenciado em 2013 pede ainda um estudo aprofundado.

A verdade é que uma análise mais apressada nos levaria a concluir que no fundo nada mudou, a não ser as bases de sustentação de um governo e de um partido populares que jamais foram engolidos pelas elites e pelos meios de comunicação.

Afinal, o governador paulista, que jogou a Tropa de Choque contra os manifestantes, se reelegeu e passa bem, obrigado, em seu reduto eleitoral. E as tarifas de ônibus, foco do início da rebelião, voltaram a ser reajustadas pelas prefeituras pouco depois sem o mesmo alarde.

É uma leitura, novamente, com um certo sentido, mas insuficiente.

Ela reforça uma narrativa segundo a qual as manifestações de junho foram um grito desarticulado que ninguém entendeu, nem mesmo os seus protagonistas.

É mais ou menos como quando um filho rompe relações com os pais e resolve sair da linha ou fugir de casa. A primeira reação dos responsáveis pelo entorno não é compreender o contexto de uma chamada “rebeldia”, como se ela em si fosse um ato irracional.

Nem entender a opressão que é viver na “linha”.

A primeira reação, em vez disso, é atribuir a culpa a alguém. O pai dirá que a mãe não deu educação ao menino. A mãe acusará a ausência do pai. Os pais atacarão a omissão da escola, que acusará a omissão dos pais, que acusarão também os pais dos amigos.

Como no clássico Os Incompreendidos, de Truffaut, a solução é sempre uma reação ao sintoma, nunca uma compreensão do mal-estar. É o reforço de uma dose de remédio insuficiente. É a restrição das liberdades. É a chantagem, na melhor das hipóteses, ou a pancadaria e o reformatório, no caso mais extremo.

Quando as revoltas de junho estouraram, governos, partidos, polícia, Ministério Público e imprensa assumiram o papel de adultos responsáveis por Doinel, o personagem incompreendido do filme de Truffaut.

Quando provocados, eles deixavam todas as digitais de uma ignorância: eles não sabem lidar com a rua, mas o problema não é a rua que não sabe se comunicar (e ela sabe), e sim os sistemas de controle que não sabem ou não querem ouvir.

As reações e explicações de parte da mídia e dos partidos sobre os protestos são, até hoje, uma prova confessa de incompreensão. 

Sendo assim, um dos efeitos mais visíveis das manifestações de junho foi a descoberta não apenas de que os jovens organizados em rede estavam insatisfeitos com as suas cidades, mas a descoberta de que jornalistas, políticos e formadores de opinião não andam de ônibus, não circulam pela própria cidade e já não têm o monopólio da informação quando qualquer manifestante pode gravar e divulgar seu recorte de uma história mais ampla.

Tudo isso deixou evidente que o governador paulista não sabe dialogar sem a intermediação das balas de borrada.

Que o prefeito de São Paulo não sabe, ou não sabia, que sua simpatia e beleza eram insuficientes para desmontar o vespeiro da cidade onde acabava de se enfiar.

Que o governo federal não sabia o que fazer com as consequências de um modelo de desenvolvimento econômico que ajudou a alavancar.

Em comum, nem o partido A nem o partido B parece até hoje disposto a promover a autoanálise proposta pelas ruas.

Nenhum deles parece capaz de furar as próprias bolhas onde circulam em palácios e redações para entender o que diabos estamos falando quando o assunto é direito à cidade, tarifa zero, desmilitarização.

É mais fácil acusar um certo destempero irracional das ruas. Ou se apropriar da trilha aberta por elas.

Após o chacoalhão dos protestos, a popularidade de praticamente todos os governantes ruiu. Alguns índices, como os da presidenta Dilma, jamais voltaram ao patamar pré-junho.

Uma das consequências desse chacoalhão foi que, dentro do mesmíssimo processo institucional, grupos políticos organizados se aproveitaram da fragilidade de adversários para emplacar suas pautas às pressas.

Isso tem menos a ver com a sensibilidade em relação às ruas do que com o timming político desses grupos.

Dilma, por exemplo, ao trazer para seu colo, no plano institucional, uma série de medidas para acalmar a revolta, entre elas um plano mal explicado sobre Mobilidade Urbana, tirou da cartola uma proposta de Constituinte para a chamada reforma política.

A Constituinte, soubemos depois, era um rascunho de ideia, mas, num momento de fragilidade política, a reforma foi assumida por grupos que cresceram à medida que o governo se fragilizava e precisava sinalizar algum tipo de resposta às ruas.

A aprovação da Lei Anti-Corrupção, que pouco depois levaria donos de empreiteiras para a cadeia, é resultado indireto desse chamado.

Em compensação, a ascensão de Eduardo Cunha e dos grupos conservadores ao Congresso se tornou a face trágica desse deslocamento.

A ascensão desses grupos conservadores não é culpa nem das ruas nem de uma suposta irracionalidade ou inconsequência das ruas. 

O que estamos vendo desde junho é uma REAÇÃO aos protestos, e não o resultado deles.

A herança das ruas é outra. Junho de 2013 não começou nem terminou em junho de 2013. Teve desdobramentos nos protestos anti-Copa, por exemplo, e volta a tomar força nas manifestações contra as mudanças e o possível fechamento de escolas públicas da rede estadual em São Paulo.

Para o professor da Unicamp Marcos Nobre, as manifestações daquele ano marcaram o rompimento entre a classe política e a sociedade. Mostraram que os primeiros não governam sem o apoio da população, e esta já não se satisfaz com o grau de participação oferecido a ela e vai cada vez mais pressionar por mudanças de fora para dentro.

Mas não mudanças de comando, como pedem agora os grupos pró-impeachment. Não uma mera troca de guarda. Mas mudanças no entendimento em relação aos seus direitos.

Da mesma forma como o movimento não começou em junho, sendo precedido por revoltas similares em Salvador, Vitória e Florianópolis, o resultado do acúmulo de mobilizações não pode ainda ser dimensionado porque ele mal começou.

Pode não ter tido o efeito esperado já nas eleições de 2014, mas por mera incapacidade dos grupos políticos de compreenderem seus efeitos. A tensão em relação aos partidos e governos é resultado da teimosia e insensibilidade das lideranças políticas que envelheceram e estão sendo tragados pela História.

Não a História com ordem cronológica, que pede narrativas com começo, meio e fim. Mas a História cuja relação com o tempo é espectral. Esse tempo, conforme define o filósofo Vladimir Safatle ao analisar o colapso da ideia de indivíduo como a conhecemos, comprime o momento e é afetado por uma série de acontecimentos aparentemente distantes. Junho de 2013 é um desses acontecimentos.

Prova de que essa História está ainda em construção é que, apesar do descolamento da realidade vivido pelo sistema político tradicional, uma nova ideia de sujeito, coletividade e direito à cidade tem ganhado força em outras redes. Este encontro aqui, hoje, é resultado disso.

Só no Google Acadêmico existem, hoje, 351 resultados para a busca “protestos de junho”.

É possível dizer que não tivemos, num passado recente, tanta gente debruçada em compreender as misérias de nossas cidades como nos meses seguintes ao ápice dos protestos.

Alguns viraram grandes documentos históricos, como o livro “Cidades Rebeldes – Passe Livre e as Manifestações que tomaram as ruas do Brasil”, publicado pela Boitempo.

Portanto, quem quiser entender o que levou a junho, e o que tem levado ao impasse político atual, tem hoje à disposição algumas das mais profundas análises sobre os dilemas contemporâneos que não se restringem a disputas políticas paroquiais.

São questões que nos levam à reflexão do que somos, o que queremos e o que buscamos para as nossas cidades. Essas cidades tem sido durante anos, para usar uma expressão de David Harvey, um epicentro da criatividade destrutiva que agora tentamos entender.

Para Harvey, na história urbana, calma e civilidade são exceções, e não a regra. Junho, portanto, não foi uma exceção: recebeu um pouco mais de atenção de veículos de comunicação e governantes que não costumam andar de ônibus nem circular pela periferia, onde massacres e protestos pela ampliação de direitos via mobilidade são recorrentes.

E por que esse conflito é incessante?

Porque pagamos o preço das nossas escolhas, e são elas que estão agora em xeque.

Fico com uma explicação da professora e urbanista Ermínia Maricato sobre como a desoneração dos automóveis somada à ruína do transporte coletivo fez dobrar o número de carros nas cidades.

Diz ela:

“Em 2001, o número de automóveis em DOZE metrópoles brasileiras era de 11,5 milhões; em 2011, subiu pra 20,5 milhões.

Os congestionamentos de tráfego em São Paulo, onde circulam diariamente 5,2 milhões de automóveis, chegam a atingir 295 quilômetros das vias. E a velocidade média dos automóveis em São Paulo, entre as 17h e as 20h, é de 7,6 km/h, quase igual a da caminhada a pé.

O governo brasileiro deixou de recolher impostos no valor de R$ 26 BILHÕES desde o final de 2008 e US$ 14 bilhões foram enviados ao exterior. Segundo especialistas em mobilidade urbana, há mais subsídios para a circulação de automóveis (incluindo combustível e outros itens) do que para o transporte coletivo.

A prioridade ao transporte individual é complementada pelas obras de infraestrutura dedicadas à circulação de automóveis. Verdadeiros assaltos aos cofres públicos, os investimentos em obras de viadutos, pontes e túneis, além de ampliação de avenidas, não guardam qualquer ligação com a racionalidade da mobilidade urbana, mas com a expansão do mercado imobiliário – além, obviamente, do financiamento de campanhas.

O forte impacto da poluição do ar na saúde da população paulistana, com a consequente diminuição da expectativa de vida, tem sido estudado pelo médico Paulo Saldiva, pesquisador da USP e do Instituto Saúde e Sustentabilidade. O comprometimento da saúde mental (depressão, ansiedade mórbida, comportamento compulsivo) tem sido estudado pela psiquiatra Laura Helena de Andrade, também pesquisadora da USP.

É da vida, do tempo perdido, mas também da morte que estamos tratando”.

Esses poucos parágrafos foram escritos no contexto dos protestos de junho. Muito antes, portanto, da Polícia Federal começar a investigar e prender os mesmos financiadores de campanha de que fala o texto.

Dois anos depois, esses parágrafos explicam exatamente não só o estado irritadiço das coisas hoje, mas o que nos levou a ele: uma ideia de liberdade associada ao direito ao transporte individual e ao egoísmo do asfalto.

Hoje as pessoas brigam contra ciclovias como se parte de um direito delas estivesse em jogo. Um direito inclusive de acelerar e atropelar.

A bandeira dessas pessoas é um pedaço de asfalto, e isso é muito pouco.

Este trecho do livro eu li enquanto viajava em um ônibus intermunicipal da CPTM de Campinas em direção a Valinhos, para onde me mudei em 2014 em busca da chamada, entre aspas, qualidade de vida.

Quando fechei as páginas, reparei no trabalho mecânico do motorista que dirigia, cobrava, gritava com os outros motoristas e negociava pindureta com os outros passageiros. Todos ao meu redor voltavam de seus trabalhos mecânicos com o único objetivo de chegar em casa, deitar no sofá e desligar a TV.

Havia um pouco de tudo naquele ônibus: estudantes, empregados, operários, bêbados e usuários de crack de uma boca ali perto da divisa entre as cidades. Todo mundo ali estava ligado por um mesmo cansaço. Pois, não por acaso, tudo o que ouvimos ao fim do expediente é: “bom descanso”. É o que nos resta nas nossas cidades quase mortas.

Ao desembarcar, serpenteamos por calçadas estreitas, quebradas, escuras. Não existem parques abertos ao fim do dia no meu bairro. Existem, isso sim, condomínios. Muitos. E pessoas indo e vindo com seus carros nesses condomínios. Entre um e outro existe um bar, uma igreja, uma padaria. Não tem teatro, não tem cinema, não sobrou um único terreno baldio para soltar pipa.

Dentro dos condomínios, as crianças correm em espaços restritos entre as vagas de garagem enquanto existe sol. Tudo parece em ordem até que um morador estacione a roda do carro na linha imaginária da garagem do vizinho. É quando trocamos a suposta insegurança das ruas para sermos enquadrados numa ordem confusa administrada pelo síndico ou pelo zelador. Tudo consta ou não consta do regimento interno, e a partir dele produzimos nossas desavenças, conforme explica o psicanalista Christian Dunker.

É a manifestação do que Freud chama de narcisismo das pequenas diferenças: naquela rotina condenada entremuros sobrou apenas a paranoia em relação aos que vivem do outro lado do muro e o tédio dos velhos e parcos assuntos entre seus iguais: o sapato da vizinha, o carro novo do vizinho, a malcriação dos filhos, as obscenidades da novela.

Quando escurece, todos já estão em casa recolhidos, inclusive as churrasqueiras da área gourmet, usadas unicamente para secar roupas e sapatos.

O que os protestos de junho fizeram foi recordar que a vida é outra coisa. Que a vida é expansão, e não confinamento. É circulação, e não tráfego. É a possibilidade do encontro, e não do acúmulo.

Contra tudo isso, e de forma ainda mais avassaladora, a ordem econômica, que financia e determina escolhas políticas, nos empurra com ainda mais força para os bolsões de concreto e asfalto tentando nos fazer acreditar que realmente seremos felizes se tivermos sorte de não encontrar fila no supermercado, no shopping, no aeroporto. Para dar passagem a eles, empurramos para ainda mais longe as populações marginalizadas em direção às franjas das cidades, das encostas, das áreas de proteção ambiental.

Depois do chacoalhão das ruas, essa ordem econômica se reorganizou, reagiu e tentou nomear o mal-estar sem se compreender como sintoma. Aproveitou-se da fragilidade política do momento para emplacar, enquanto é tempo, projetos sobre Estatuto da Família, terceirização, distritão, financiamento de campanha, pauta-bomba, redução da maioridade penal, sucateamento da escola pública e patrulha sobre o que se deve ou não debater em sala de aula. Tudo, portanto, que restringe ainda mais a nossa circulação e nossas vidas.

É como se, cientes ou não de que estão condenados a serem tragados pela História, as forças conservadoras, aliadas aos grandes empresários, saíssem em retirada saqueando, carregando no bolso o que podem e espalhando fogo nas pontes e plantações.

Para isso, incentivam e colocam outros atores nas ruas, a maioria deles a antítese dos protestos de junho: obedientes a velhos comandos, saudosos de velhos regimes e indignados não com a restrição do espaço público, mas de seus rendimentos privados.

Erra, a meu ver, quem associa os protestos de 2013 ao início das ondas conservadoras de 2015. Estas não são a continuação dos primeiros. Não estavam nas ruas quando o movimento de junho estourou. Não sabemos onde estarão quando os mesmíssimos sintomas explodirem num futuro breve. Uma coisa é certa: não passarão.

 

 

* Texto apresentado durante a XVI Semana de Ciências Sociais da Unesp Araraquara