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Na folha da CIA?

por Leandro Fortes — publicado 06/05/2011 15h53, última modificação 09/05/2011 17h22
O delegado Daniel Lorenz deixou a Secretaria de Segurança do Distrito Federal sob a suspeita de integrar um esquema para difamar a comunidade árabe
Na folha da CIA?

O delegado Daniel Lorenz deixou a Secretaria de Segurança do Distrito Federal sob a suspeita de integrar um esquema para difamar a comunidade árabe. Foto: Carlos Moura/CB/D.A Press

Ao pedir demissão do cargo de secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, em 19 de abril, o delegado federal Daniel Lorenz alegou não suportar “interferências políticas” na sua pasta. Lorenz estava havia apenas quatro meses no cargo. Fora indicado ao governador Agnelo Queiroz, do PT, pelo ex-diretor-geral da Polícia Federal Luiz Fernando Corrêa. O governador petista não se mexeu, é fato, para impedir que o trabalho de Lorenz, ex-chefe do Serviço Antiterrorismo (Santer) e ex-diretor de Inteligência da PF, fosse atrapalhado pelo histórico conflito corporativo das polícias Civil e Militar de Brasília, nem pelas bancadas policiais que se digladiam na Câmara Distrital. Deixou o secretário cair de podre, mas tinha um motivo para tanto.

Lorenz não sabia, mas logo depois de indicado para o cargo, aliados petistas e da base do governo federal no Congresso Nacional fizeram chegar a Queiroz uma série de informações sobre as ligações do delegado com a CIA e com o ex-governador José Roberto Arruda, defenestrado do cargo, em 2009, por ter se metido no maior esquema de corrupção já documentado na história do Brasil.

Queiroz foi avisado tardiamente que em 2008, também por indicação de Corrêa, Arruda havia tentado se blindar de investigações federais ao nomear o delegado federal Valmir Lemos, atual superintendente da PF no Rio de Janeiro, para a secretaria. À época, o ex-governador estava apavorado por conta da Operação Satiagraha, de julho daquele ano, na qual imaginava ter sido filmado e grampeado em conversas com Durval Barbosa, o delator do esquema de corrupção brasiliense apanhado na Operação Caixa de Pandora, realizada a partir de uma investigação do Ministério Público Federal, um ano depois. Mesmo sob suspeita, Arruda caiu nas graças de Corrêa ao dar posse a um subordinado do ex-diretor-geral. Eleito Queiroz, o ex-diretor da federal correu para emplacar Lorenz. Ao saber das relações anteriores de Corrêa, o governador petista ficou desconfiado.
Mas a gota d’água foi a publicação, em 6 de abril, de uma “reportagem” na revista Veja sobre uma suposta rede de terrorismo na região de Foz do Iguaçu, no Paraná. Lorenz é o principal -suspeito de ter vazado os documentos da PF relativos a uma investigação na região, de 2009, tocada pela Divisão de Inteligência, então chefiada por ele. Suspeita-se que Lorenz também tenha sido a fonte que vazou à Folha de S.Paulo a existência de uma investigação contra o banqueiro Daniel Dantas. O vazamento obrigou o delegado Protógenes Queiroz a apressar o que viria a ser a Satiagraha. O secretário deixou a pasta na semana seguinte à publicação da “reportagem” da Veja.
Em 17 de abril, dois dias antes de Lorenz pedir demissão, cerca de mil pessoas fizeram uma manifestação em Foz do Iguaçu, na sede da Sociedade Beneficente Islâmica, em repúdio ao texto da semanal da Editora Abril. O ato contou com a presença das principais lideranças islâmicas da região, entre elas o xeque sunita Mohsin Al-Husseini e o xeque xiita Mohamed Khalil. Ambos condenaram a tentativa de demonização da comunidade árabe no Brasil e nos países vizinhos e apontaram a CIA como a principal fomentadora desse movimento, sobretudo na mídia brasileira.

A comunidade árabe afirma que a CIA reservou 1 bilhão de dólares para financiar o sistema de difamação da religião islâmica desde os atentados de 11 de setembro de 2001. Para o Brasil, de acordo com levantamento feito pela Federação Árabe-Palestina, apenas em 2011, a verba prevista para a mídia local, vinda dos cofres da agência de inteligência dos Estados Unidos, seria de 120 milhões de dólares.
Teoria conspiratória? De acordo com documentos da diplomacia dos EUA vazados recentemente pelo WikiLeaks, o Departamento de Estado norte-americano montou uma poderosa estratégia de financiamento da mídia para difamar a religião muçulmana e, em outra linha, garantir a impunidade daqueles que o fizerem. Para tal, diz o despacho, seria necessária “uma campanha mais intensa pela mídia e mobilizando comunidades religiosas a favor de não se punir quem difame religiões”. E, mais adiante, aponta parceiros: “Grandes veículos de imprensa, como O Estado de S. Paulo e O Globo, além da revista Veja, podem dedicar-se a informar sobre os riscos que podem advir de se punir quem difame religiões-, sobretudo entre a elite do País”.
Um segundo despacho reforça a suspeita da comunidade árabe: “Essa embaixada tem obtido significativo sucesso em implantar entrevistas encomendadas a jornalistas, com altos funcionários do governo dos EUA e intelectuais respeitados”. Além disso, propõe que visitas ao Brasil de “altos funcionários do governo dos EUA seriam excelente oportunidade para pautar a questão para a imprensa brasileira”. À época desse comunicado, a Organização das Nações Unidas estava para votar uma resolução que condenava a difamação de religiões. Os Estados Unidos eram contra. No dia 26 de março de 2009, a ONU aprovou a resolução e considerou o ato como uma violação dos direitos humanos.

Em abril do mesmo 2009, Lorenz, então chefe da Inteligência da PF, foi a uma audiência pública na Câmara dos Deputados para revelar a suposta existência de terroristas na Tríplice Fronteira. Aos deputados ele acusou o libanês Khaled Hussein Ali, dono de uma lan house em São Paulo, que chegou a ser preso sob a acusação de “propagar ideias racistas” na internet, de ter ligações com a Al-Qaeda. Segundo Lorenz, Ali utilizava a rede para recrutar e treinar militantes em outros países, além de dar apoio logístico e fazer reconhecimento de potenciais alvos terroristas. Curiosamente, Ali é o personagem principal da capa recente da Veja, onde aparece como coordenador da Jihad Media Battalion, que seria uma espécie de serviço de divulgação de comunicados da Al-Qaeda. Lorenz havia se referido ao mesmíssimo tema na audiência pública na Câmara.
A obsessão do delegado com terroristas árabes só se iguala a seu alinhamento com as doutrinas antiterroristas disseminadas pela CIA e pelo FBI mundo afora. Antes de sair da secretaria do DF, ele havia firmado um acordo de cooperação com o Grupo Especial de Operações da Espanha, tropa de elite de combate ao terrorismo, para treinar 20 policiais brasilienses. Outros 20 policiais foram escalados para treinamentos nos EUA, em Israel e na Colômbia, onde, aliás, Lorenz ocupou o posto de adido policial antes de assumir a secretaria.
“Não há terroristas entre a comunidade árabe brasileira, mas, sim, dentro de setores da imprensa”, dispara o hoje deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB-SP). Queiroz fez parte da equipe da Divisão de Combate ao Crime Organizado (Decoi) da Polícia Federal que atuou, entre 2000 e 2001, na Tríplice Fronteira. Segundo ele, havia uma miscelânea permanente de serviços de inteligência na região, entre os quais a CIA, o Mossad (de Israel), agências de países do Oriente Médio e a Agência Brasileira de Inteligência. Mas nunca foi provada a existência de terroristas.

O parlamentar acaba de aprovar na Câmara uma Proposta de Fiscalização e Controle (PFC) para começar a investigar como funciona, e quem financia, o combate ao terrorismo no Brasil. Crime, aliás, que nem sequer é tipificado, apesar de intenso lobby do governo americano a favor. Ele quer saber se a CIA continua a irrigar os cofres da PF com dinheiro, como acontecia até 2009, a partir de depósitos em contas pessoais de delegados e sem nenhum tipo de prestação de contas. A PFC tem a mesma natureza jurídica de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, mas é pouco conhecida no Congresso. Ao contrário de uma CPI, pode ser conduzida apenas por um parlamentar, no caso o próprio Queiroz, com amplos poderes de investigação.
O deputado do PCdoB poderá investigar todas as contas da PF envolvidas no combate ao terrorismo no Brasil, como elas são utilizadas, quem se beneficia desses recursos, quais operações foram feitas ou estão em andamento, e quem são os investigados. Ele foi nomeado para a função pelo presidente da Câmara, Marcos Maia (-PT-RS-), dentro das atribuições da Comissão de Combate ao Crime Organizado. O parlamentar, que sofre 32 processos administrativos na PF por ter comandado a Satiagraha, todos abertos na gestão de Corrêa, poderá convocar o ex-diretor-geral para prestar informações no Congresso. O mesmo deverá acontecer com Lorenz.

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