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Política

São Paulo

Novo secretário promete "Viradinhas" e combate à "privatização do carnaval"

por Wanderley Preite Sobrinho — publicado 29/01/2015 16h23, última modificação 30/01/2015 10h27
O vereador Nabil Bonduki (PT), que toma posse como secretário de Cultura de São Paulo no próximo dia 3, também criticou Marta Suplicy e defendeu a nomeação de Chalita
Nabil Bonkuki

No próximo dia 3, o vereador e urbanista de formação Nabil Bonduki será o novo secretário municipal de Cultura

Foi com o passo apressado e voz ofegante que o vereador de São Paulo Nabil Bonduki (PT) entrou em seu gabinete na terça-feira 27 pedindo desculpas pelo atraso. Embora só assuma o cargo de secretário municipal de Cultura na próxima terça-feira 3, Nabil já divide suas funções de parlamentar com a de secretário. De uma reunião para outra, vai formando sua equipe e tomando decisões, como a confirmação de seu secretário-adjunto, Alfredo Manevy, na presidência da SPCine, sua aposta para exibir filmes independentes na cidade.

Visivelmente satisfeito na nova função, Nabil promete continuar, “com ajustes”, o trabalho do antecessor --o agora ministro da Cultura Juca Ferreira. Uma das adaptações vai atingir a Virada Cultural, que também será levada à periferia para evitar grandes aglomerações. “Depois desses dez anos é necessário fazer uma avaliação.” Ele também quer evitar que o carnaval de rua na cidade, em ascensão, acabe “privatizado", como aconteceu em Salvador.

Mesmo admitindo que o PT “perdeu o caráter inovador” e se “contaminou” com o processo eleitoral, defendeu a indicação do peemedebista Gabriel Chalita para a pasta de Educação e não poupou a senadora Marta Suplicy (PT-SP), cujas críticas públicas ao partido seriam “personalistas” e teriam por objetivo deixar a legenda e levar consigo outros insatisfeitos. “Não precisamos de líderes carismáticos”. Leia os principais trechos da entrevista:

CartaCapital: Como foi a negociação para que o senhor assumisse o lugar do agora ministro da Cultura Juca Ferreira?

Nabil Bonkudi: O Juca teve um papel importante na campanha da Dilma e desde o ano passado havia a possibilidade de ele ser indicado para o Ministério da Cultura, lugar que já ocupou no governo Lula. Mas minha indicação só se colocou concretamente no último dia do ano.

CC: O senhor é um urbanista reconhecido. Por que a indicação para a pasta da Cultura?

NB: De alguma maneira eu já venho trabalhando nessa área há bastante tempo. Tenho livro publicado sobre patrimônio cultural e histórico, fui autor de vários projetos de lei para o setor, como o Programas de Valorização de Iniciativas Culturais... e então o prefeito me convidou. Ele já havia conversado comigo sobre fortalecer a relação entre cultura e cidade. São Paulo tem um potencial cultural que dialoga com a utilização do espaço público. Acredito que tenha sido em função dessa minha experiência que recebi esse convite do prefeito, o que me honra muito porque a cultura pode ser tão ou mais transformadora do que a própria política.

CC: O que muda com a sua chegada à secretaria?

NB: Será uma administração de continuidade, obviamente trazendo as características pessoais e ajustes necessários. A condução da secretaria foi muito correta, embora algumas áreas talvez precisem de uma atenção maior, como a de bibliotecas. Precisamos de um programa municipal Livro e Leitura, uma área na qual o Juca mexeu pouco. Ele também começou e nós vamos aprofundar a articulação territorial dos equipamentos públicos. Tradicionalmente, a cultura tem equipamentos ligados a certos departamentos. As bibliotecas estão em um, as casas de cultura em outro, as casas históricas em outro departamento. Queremos articular essas iniciativas e esses equipamentos no território, como a área de cultura dos CEUs [Centros Educacionais Unificados], por exemplo.

CC: E o que não muda?

NB: O SPCine é um exemplo. Uma empresa paulistana de fomento e exibição de filmes independentes. Ela está sendo instalada agora, depois de dois anos de trabalho. Temos o Circuito Cultural, que é a realização de espetáculos e shows nos equipamentos municipais. A nossa intenção é continuar fazendo com que esses eventos não fiquem muito concentrados e ocorram ao longo do ano na cidade inteira. Já tivemos uma boa experiência com as festas no aniversário da cidade. A prefeitura montou cinco palcos, um em cada zona da cidade. Isso é pensar a cidade. Temos de pensá-la sem essa polaridade de centro-periferia. Claro que tem certos equipamentos no centro que são de maior excelência, como o Theatro Municipal, o Centro Cultural São Paulo e a biblioteca Mário de Andrade, mas temos de ter também na periferia eventos e equipamentos, se não com a mesma dimensão, com a mesma qualidade e com a possibilidade de diálogo com a população de cada uma dessas regiões.

CC: Como a secretaria pretende investir no cinema independente?

NB: A SPCine é uma empresa que busca fazer de São Paulo um polo importante não só na produção cinematográfica, mas também na exibição e distribuição, permitindo que filmes produzidos em São Paulo, no Brasil e do circuito independente estejam presentes aqui. Hoje temos um estrangulamento da exibição de filmes que não são do circuito hollywoodiano. Um dos projetos é viabilizar salas de cinema a partir de espaços do município. Uma espécie de rede de salas de cinema municipais que permitam ao público ter acesso a essa produção. A prefeitura desapropriou dois cinemas no centro (o Cine Arte Palácio e o Marrocos) e tem um terceiro que está em processo de desapropriação (Cine Ipiranga). Eles devem ser colocados nessa rede de cinemas municipais. O Marrocos está ocupado por um movimento de moradia, então terá um processo mais complexo, mas a intenção é que a gente encontre parceiros para tocar esses cinemas. Também estimulamos o que chamamos de cinema de rua de intermediação, que tem na reabertura do Belas Artes um exemplo. É importante que essa experiência seja estendida a outros espaços que ainda tenham a sala de cinema mantida para que a gente possa viabilizar a reabertura sem um aporte de recursos públicos. Isso faz parte da reabilitação e ocupação da região central fora do horário de trabalho, um local com grande potencial de lazer e entretenimento.

CC: A Virada Cultural vai sofrer mudanças?

NB: A Virada teve um papel muito importante na cidade, é precursora da articulação da cultura com o espaço público ao levar as pessoas para o centro, mas acho que depois desses dez anos é necessário fazer uma avaliação. Precisamos superar alguns problemas sem revisar a essência do evento. Temos tido problemas sérios de violência, arrastão e já tivemos morte na madrugada, o que acaba criando uma imagem negativa da Virada. Muita gente fica receosa de ir, quando deveria ser o contrário: a ideia da virada é levar as pessoas para a rua. E temos de ver a possibilidade de ter viradinhas, né? Entendo que os eventos no aniversário da cidade já foram uma viradinha. Ela não entrou na madrugada, mas tivemos eventos com muita gente no sábado e domingo à tarde e à noite. E não precisa ser necessariamente no mesmo dia. Se a gente pensa que São Paulo pode ter vários eventos em diferentes momentos nas várias regiões da cidade, haverá uma desconcentração de público, porque ultimamente tem ficado difícil para as pessoas chegarem à Virada. Às vezes eventos muito grandes podem ficar disfuncionais. Alguns bares nem abrem no dia da Virada, quando a intenção era levar público para dinamizar comércios, serviços. Esses eventos devem servir para tornar a cidade mais segura com sua ocupação ao invés de desertifica-la. Mas quando começa o efeito contrário…

CC: O mesmo serve para o carnaval de rua, que vem crescendo em São Paulo?

NB: O carnaval de rua não tem a mesma lógica que a Virada porque vem de baixo para cima. Não é a prefeitura que propõe. A formação de blocos vem sendo espontânea. O que temos de evitar é o uso comercial do Carnaval. Ele tem de ser público, gratuito para evitar o que aconteceu em Salvador, onde o carnaval é praticamente privatizado, o que começa a ir contra à própria festa. Recife conseguiu evitar que houvesse essa exploração comercial. Claro que pode ter patrocínios, mas pensados para o conjunto do carnaval e não para um ou outro bloco. Também é preciso evitar a hiperconcentração de gente. A médio prazo, espero que a gente tenha uma equidade dos blocos porque, hoje, mais de 50% deles ficam em duas subprefeituras: Sé e Pinheiros, que representam cerca de 5% da população da cidade. Isso faz parte de um projeto urbano mais amplo, que é tornar a cidade menos desigual.

CC: Como está o orçamento da pasta?

NB: Este ano está em torno de R$ 550 milhões, cerca de 1,7% do orçamento do município. A meta é chegar ao final do governo Haddad com 2%, mas isso depende do desempenho da prefeitura, que tem obrigações fixas que não podem ser desconsideradas. Se pensarmos que pode haver aporte de outras secretarias em função da transversalidade da ação cultural, diria que já estamos nos aproximando dos 2%.

CC: O ex-senador Eduardo Suplicy também vai integrar o novo secretariado de Haddad. O que o senhor achou dessa escolha?

NB: O Suplicy é uma pessoa muito querida na cidade, com uma atuação fantástica na área de direitos humanos, sempre presente nas crises relacionadas ao assunto. Acho que é a pessoa certa para o cargo e eleva a qualidade da administração. Digo isso sem desmerecer o excelente trabalho que vem sendo feito por Rogério Sotilli, que continuará como secretário adjunto. É uma honra para qualquer um de nós ter como secretário o Eduardo Suplicy.

CC: Houve muitas críticas à nomeação de Gabriel Chalita para a Educação, uma vez que ele foi acusado de improbidade quando secretário de Educação do governo Geraldo Alckmin (PSDB). Isso não mancha a administração do prefeito?

NB: Acredito que o critério de honestidade tem sido adotando também pelo Haddad. As denúncias que foram feitas contra o Chalita não foram comprovadas. Obviamente se essa investigação tivesse seguido, talvez o prefeito não tivesse feito essa nomeação. O Chalita pode trazer uma ampliação do arco político de apoio ao governo Haddad porque, infelizmente, no Brasil, as alianças são necessárias embora existam poucos partidos ideológicos. O Chalita e o PMDB apoiaram o Haddad no segundo turno. Eles concorreram, não é o mesmo projeto, mas hoje não se governa um país, um estado ou uma cidade sem alianças, o que significa diferentes poderem compartilhar do mesmo governo. Além disso, a direção é dada pelo prefeito, ainda mais em uma área em que o Haddad foi ministro. Vamos trabalhar juntos porque a relação entre educação e cultura é uma obrigação. Temos equipamentos inclusive compartilhados, como os CEUs, por exemplo.

CC: A indicação do Chalita não contrasta com a de Paulo Freire, secretário de Educação da Erundina?

NB: Nós não temos dois Paulo Freires, certo? E tem outra questão: têm pessoas muito importantes na área da educação que não estão dispostas a participar de um governo. Aliás é um problema de como a política tem sido tratada em nosso país, criminalizada, combatida. A população tem uma certa intolerância política que faz com que muita gente sequer tenha interesse em assumir um cargo. Às vezes eu mesmo coloco em dúvida se devo assumir uma secretaria ou me candidatar a vereador porque, no fundo, você acaba dedicando uma parte significativa da sua vida para uma atividade que nem sempre é reconhecida. Poderíamos ter outros nomes para a secretaria de Educação, claro, como para Cultura também. Não existem nomes únicos, mas não teríamos outro Paulo Freire.

CC: Esse caso exemplifica a mudança de postura do PT desde sua fundação?

NB: Eu acho que o PT mudou bastante, mas acho que não é por causa deste caso. Tenho críticas também. Estou no PT há 35 anos, alguns meses depois de sua fundação. A gente perdeu um pouco o caráter inovador. Nesses momentos, temos de reformular novas políticas e aqui em São Paulo o Haddad demonstra na prática a implementação dessas novas formas de gerir a cidade. As pautas vão mudando e, ao mudarem, nós temos de nos atualizar. A cultura política do país contaminou um pouco o PT também. Práticas mais tradicionais contra as quais o partido surgiu. De repente, para disputar as eleições, o PT acaba de alguma maneira sendo influenciado por essas práticas, a necessidade de alianças… Então, a vida não é fácil para quem assumiu a responsabilidade de governar o Brasil ou a maior cidade do país. Eu sou de uma corrente que nasceu com a ideia da refundação. Mas não é começar do zero, é se atualizar a partir de uma reflexão do país que temos hoje.

CC: O que o senhor acha da postura da ex-prefeita Marta Suplicy, que vem pedindo com veemência essas mudanças no partido?

NB: Eu acho que a senadora Marta tem tido uma postura que vai para o rompimento. Não a vi defendendo isso quando ela parecia bem integrada ao partido. Não sei quais são suas intenções, não conversei com ela. Falam que ela quer sair do partido e parece que ela quer criar fatos que, de certa forma, justifiquem sua saída e levem aqueles que estão descontentes com o PT. Não acho uma postura adequada, principalmente porque é feita de maneira individual. Dentro do partido existe espaço para fazer essa discussão de mudança. Precisamos batalhar por esses espaços, e uma liderança como a Marta seria importante, mas para isso a gente precisa ouvir várias cabeças. Não é uma pessoa. Não precisamos de líderes carismáticos, e isso está no espírito do PT. Nós precisamos de um coletivo que discuta as mudanças que precisam ser feitas no partido e, a partir daí, implementá-las. Eu vejo uma atitude um pouco personalista da prefeita.

CC: Qual o balanço que o senhor faz desses dois anos como vereador de São Paulo?

NB: A maior dificuldade é fazer um mandato qualificado. Seja em atuações de visibilidade, como a relatoria do Plano Diretor, seja em projetos de lei localizados, como o da merenda escolar com alimentos orgânicos, gestão participativa de praças. Mas é também necessário contribuir com o Executivo, seja fiscalizando ou levando propostas, e fazer tudo isso caber no tempo. Mas o grande desafio na Câmara é saber se comunicar porque não adianta fazer um bom trabalho e não repassar.  Eu acho que o que foi feito nesses dois anos já valeu por quatro.